Meditando
| "O Ilhavense", 1922-03-26 |
Seis horas da manhã. Na Igreja matriz os sinos tocam vagarosamente as avé-marias, fazendo descobrir os crentes que passam pelas ruas e acordando e pôndo a pé quem guarda ainda o leito em que pernoitou.
O sol, que é a alegria de todo o vivente, a roupa dos pbres e o precioso incentivo do desenvolvimento das plantas começa a erguer-se auriginoso, a oscular a terra aspergida pelo rócio da noite, parecendo fazer sorrir a Natureza que se ostenta sublime e magestosa.
Por entre a verdura dos campos volitam brancas mariposas beijando as flôres, cujo deliciodo arôma aqui se respira, transportando pelo aládo sôpro duma brisa puramente suave, que nos encanta e extasía a alma. Nos arvoredos e silvados as ternas avesinhas soltam canticos melodiosos que nos envolve o espirito em pensamentos gratos e fazem esquecer, por momentos, as tristezas e miserias da vida.
Encamisados e alegres, perecendo vender saude, veem-se alem, pelas ágras fóra, alguns homens do campo dirigindo juntas de bois que pachorrentamente arrastam as charruas, preparando a terra para a sementeira do milho. As chaminés das nossas pitorescas aldeias fumegam em todas as direcções, dando-nos a cnhecer que se prepara o almoço para os habitantes delas. E daqui a pouco é vêr esses ditos homens, alem encamisados, sentados na terra, cercando grandes caçarolas de comida, que vão saboreando e molhando de quando em quando com o sumo das cêpas que mais os anima e encoraja para o trabalho.
Neste tempo invejo a vida dessa gente, por que embora preocupada em trabalhos rudes, gosa as delícias da Natureza e respira o ar puro dos campos, enquanto que eu o pó [das oficinas?] em que dias seguidos me encerro quasi de sol a sol.
João de Matos
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