Vamos ficar sem teatro?
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| "O Ilhavense", 1922-03-19 |
Uma terra, como Ilhavo, não pode ficar provada de uma casa de espetaculo
É costune, nesta formosa mas tão malfadada vila, deitar por terra todas as boas iniciativas, toda a gente arrogar-se o direito de censurar quaisquer empreendimentos, mas muito poucos terem a coragem, terem o mérito e terem a generosidade de boas obras, de bons empreendimentos, de belas iniciativas.
Nós deviamos acostumar-nos todos, - num rasgo de intelectualidade sã, alheia a pessoalismos e a facciosismos, apontar o mal, criticar o que se apresenta ao nosso parecer, mas alevantadamente, com ombridade, com altivez e procurar, cada um - na esfera da sua acção e da sua inteligência - trabalhar pelo engrandecimento de Ilhavo, pelo seu futuro, que é o futuro de todos nós.
Derruir só, não! Censurar apenas, não! Morrer sómente, sem uma idea nobre de concorrer para o aperfeiçoamento daquilo que criticamos, tambem não presta.
Haja abneação, haja coragem, haja um poucochinho mais de ombridade em dizermos o que pensamos, os remedios que julgamos de melhor resultado na cura deste mal ruim que nos corrompe e que faz aossovrar vontades, periclitar inteligencias e diminuir iniciativas.
A censura mordaz é um crime de lesa-ferra. A censura sem imparcialidade é como o bolor que penetra num corpo orgânico e o definha a pouco e pouco.
Se procedermos todos com galhardia; se formos todos dignos e honestos nas nossas apreciações, se discutirmos sem paixões e sem receios, poderemos então trabalhar em pról de Ilhavo, e dêsse trabalho algum coisa nascerá de grande, de bom, de sublime para a formosa terra dos ilhavos.
***
Tudo isto vem a proposito de a nossa terra estar condenada num futuro talvez mais próximo do que muita gente supõe, a dicar sem uma casa de espectaculo onde se receba uma companhia que venha de fóra, e onde os nossos amadores, os amigos do teatro não possam dar um sarau, uma festa.
A casa do Teatro, onde estava instalado o «Club dos Novos», findou para divertimentos nessa ordem. Os seus actuais proprietários deram já principio as obras e tratam agora apenas de a acondicionar a uma casa de negócio.
Alguns esforços teem sido feitos no sentido de, depois sas obras, se instalar ali, ao menos, o «Club», mas consta-nos que esses esforços não teem sido coroados de bom êxito.
Saraus, bailes, festas intimas e públicas que tantas ali se fizeram, tudo acabou na antiga casa do Teatro. De futuro apenas ali se poderá ir comprar um objecto de uso caseiro ou uma passagem para o Brazil.
Restava-nos ainda o «Salão da Caridade». Mas este, segundo ouvimos à Direcção do Hospital, vai tambem acabar pelos inúmeros desgostos que a instalação do Teatro no Hospital tem provocado aos membros dessa Direcção.
Parece que, findo o contracto com a empreza do cinematografo, o martelo deitará abaixo tudo quanto diz respeito ao Teatro.
Muita gente não compreende que a Direcção do Hospital mandou construir o Teatro no Salão com um fim alevantado e nobre, qual é o de arrancar dali receita para as obras daquela casa de Caridade.
Muita gente não quere ver nem compreender que o nosso Hospital vive apenas de esmolas e que estas são sempre poucas para a grandiosa obra a que todos nos abalançamos há três anos.
E que o Teatro não foi construirdo para A ou B lá irem mostrar a sua habilidade ou para alguem tirar sali lucros por mínimos que sejam.
O Teatro é uma fonte de receita que o Hospital é muito pobre!
Como, porêm, as coisas não são vistas pelo prisma da rectidão e da imparcialidade, a Direcção parece que vai demolir o Teatro.
E depois? Onde hão-de os ilhavenses juntar-se para uma confraternização de ideais, de arte, de beleza?
Uma terra, como Ilhavo, não póde ficar privada de uma casa de espetaculo. Que se há-de então fazer?
É para os ricos que apelamos, é para eles, ilhavenses bons que os temos aí em barda, que escrevemos estas linhas.
É preciso cuidar, e já na construção de um Teatro em Ilhavo.
Três ou quatro capitalistas de Ilhavo devem combinar-se e promover a realização dêste melhoramento emquanto antes. É isso um bom emprego do seu capital e é um importante melhoramento para Ilhavo.
A construção dessa casa que deve ser apropriada a casa de espetaculo e a Club não há-de sair muito do centro da vila, porque, alliás, perde uma grande parte do seu valor.
O capital aplicado está sempre garantido e o juro desse capital há-de exceder toda a expectativa. Temos disso a convicção.
Porque se não pensa então neste assunto, desde já?
Vamos, capitalistas de Ilhavo. Mostrai às gentes que sois capazes de um acto nobre feito em proveito da vossa terra. Respondei com um gesto de tamanha influencia local áqueles que vos apodem de avarentos e de usuários.
Fazem por Ilhavo, por esta linda terra de poesia, de arte e de amor, alguma coisa que sirva para vos perpétuar a memória e bemdizer o ideal e o nome.
A'vante pelo Teatro em Ilhavo!
Mostremos a todo o mundo que sabemos criticar e SABEMOS AGIR.

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