Comunicado Ainda o caso da Costa Nova

"O Ilhavense", 1922-04-02
Comunicado
Ainda o caso da Costa Nova
Sr. Redactor
Permita V. Ex.a mais duas palavras, mais para o público que me conhece, do que para o Pina que ninguem conhece senão pelas suas façanhas rancorosas na Costa Nova. Ouçam, pois:
Este caso do cabo Pina vir para um jornal bolsar infâmias e doestos contra quem o não enxerga senão para o despresar, lembra a subida de um gaiato qualquer ao telhado dum inimigo nosso, afim de nos apedrejar atravez dos obstáculos que nos Reparam. Ora a resposta única que um tal caso merece é o desespero, ou então o tribunal. Jogar a pedrada de cima para baixo e debaixo para cima com tal criatura é que não, e também para a levar ao tribunal seriam bolos doces que não estamos dispostos a fornecer-lhe. A não ser que, por milagre, o cotão das algibeiras se lhe tranformasse em boas notas do Banco de Portugal. Então, sim. Fique disto certo o cabo Pina, e quem me lê, pois que ainda que isso caro me custasse, o pagamento havia de ali ser feito com lingua de palmo. Isso é que havia.
Mas para que o público avalie a verdade e sinceridade do que afirma o citado cabo, basta dizer-lhe que não tem saída à rua por ocasião da conflito. É verdade, que me levantarei, e com as minhas poucas forças quiz acudir à lamentavel situação do banheiro Ricoca, mas disso fui impedido por minha filha e por mais alguem que ali estava. 
"O Ilhavense", 1922-04-02
O facto duma pessoa estar doente, como o estou, e de cama, não a impede de vir presenciar um caso anormal, à excepção de estar na última, pernas e mães embaraçadas. Felizmente a minha doença não é dessas mas também não é para entrar em desordem como pretende o mesmo cabo.
Eu não o quero aqui insultar porque não vale a pena. Podia chamar-lhe também bebado como ele chama aos outros, mas isso seria descer à sua condição e imitar as infelizes da Fonte Nova. Faça ele o mal e a caramunha. Queira arvorar-se em vítima depois dos seus actos criminosos. Mas respeite, e o seu secretário, a dignidade alheia, se a conhecem,  e a verdade que deve presidir a todos os actos da nossa vida. Fora disso será escorregarem ainda mais para o lado da infâmia.
Eu não tenho procuração de ninguem para defender quem quer que seja, mas acho desplante e atrevimento, vir afirmar em público que dois homens praticaram um delito sem que haja dele a mais leve prova. E tanto assim é, que sendo chamados à Capitania por denuncia do cabo, ali ninguem apareceu a comprovar, a suspeitar sequer, que fossem esses dois homens, um dos quais brunão do prejudicado, que praticassem tal vilania. Vilania afinal de que também já foram vítimas estes dois banheiros.
O Cabo Pina mostrou assim, e mais uma vez, as suas qualidades maxmas de denunciante falso, rancoroso e vingativo. Está no seu papel. E nesta parte cá o lemos como um símbolo, como uma verdadeira afronta à vila e concelho de Ilhavo. Cá o lemos estorvando os melhoramentos da Costa projetados pelo digníssimo presidente da Câmara, sr. Diniz Gomes. Cá o temos de azorrague em riste mimoseando o corpinho de infelizes presos entregues à sua guarda. Cá o temos algemado desgraçados para os levar em procissão pelas ruas de Ilhavo, por supostos autores do furto ao Fartura na Costa Nova.
"O Ilhavense", 1922-04-02
Cá o temos ainda impunhando a pistola na ocasião em que são prostrados exangues os pobres José Pio, Genrinho e Patanca, depois do primeiro ter apanhado têsamente com o cavalo marinho da ordenança. E finalmente cá o temos ainda de pé,  a viseira erguida e o chicote na não, afrontando a vila e o concelho de Ilhavo com as suas ridículas basófias o incongruentes asneiras, querendo passar por modelar e cheio de virtudes.  Cá o temos e cã o gramamos. Para honra e glória deste Concelho.
De resto não é só ele o culpado de tudo isto. o pouco escrúpulo que preside à nomeação de agentes para serviços de responsabilidade, para tal contribuiu bastante.
Pois não devia ser assim: e de futuro confiamos que assim não seja. A Costa Nova e o concelho de Ilhavo devem merecer mais alguma consideração às autoridades marítimas do distrito de Aveiro.
De novo apelo para a Justiça da comarca. Ela cumprirá o seu dever castigando e metendo na alem quem da desordem fim profissão.
Desculpe, sr. redactor mais este incomodo e furto de espaço que tão precioso devia ser para outros assuntos.
De V., etc.
Costa Nova. 20-03-922
Manuel Francisco Cabelo.

 

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