Manifestações de regosijo em honra de «O Ilhavense»

Jornal "O Ilhavense", 1921-11-27

Não foi uma data que passasse despercebidamente ao povo desta vila, o 10.º aniversário do nosso jornal.

Desde manhã que a esta redacção começaram afluindo as pessoas mais gradas da vila, que aqui vieram propositadamente apresentar-nos os seus cumprimentos de parabens. O correio trouxe-nos bastantes cartas e bilhetes de visita e o telégrafo alguns telegramas, sendo alguns deles de bastante longe.
Ás oito horas da noite fomos surpreendidos por uma manifestação que nos  quiseram vir fazer alguns amigos, trazendo à sua frente a fanfarra da Vista Alegre e sendo nessa ocasião atirado bastante fogo. A nossa redação foi invadida num momento por dezenas de amigos que nos abraçaram, sentindo-se o director deste jornal bastante sensibilizado por tão expontanea e quente manifestação.
A fanfarra entrou para o café que fica contíguo à redacção onde estava tocando lindas peças do seu repertório até às 11 horas. Num momento em que tudo estava mais sossegado, o nosso director agradeceu aos briosos operários da fábrica da Vista-Alegre o seu gesto, declarando-lhs que jamais «O Ilhavense» deixaria de lutar pela nossa terra e por todos aqueles que trabalham.
Enquanto a fanfarra tocava no recinto contíguo à redacção e lá fora estalejavam os foguetes, o nosso prestimoso amigo r distinto colaborador sr. Diniz Gomes, oferecia, nos altos desta redacção, um delicado copo de agua à redacção de "O Ilhavense" e a alguns dos seus mais intimos amigos. Conquanto não pudessem comparecer todos os convidados, vimos ali os srs. José Sacramento, chefe da secretaria de Finanças, Artur Rasoilo, comissário naval, Eduardo Ançã, 3.º oficial de Finanças, padre Angelo Ramalheira, ex-capelão militar, Alberto Mendonça, alferes de infantaria n.º 24, Manuel Marta, professor oficial, João Teles, colaborador de «O Ilhavense», Viriato Teles, director do Hospital de Ilhavo, Manuel Mano, chefe da Estação Telégrafo-Postal de Angoche, José Pereira Teles e Ulisses Ferreira Nação, pela redacção deste jornal.

Os brindes

Ao champanhe iniciou a série dos brindes o sr.
Diniz Gomes
que começa por recordar os primeiros tempos da sua vida jornalistica. Lembra os saudosos companheiros Manuel Machado e Kim Camarão. Fala do sr. Manuel Cunha. É com orgulho que constata que foi ele, com estes, o primeiro a levantar na imprensa o nome desta querida terra. Lembra os primeiros tempos de «O Brado». As intemperies que tem passado e os triunfos que sempre tem colhido. Sendo certo que este jornal apenas se tem em vista realçar o bom nome de Ilhavo, reconhece que aqui se não vende ninguem. Ninguem aluga a sua pena. Haja em vista o ataque que a ele proprio, amigo e colaborador deste jornal, se lhe fez aqui ultimemente.
Sacode, com veemencia, a insinuação de que este jornal está vendido à Câmara.
A Câmara de que ele é presidente, não dispendeu, em beneficio de "O Brado", o mais insignificante favor.
- Da Câmara apenas temos recebido calotes - exclama lo lado um nosso amigo.
- Não da Câmara da minha presidência, retorquiu o orador.
- É verdade isso, confirmou o nosso director.
O sr. Diniz Gomes continua com calor o seu discurso.
Fala dos nossos colaboradores. Refere alguns nomes, tais como Guilhermino Ramalheira, Cesário da Cruz, Manuel Mano, Alberto Mendonça e outros.
Põe em destaque a acção do nosso director como ilhavense e como jornalista. Declara que, todas as vezes que os seus multiplos afazeres lho permitirem, escreverá a sua secção Costumes e gente de Ílhavo. Fala do carinho e da simpatia que o povo desta terra nutre por este jornal, terminando por levantar a sua taça pela nossa terra que ele tanto tem amado e pela qual espera trabalhar com mais afinco ainda, se tal for possivel e pelo nosso jornal, por cujo futuro faz ardentes votos.
O discurso do sr. Diniz Gomes foi coroado com quentes hurras! tocando num delirio de entusiasmo todas as taças na do orador.
Segue-se o
sr. Manuel Marta
É com saudades, dis este nosso amigo, que vê desaparecer do cabeçalho do jornal o título «O Brado» e de cuja redacção fes parte durante tanto tempo. Na sua fase mais critica ele tentou salva-lo, querendo então conprar o título para, conjuntamente com outros amigos, alguns dos quais já dormem o sono da eternidade, este jornal continuar a sua tarefa iniciada em 23 de Novembro de 1910. Mas, tendo saudades do título antigo, vê com prazer que ele foi belamente substituido. Isso lhe dá ensejo a que levante também a sua taça pelo futuro de "O Ilhavense" e pelas prosperidades da sua empreza.
Fala depois o sr.
Artur Rasoilo
Está há muito afstado de exterioridades. Gosta de auxiliar tudo o que nesta terra representa melhoramentos e Progresso.
Pelo "Brado» tem uma simpatia que não sabe explicar. Talvez seja por nele ter escrito outrora algumas impressões da sua alma sonhadora. Hoje a sua pena já não tem brilho (não apoiados); mas mesmo sem brilho escreverá todas as vezes que for preciso para que Ilhavo se engrandeça e progrida. À disposição da redacção põe todo o seu valimento moral e material.
Segue-se o sr.
Padre Angelo Ramalheira
Brinda ao director de "O Ilhavense», a quem o unem os mais apertados laços de amizade e de crenças.
Estima-o de ha muito, mas sobretudo desde aquela hora em que ele, com prejuizo do proprio pão dos seus filhos, não quiz, vvender a consciencia para se curvar às imposições de extranhos.
Toma depois a palavra o sr.
Manuel Mano
Lembra os seus tempos de seminarista em que, conjuntamente com Pereira Teles, seu companheiro de quarto durante 3 anos, escrevia os jornaisismos manuscritod e alinhavam os seus sonetos e outras poesias, à hora em que os outros brincavam e eles ambos ficavam privados do recreio.
Fala da mulher de Ilhavo que é preciso instruir e nenhum meio melhor do que o jornal. Lembra a ânsia com que lá fora é recebido «O Brado». Alonga-se depois em considerações várias, acabando por levantar o seu copo pelo futuro de "O Ilhavense".
Segue-se o sr.
Alberto Mendonça
que fala depois; agradece ao sr. Diniz Gomes as palavras que lhe dirigiu. Tem pena que os seus artigos ultimamente publicados neste jornal não fossem porr todos compreendidos. Precisamos levantar muito alto o nome desta terra, diz ele, num entusiasmo arrebatante, e devemos começar em primeiro lugar pela moralidade administrativa e politica.
Pensemos em Ilhavo a valer e como bons filhos que nos prezamos.
Saúda "O Ilhavense» na pessoa do seu director, a quem o unem laços duma fraternidade verdadeira que vem dos tempos de infância. É preciso auxiliar «O Ilhavense» com a nossa pena, com a nossa inteligencia, para que ele possa navegar sem perigo no mer tempestuoso que o açoita. Brinda pela redacção deste jornal, a quem deseja todas as felicidades.
Eduardo Ançã
Brinda iguslmente pelo «Ilhavense», sucessor de "O Brado», jornal que ele se acostumou a estimar e a querer muito. Endereça palavras de amizade aos seus redactores e ao seu director. Faz votos ppelo futuro de "O Ilhavense".
Segue-se, no uso da palavra, o sr.
Viriato Teles
que levanta a sua taça para saudar "O Ilhavense", fazendo votos para que ele saiba pugnar, com o ardor de "O Brado", pelas obras de Caridade de Ilhavo, nomeadamente pelo nosso Hospital.
Por ultimo fala o nosso
Director
Agradece a sr. Diniz Gomes o copo de água que se dignou oferecer à redacção de "O Brado" - hoje "Ilhavense".
Agradece-lhe tambem as palavras anconomiasticas que lhe dirigiu e que julga imerecidas.O que tem feito por Ilhavo, é nada comparado com o que ele e os outros amigos teem feito.
Agradece a todos os oradores antecedentes os seus votos e as suas palavras de incitamento. A todos jura que enquanto tiver forças trabalhará por Ilhavo, até á morte.
Esta festa, que revistiu um caracter muito intimo, terminou com bastantes vivas ao "Ilhavense", à nossa terra e ao seu povo.
E assim se passou o nosso 10.º aniversário, que não foi uma data apagada, antes deixou em nosso peito uma recordação que jamais desvanecerá.

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

Comentários

  1. No décimo aniversário foi assim.Agora esqueceram-se….Só que a plêia de Homens do tempo, era bem diferente…da actual.

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