Zig-Zags

"O Ilhavense", 1922-03-26
Morava no Curtido de Baixo o ti Joaquim Pimpão. pouca gente, decerto, se lembra dele. Casado com a ti Ana Carriça, o ti Joaquim Pimpão era daqueles pescadores dantes quebrar que torcer; alto, espadaúdo, forte como um leão, cara rapada, praguejando por tudo e por nada, mas no fundo uma excelente creatura, um coração cheio de bondade. Deitava-se mal era noite e deixava a enxerga, logo que o velho galo de rijos esporões cantava a segunda vez sôbre o monte de gravetos, que ha muito tempo lhe servia de poleiro.
Vestia-se à pressa, enfiava o barrete coçado até às orelhas, bebia um trago da rija para matar o bicho e, depois de ter dado dois ou tres estalos com a lingua, rapava do charuto, que ia picando na mão até chegar para um cigarro. Embrulhado ele, acendia-o no "patanisco", que imediatamente tapava com a rôlha de cortiça, prêsa por um fio ao canudo de cana, não fôsse gastar-se de mais a isca, que a ti Ana já por mais de uma vez tinha jurado pelo seu Padre Santo Antoninho não lhe dar nem mais um bocadinho assim da fralda dass suas camisas remendadas. Chupava duas ou três fumaças debaixo da têlha e só depois saía de casa. Atravessava as ruas, a essa hora completamente deserta, a passos apressados rezendo Padre Nossos uns atrás dos outros, jámais se esquecendo de tirar o barrete e fazer o sinál da cruz à passagem pela igreja, onde as corujas lugubremente piavam. Chegando à Malhada, ou antes ao esteiro, saltava dum pulo para dentro da bateira, que logo desamarrava do moirão coberto de musgo, e lá ia rio abaixo para a labuta de todos os dias. Tinha fama, como pescador, o ti Pimpão. Ninguem melhor do que ele manejava a fisga, ninguem melhor do que êle lançava a rêde e preparava a chincha. Corria até à bôca pequena que êle adivinhava a hora em que o peixe acudia a este ou áquele sitio.
Não havia dia nenhum em que a sua bateira não trouxesse mais do que qualquer outra, dando este facto origem a que os do seu oficio lhe tivesse uma pontinha de inveja, com o que ele nada se ralava. Verdade é que era sempre o primeiro a partir e o ultimo a atracar.
Mas tinha uma mania o ti Pimpão. Ao domingo não ia ao rio, ainda que lhe fossem dizer que as aguas andavam cobertas de peixe. O domingo fez-se p'ra descansar.
Não era falho à missa primeira. Logo que saida da missa, vinha sentar-se, até à hora de jantar, no marco de pedra que havia à bôca do Curtido, onde se juntavam outros pescadores, outr'ora valentes como êle, mas à data tirados pela velhice aos trabalhos do rio, conversando umas vezes sobre pesca, outras nas vidas alheias e de vez em quando recordando historias de que as suas mocidades tinham sido fartas.
Ora um domingo, aí por volta das onze e meia, estanto todos juntos, quiz a sorte que passasse a ti Ana CArriça, de almotolia na mão, que ia mercar um quarteirão de azeite para pôr um olho dêle no caldo da daliota. E vendo-os assim juntos, não se teve que não parasse, ficando assim a olhar, a olhar p'ra êles...
- Que raio queres tu? Ficaste assim a modos a olhar p'ra nós...
- Estou agora a tomar tento p'ra ti home! Ó eu tenho andado céga ó atão não sei! Ai Pimpão, Pimpão! daqui a nada já nem podem cuma gata pelo rabo! Estás quasi tão velho como o ti Pinto, o ti Antonio Cebola e o ti João Esgueira e...
Ele não a deixou acabar. Saltou do marco, aonde estava assentado, atirou com o gabão, arremessou com o barrete e pregou tamanho sôco no marco, que este enterrou-se de tal maneira que nunca mais apareceu, apezar das pesquizas e escavações, que mais tarde foram feitas por um grupo de curiosos e ilustres exploradores ilhavenses, entre os quais se contavem os senhores Manuel Mano, João Teles e o ti Onofre, que apenas conseguiram encontrar um mirrado esqueleto!
Os outros pescadores que estavam no cavaco, e a ti Ana Carriça levaram tal sumiço, que ainda hoje se não sabe o que dêles foi feito.
"O Ilhavense", 1922-03-26
Numa area de 60 metros, as casas ficaram reduzidas a pó e milhares de arvores foram encontradas a 20 e 30 leguas do local do sôco. Fui eu uma das primeiras pessoas a chegar ao local do sinistro. Impávido, sereno, sem uma contracção no rosto, via-se sentado sôbre um montão de escombros o ti Joaquim Pimpão, a "pataniscar" muito senhor de si. E para quem o interrogava só tinha uma resposta breve, sêca, cortante: "Foi um murro no raio do marco e atão daí?"
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Um rôr de anos depois do que fica escrito, veiu-me parar às mãos um livro de auctor desconhecido, de titulo "Viagem ao Centro da Terra". Não sei como não morri de espanto, ao lêr nesse livro que uma das coisas que mais prendeu a atenção dos viajantes tinha sido um marco de pedra por eles encontrado mesmo no centro da terra, tendo bem visivel um rebaixamento em forma de mão fechada, que deveria ter sido produzido por tão fenomenal sôco que, até à data da sua publicação, em nenhuma lingua havia termos que o pudessem classificar!
Compreendi então tudo. Era o marco do ti Pimpão!
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Que são a "Pesca  Tragica" e a "Tragédia da Ponte do Juncal Ancho" comparado com o murro do ti Joaquim Pimpão?
Uma simples gôta dagua no Oceano...

SULAMITE.

 

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