Quem roubou o recheio do convento?

"O Ilhavense", 1922-03-26
Ouvindo uma religiosa.
Os depositarios dos bens das freiras.
O que falta no Convento.
Actos de vandalismo.

A caridade no mais alto  grau.
Um pedido à Câmara e um apelo às almas caridosas.

Prometemos ha semanas fazer aqui algumas perguntas sobre a momentosa questão do convento que acaba de ser adjudicado à nossa Câmara pela quantia de 18.500$00 por um representante da Comissão administradora dos bens das igrejas que nesta vila esteve faz hoje quinze dias.
A questão do convento trazia intrigada muita gente, não se explicando a causa de abandono a que era votado aquele antigo retiro das boas freiras.
Posta, porem, a questão a claro pelo tribunal arbitral de Haia, que deliberou que esses bens fossem para o Estado, a nossa Câmara tratou de procurar que o convento lhe fosse vencido - assunto que já tratamos desenvolvidamente em números anteriores. Essa venda foi feita ha quinze dias, ficando a pertencer kao municipio a casa do convento e todas as dependencias, a quinta que está junta, uma leira de terra na vessada e uma outra leira do lado da quinta, pegada ao quintal [?] Capela e mais um quintal.
A nossa Câmara tenciona agora instalar no convento as escolas oficiais e talvez outras repartições publicas.
A acquisiçção que o município de Ilhavo fez foi boa e deve-se, como já frizámos anteriormente, os bons oficios da edilidade ilhavense e aos esforços de alguns patricios nossos que são dos mais ardentes defensores desta terra.
A questão está pois arrumada e com vantagem para nós todos.
O que não está, porêm, arrumado é o aspecto moral da questão, porque o convento de Ilhavo foi um verdadeiro pinhal de Azambuja onde se acoitaram gatunos e vandalos cujas identidades é preciso descobrir para honra dos depositários dos bens do conventoe para honra de nós todos.
O convento de Ilhavo foi assaltado por uma cáfila de ladrões, lamentando nós muito que os srs. Eduardo Craveiro, dr. Carvalho da Silva e João Sarrico, que foram os três depositários dos bens do convento,  não tenham tido a envergadura e a coragem precisa para correr a pontapé esses ladrões que tomaram de assalto o convento e roubaram tudo quanto ali havia, indicando ao povo os seus nomes se os sabiam, ou investigando com denodo emeticulosamente quem eram se igniravam os seus nomes,
Ninguem faz a justiça de acreditar que do recheio do convento se tivessem apoderado os senhores depositários; mas o que é facto é que eles é quem são os responsaveis por aquilo que à sua guarda foi confiado.
«O Ilhavense» quiz ver se levantava o veu desse misterioso roubo e por isso, no domingo passado lá fomos ao convento no intuito de sabermos qualquer coisa.
O dia estava esplendido de sol que brilhava com mais fulgor após uma semana inteira de aborrecidos aguaceiros.
Dirigimo-nos ao convento, cujo portão achamos aberto. Passámos o velho arco que dá acesso do convento à linda capela e sob o qual vimos outróra brincar tantas criancinhas que naquela casa de recolhimento iam beber a luz da instrução e que se abria sempre aos desamparados da sorte que lá iam comer o caridoso caldo das freiras.
Naquele moomento lembramo-nos de todas essas pobres senhoras que ali trabalhavam afanosamente no romanso do seu sacetismo, longe do bulício do mundo, exercendo a caridade no mais alto grau, trabalhando e rezando - duas preocupações constantes dessas almas eleitas que po povoado tanto ultrajou.
Ao fundo do arco abre-se uma cancela que dá entrada num grande páteo muito bem cuidado. Faltam-lhe os vasos de flores que outróra lá vimos. Faltam-lhe as arvores frutiferas de jardim que tantos pomos deram para as bocas anciosas e gulotonas das lindas criancinhas.
Ao fundo divisámos uma velhinha corcovada, quási cega, que olhou para nós com espanto.
- Desejavamos falar-lhe, minha senhora...
- Ó sr.ª Claudia! Está aí um cavalheiro que parece querer falar-lhe.
Uma senhora toda vestida de preto, pobremente vestida, mas com um traço fisionómico que logo nos impressionou agradavelmente, veio ao nosso encontro.
- V. Ex.ª é...
- Dos jornais, minha senhora. Da imprensa cá de Ilhavo.
- É dos «Sucessos»?
- Não, minha senhora. Sou do «Ilhavense». Desejava ouvir de V. Ex.ª sobre a questão do convento. Diz-se lá fora que roubaram tudo às freiras.
- Tudo. Ou melhor, quási tudo. A verdade é filha de Deus.
- E V. Ex.ª tinham cá muita coisa?
- Tinhamos  o convento cheio.
- Podia indicar-nos alguma coisa que falta?
- Quando saímos, deixámos 30 e tal camas ( não posso precisar o número exacto) todas com 2 cobertores e uma coberta e quasi todas com lemçois. Pois dessas camas, afóra 5 que nós levamos com consentimento do sr. dr. Delegado, só ali estão 11. Quere vê las?
- Se não incomodasse V. Ex.ª...
E a boa mulher foi dentro buscar umas chaves, abriu a porta da capela e foi mostrar-nos, debaixo do côro, onze pequenas camas de ferro, sem conchões nem nada.
- E deixaram estas porque são pequeninas e eram as mais velhas.
- E louça, minha senhora?
- Tinhamos muita, mas levaram tudo. Só deixaram alguma mais ordinária da cosinha.
- V. Ex.ª ainda aqui teem a capela!... está o Santíssimo no sacrário?
- Não, senhor. Apenas estas cruzes da via-sacra e estes pequenos quadros, e aquela Nossa Senhora de Lourdes que era minha. Pedi ao cavalheiro de Lisboa que aí esteve a semana passada que m'a entregasse, porque é minha, e tinha grande empenho nela. Como está no arrolamento, não poude deferir o meu pedido. Disse que ia para Lisboa e lá trataria disso e mandaria a resposta. Mas já lá vão oito dias e não disse ainda nada.
- E aqui na capela falta alguma coisa?
- Faltam alguns paramentos. Os que aí deixaram estragaram-nos todos. A pedra-ara do altar quebraram-na e tiraram-lhe a santa reliquia.
Quando novamente aqui entrei estava a pedra acolá no meio do jardim.
- E como conseguir V. Ex.ª voltar para aqui?
- Com autorização do sr. dr. Delegado.
- Quantas senhoras estão cá?
- Somos três. Mas temos ao nosso cuidado aquela vélhinha, uma pobre doida que ninguem recebe por ter momentos de desespero, uma outra que foi criada do sr. padre Lilau e aquele menino que foi criado do sr. padre Calvo.
O menino era um pobre velhinho de perto de 70 anos que trata do cultivo das terras do convento e faz os recados.
- Era o moço do sr. padre. Mas como é faltinho de ideia o sr. padre não lhe deixou nada, pedindo-nos que nunca o abandonassemos porque estando ao seu serviço quarenta anos, nunca recebeu cinco reis. O sr. padre Calvo não previa que nós haviamos de ficar sem aquilo que nos legou. Se o adivinhasse tinha lhe deixado alguma coisa tambem a ele.
E a pobre religiosa enxugava agora uma lágrima atrevida que lhe assomou aos olhos.
- Tem sido sempre o nosso companheiro. É o menino, como lhe chamava o sr. padre. E a santa mulher explica a preocupação que uma outra mulhersinha teve à hora da morte quando se lembrou que o pobre velhinho ia ficar só, no mundo, sem ninguem que o amparasse.
Foi nessa hora que ela a consolou com as seguintes palavras:
"O Ilhavense", 1922-03-26
- Morra na paz do Senhor. Eu me encarregarei de cuidar do menino.
 - E de que vivem as senhoras, agora?
- De esmolas, senhor. Esmolamos todas de porta em porta.
- Sabe-me dizer quem foram os depositarios do convento e suas pertenças?
- Sim, senhor. O primeiro foi o sr. Eduardo Craveiro. Esteve depositario um ano pouco mais ou menos. Depois o sr. dr. Carvalho que tambem esteve pouco mais de um ano. E de então para cá tem sido o sr. João Sarrico.
- Mas então esses senhores não teem que dar contas do que cá existia dentro e que naturalmente estará tudo escriturado?
- Não sei. Eles não estavam cá dentro. Mandaram para cá, ao principio 4 polícias tomar conta disto. Depois vieram os calceteiros da rua que tambem aqui se alojaram. E, é claro, como ninguem os vigiava...
- Mas os nomes desses individuos hão-de saber-se.
- Não faço acusações. Não sei. O mundo é que fala.
- E generos agricolas?
- Tinhamos aqueles celeiros cheios. Muito trigo, algum vinho. Muita fruta. Arroz em quantidade. Desapareceu tudo...
- E a senhora não sabe como?
- A colheita do primeiro ano vendemo-la nós para pagar as despezas da transmissão dos bens que nos deixou o sr. padre. A colheita do 2.º ano estava toda arrecadada... pois se nós a tinhamos recolhido ha tão pouco tempo.
- E o que fizeram dela?
- A colheita do 2.º ano dizem que foi vendida aqui em praça pelo sr. Eduardo Craveiro.
- E o dinheiro?
- Não sei dizer-lhe.
- E V. Ex.ª, minha senhora, não sabe onde se encontram essas roupas, essa louça, essas plantas, enfim tudo que aí havia?
- Os cobertôres da cama dizem que foram mandados tirar pelo sr. dr. Carvalho, para lavar. Mas não sei onde se encontram. Cá dentro não estão.
- E não havia cá objectos de arte? Quadros, pratos, etc?
- Não havia. Coisas de arte não tinhamos cá. Apenas uns quadros mas sem valor artistico, que tambem levaram.
- Levaram tudo, pelos vistos.
- Tudo, senhor. Nada deixaram-
- E quando agora a Câmara vier tomar conta disto para onde tenciona V. Ex.ª ir com os seus pobresinhos?
- A Providencia não abandona os seus. Iremos para onde Deus Quizer. O que eu queria é que os srs. da Câmara ou do Govêrno dessem uma mensalidade áquele pobre velhinho. É só a nossa preocupação.
- E a Câmara ajuda-as com alguma coisita?
- Não, senhor. Dá apenas $300 reis por mês para a doida Ana Augusta. Mas o sr. Diniz prometeu-me que talvez me arranjasse um cantinho, por aí, para albergar estas pobresinhas.
A boa da religiosa mostra-nos depois algumas dependencias do convento. Tudo despujado. Nem uma cadeira, nem uma mesa, nem um objecto de adorno de tanta coisa que lá existia. São salas despidas por completo, quartos absolutamente desprovidos.
Descemos à quinta. Notámos o esmero em que está a terra; e ela elucida-nos:
- É o menino que tem cuidado disto. Daqui tiramos umas couvitas... Até que nosvaos embora, já se vê.
Retirámos. O sol era agora esplêndido. Aos nossos ouvidos soavam ainda as palavras meigas da boa religiosa.
O seu apelo a favor do velhote, que se chama José dos Santos Malaquias (o Raposo) aí fica. Esperamos que a Câmara não deixará de recolher no Hospício aquelas infelizes a quem uma lei injusta desapossou do que lhes tinha sido doado.
É preciso tambem que se saiba para o recheio do convento e os nomes dos individuos que os roubaram.
Vai nisso a nossa honra de ilhavenses, vai nisso a propria dignidade dos depositarios.

Comentários