Zig-Zags
| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
Ali para as bandas da rua Nova se passou a historia que vou contar-lhes. Entre marido e mulher, ele marinheiro reformado... sem ordenado, ela peixeira ainda nova, cheia de vida e levemente fanhosa. Como de costume, mal as sombras da noite começaram a caír sobre a terra, tratou ela de pôr a ceia ao lume: chicharros com batatas, numa marmita muito areada com metade dum limão, já coberto de bolor.
A ceia esta pronta, estava mesmo recosida e vai ela então, como o marido não chegava, tirou-a para uma bacia, que cobriu com outra, e pô-la ao ar do lume, não fosse ela moer. E enquanto o esperava, para matar o tempo e não principiar a toscaneat com sôno, puxou da algibeira o rosário, que tantas vezes tinha corrido nos dedos engelhados da sua avó, e pôz-se a resar baixinho num murmurio lento as orações que em criança tinha aprendido, como querendo acompanhar a lenta agonia da luz da candeia, dependurada no mancebo carunchoso. Mas o marido chegou.
- Boa noite nos dê Deuz. A ceia está pronta?, diz ele enquanto vai tirando o fato do passeio. E ela, logo, que sim, ha muito tempo, que os chicharros até já estavam hirtos como o machão da sua mãe. Mas que grande demora!
Ela então estendeu um pano na lareira, sobre o qual pôs a bacia, e ele sentou-se a comer com visivel apetite, dizendo para a mulher, à medida que ia comendo: "Tu não vens cear? Que biabo! parece que fizeste menos ceia que nos outros dias.
- Eu já ceei, homem, come tu, como tu que para ti chega, respondia a mulher, que na verdade nada tinha comido ainda.
Ela lá ia comendo e bebendo, mas não deixando de dizer: "Tem paciencia, mas hoje fizestes menos ceia que nos outros dias." Tanto lhe quebrou o bicho do ouvido que ela respondeu lhe: "Olha, homem, não sei se é menos se é mais; só de chicharros tens aí dezassete e meio." Foi como se o picassem num certo sitio. Puxou da faca que estava no cesto do pão e, pondo a lingua de fora tanto quanto lhe foi possivel, com os olhos esbugalhados, assim lhe diz: "Dezassete e meio de chicharros?! Antes qu queria cortar a lingua por aqui pela régadado que comer dezassete e meio de chicharros! Nem o bispo me "absorvia"! Não querem vocês lá ver? Dezassete e meio de chicharros!" E como a mulher ficasse muito espantada p'ra ele, d'olhos muito "arremelgados" e sem abrir boca, aproximou-se dela, a berrar como um capado: «Dezassete e meio de chicharros! Pois nem dezassete e meio nem um raio que te parta! Aí vão os que já comi. "Aparós" lá! e levando as mãos às guelas, vomitou tudo quanto tinha comido.
- É p'ra que saibas, acabou ele muito contente
SULAMITE.
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