Misterios d'Ilhavo
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| "O Ilhavense", 1922-03-19 |
"Numa pésca trágica, Onofre Zézinho fisga um esquelêto junto à antiga ponte Junchal".
Esta interessante revelação de João Teles nas Coisas de Lá parece ligar-se com uma sinistra confissão que o meu avô Gabriel ouviu da bôca dum velhote agonisante.
Ouça-me o leitor:
O rápido e brusco desaparecimento de 21 pessôas que tão turbulentamente se aconchegavam em alinhados e pobríssimos tugúrios ali num velho e tortuoso bêco de alqueidão, - uma almas ruídas pelo desatinado labutar sem trégua e sem uma hora de vasta fartança na côdea rica da felicidade, - tomou de assalto e assmbrádo espanto a curiosidade indígena do logar, e feriu de indignação e não menos curiosidade, as autoridades dêsse tempo, representadas em Aveiro, nesse ano de 1820, pelo corregedor João Saltimano Sá de Albergaria.
À justiça competia pois averiguar.
Beleguins gordos e tisnádos sobraçando espingardas raiunas e lavróscas circunvisinhas, abordoados a páus de carvalho, impavam de furor, ladeando as duas margens daquem e alem Gafanha. Nas enchurradas que vinham esteirinho a dentro, resolviam-se as algas e dejectos putridos. Compridas e negras bateiras encalhavam as prôas no nauseante lôdo da Malhada, num abandôno de excessiva fadiga; as ondas batendo no léme faziam-lhe gingar o gualdrópe e, no tôpo dos mastaréus, sujas manatas e encardidos mantéus barlaventeavam como num acêno de afastada despedida. Rebuscavam, mexiam, mas nada. Indagávam, revolviam, daslocavam, mas nem sequer uma pontinha de luz a iluminar-lhes a escuridão daquele mistério. O negrume da noite dava relêvo de fantasmas às figuras dos beleguins que reprimiam em silencio o escabujar dum ódio que lhes recrudescia nalma, ódio que o corregedor lhes tinha espicaçado.
Semanas sem conto se alcandoraram eles por ali, como pêgas em galhos de pinheiro.Mas infritiferas foram as pesquisas e as vigilias realisadas, porque indicios de crime não lobrigaram, e nem eles o encontravam.
Uma ordem rápida do corregedor mandou retirar a maltezia. O molherido bisbilhôto manucava naquele fatal desaparecimento dos 21 visinhos, e aventavam-se já diabólicas conjecturas que arripiaram de mêdo a própria auctoridade. Noite alta ouviam-se gritos, ais, que vinham pelas fendas musgosas dos palheiros; e ao gralhar de coruja ou ao mais leve sussurro de ave noctivaga, surdiam eles de dentro dos casebresm amotinados a visinhança e esconjurando a sombra de vinte lobishomens.
A auctoridade nada apurou.
O Desembargador foi informado de que vinte e uma pessoas do foral de Ilhavo (sic) se tinham ausentado para parte incerta.
Vociferou o magistrado; mas reprimiu as iras, e este facto caiu no silêncio dos tempos e no reino dos mistérios.
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Ouçâmos agora o velho agonissante:
Ouçâmos agora o velho agonissante:
«Era uma romaria dos povos ribeirinhos, nada plurocrata, aquela do Santo Inácio, que todos os anos, em meados de agosto, se realisava na pitoresca povoação do Bóco. Circumfluenciavam áquela graciosa ermidinha que se nos depara lá ao cimo da íngreme ladeira, os povos de cinco léguas.
Nesse ano, porêm, (15 de agosto de 1820), um bom réclame do reitor de Sôza fez constar que a festa ia ser de arromba; assumiu proporções tais de "bôa", que o nosso pescador começou antecipadamente a ver nela um estranho explendor de rara romaria e antegosava já as delícias dum óptimo dia de agradavel distracção no Bóco, preludianto canções dos anos idos.
O facto é que, na véspera dessa grande romaria, já nada se fêz.
Encalharam os barcos e colheram as rêdes; e começaram pressurosos nos arranjos e preparativos da viagem, afiando as navalhas e entrouxando as comidas.
Na madrugada do dia 15, as bateiras acordaram coladas às restringas da Malhada, e, dentro em pouco, enchiam-se de talhas paridas de vinho retinto e de enormes canécas de barro vermelho. Grandes borôas tostadas sumiam-se nas prôas, em promiscuidade com mólhadas de couve bravia e peixe azeitado.
Prontos, os barcos largaram envoltos ainda na bruma leve da manhã. Puchavam à vára porque o vento era contra e a maré vasava.
Com os primeiros raios do sol, que os surpreendeu ali pelas alturas de Vagos, começaram de animar-se, cantando e dançando sobre as tóstas uns reviras da beira-mar.
Chegaram ao Bóco. Debaixo do extenso pinhal sobranceiro à fragosa encosta, estendiam-se diadas de carros de bois, repletos de melancias, e compridos dueiros acolitavam bojudas pipas cheias de bom e rascante vinho. Na turbulencia da romaria, ranchos com sanfônas acotovelavam-se à porta da ermida e arrematavam assim esta cantiga:
Ó Santo Inácio do Bóco,
Feito de pai d'amieira,
Irmão das minhas tamancas
Compradas na mesma feira.
Os de Ilhavo estenderram as borôas, o peixe e as talhas sobre uma pedreira que um cédro sombreava. Comeram bem e beberam melhor. De manáia branca a tremer na pérna escura e o barrête ao ombro, um velhote pescador pulava alegremente, agora. E rapidamente, novos e velhos imitando-os, fizeram róda, nuns meneios engraçados de quadriz.
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O Sol entrava numa agonia lenta; e a idêa do aproximar-se a noite, reprimiu os expansivos folguêdos daquela romaria.
Os de longe começaram a debandar; e lá em baixo, no rio, grupos, numa interessante algaravia, trocavam-se de frases galhofeiras e de picante espírito.
Pucharam-se as varas amarradas à prôa, e uns após outros, os de Ilhavo partiram veleiros.
De barco para barco trocavam se ditos, chufas, e os parceiros chulepavam-se como garotos de rua. Aí pelas alturas do pinhal de Agua-Fria, como o vento escaceásse, as duas ultimas bateiras abordaramse, e tão precipitadamente o fizeram que a prôa duma bateu sêca e rijamente na cabêça duma mulher, matando-a instantaneamente. Foi como um rastilho que pegasse em cincoenta toneladas de dinamite.
Os homens bracejavam enfurecidos e invectivaram-se com injúrias e ameaças. Agitaram-se compridas navalhas que luziam na escuridão da noite. O alcool requentou-lhes o furor.
Á ponte do Juncal Ancho, as duas bateiras encalharam no lôdo. A maré vasava ha muito. Reteniam as naifas e, na pressão dura do espetar, sobravam as lâminas cortando os próprios dêdos. Rasgavam os ventres, e em esgares sinistros mordiam os lábios de raiva e vingança.
Homens e mulheres saltaram então para o lôdo, e aí foi hororoso o epílogo daquela sangrenta scêna de facadas.
Dos 21, um só milagrosamente escapou. Os vinte lá ficaram para sempre enterrados naquela lama tinta de sangue, horrorosamente esfaqueados.
E nunca mais apareceram... Pela madrugada a maré cheia acabou de os sepultar.
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O velhote agonisante que relatou esta triste história, foi o único que escapou dessa refréga, fugindo nessa mesma noite para bordo duma enviada que o levou a Peniche.
Jorge Manoel.

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