Emilia Chuva Sousa - A Emilinha
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| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
Nele se incorporaram as pessoas mais gradas desta vila que acompanharam ao cemiterio, onde para sempre ficou dormindo o sono dos justos, o cadaver da infeliz menina.
Tricaninhas, suas companheiras em dias de alegria, suas confidentes de sentimentos belos, vestidas de negro, olhos mareados de lagrimas, lindas como ela, airosas como ela, acompanharam tambem até à cova a sua querida amiga e inseparavel patricia.
Ia lindo o seu enterro. Um grande acompanhamento. O seu caixão foi transportado por oficiais da marinha mercante. Às borlas pegaram representantes da imprensa e da marinha mercante. A chave do seu caixão conduziu-a o presidente da Associação dos oficiais nauticos sr. José Ançã.
Depois... depois de um jardim de corôas de flores artificiais, todas brancas como a sua alma de santa, e de bouquets de violetas naturais, que tudo foi a sepultar com ela - com a pobre Emilia que tanto amava as flores...
Das coroas que a nossa mocidade conduzia, pendiam lindas fitas brancas com sentidas dedicatórias:
Os amigos de João Sousa oferecem como ultima homenagem de saudade a sua irmã - Artur Sacramento, José Francisco Matias de Melo, Ambrósio Gordinho, José Rasoilo Sacramento, João dos Santos Redondo, José da Silva Rocha, Francisco Paião, José Francisco dos Santos, Armando Francisco dos Santos, Armando Machado, Admar Marnoto, Antonio Belo, João Teles, José Bela, Antonio Picado, João Labrincha, Augusto Labrincha, Marçalo Saltão, Manuel Gonçalves da Silva, Adolfo Paião, Arnaldo Peixe, José Grilo.
Oferece sua amiga Maria Rezende.
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| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
Saudade eterna de sua triste mãe.
Ultimo beijo de suas amigas - Amelia e Carmina Ramos, Ofélia Marques Machado, Maria Nunes dos Santos, Silvina S. Cageira, Julia Bastos Ponche, Maria Graça Fernandes.
Ultimo beijo de sua amiguinha - Conceição da Graça Peixe.
Ultimo beijo de Idalina Machado da Silva e Maria Carolina Machado.
Oferecem Emilia Gonçalves, Maria Rafaela Troia, Armanda Leite, Maria Gonçalves Leite.
Infinda saudade de suas amigas - Isabel Silva, Berta Cacheira Chuvas, Maria Balau Gonçalves, Maria Rosa Lau Tavares, Berta Pereira Teles, Raquel P. Mano, Célia Pedro dos Santos, Berta Correia Grilo.
Era um cortejo de flores aquele que a a levar ao ceu a alma boa e pura daquela mocidade sem esperança, daqueles 16 anos tão cedo desiludidos...
Depois a bandeira maritima. Depois muita gente, muita gente a chorar...
E lá ficou a pobre Emilita dormindo o derradeiro sono, coberta de flores - das flores que ela tanto amava.
Ao coração maguado do nosso querido amigo João de Oliveira e Sousa, a sua triste mãe, à familia toda enlutada, envia O Ilhavense palavras de resignação e a expressão do seu fundo pezar.
A EMILINHA
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| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
A Emilinha...
A Emilinha era assim uma fadasinha romantica, na palidez desmaiada do seu sorriso doce, na humildade encantadora e unica da sua atitude triste...
A Emilinha...
Eu conheci-a na azafama enorme dos primeiros saraus, na efervescencia fogosa das primeiras festas da Pleiade, onde a sua voz, preza dum resaibosinho de graciosa afectação, nos dava sempre versos lindos de melancólica inspiração...
Coitadita... Era sempre triste a Emilinha; aos seus labios desprendia-se de quando em vez um risosinho forçado, mas a natural expressão do seu rosto severamente acentuado voltava logo, a torná-la assim uma linda velhinha de 16 anos, uma violetasinha debil a quem nem o perfuma fragmente da mocidade conseguira reanimar...
Porque eras assim tão triste, Emilinha?
Porque fazias crer aos que admiram a rara intuição do teu temperamento artistico, que o infurtunio havia de ensombrar-te o futuro?
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| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
Morreu a Emilinha... morreu com as violetas, ela que violetasinha debil era... Morreu mas não só para nós os que ouvimos a sua voz preza dum resaibosinho de graciosa afectação, a recitar versos lindos de melancolica inspiração...
A recordação do passado, fa-la-ha viver sempre na nossa memoria...
Morreu a Emilinha?
Não, não; transpoz a caminhada dolorosa do mais doloroso martirio ainda: a vida.
Boa Emilinha: mal de nós que ainda, sei lá, por quanto tempo, carpiremos apenas neste "vale de lagrimas"... Mal de nós... Tu, tiveste já o premio que a bondade do teu coração e a simplicidade humilde e casta da tua inocencia mereciam.
Mal de nós, os que como eu, com lagrimas de sincera comoção, hoje pranteamos a tua morte!
Foste infeliz porque sofreste muito, na idade desanuviada dos sonhos e das ilusões... Sofrestes, quando a vida se te abria num sorriso, te enchia o coração de esperanças e afectos.
Porque eras assim tão triste, Emilinha?
Tu não sabias rir fortemente; os teus sorrisos eram lagrimas pungentes de desilusão... agoirento prologo dum martirio aflictivo...
Guilhermino Ramalheira

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