Em prol da Caridade
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| "O Ilhavense", 1922-03-12 |
Em prol da Caridade
resolveu-se, por maioria, que uma das dependencias do nosso Hospital fosse aplicada, desde já, a um asilo para inválidos.
Realizou-se, como tinhamos previamente anunciado, a assembleia geral dos sócios da Misericórdia de Ilhavo para resolver sôbre a proposta feita pela Câmara Municipal à direcção daquela casa e que como é sabido, consistia em aplicar uma das dependencias do nosso Hospital a um asilo para inválidos.
A reunião estava marcada para as 3 horas da tarde, mas só perto das 4 o sr. Viriato Teles, presidente da Direcção poude tomar a palavra para convidar a presidir áquela assembleia o sr. Diniz Gomes presidente da Câmara, o qual escolheu para seus secretários o sr. Viriato Teles, como representante da Direcção do Hospital e o sr. capitão Calixto Ruivo, membro da Direcção da Associação dos Oficiais da Marinha Mercante.
Aberta a sessão, o sr. presidente começou por agradecer a honra que lhe davam em presidir áquela reunião, passando depois a expôr, em palavras claras e por vezes arrebatadoras, a proposta que a Câmara da sua presidência apresentou à Direcção do Hospital e à qual esta não quis responder sem primeiro ouvir a opinião da maioria dos sócios da Misericordia de Ilhavo.
Declara que a proposta da Câmara não tem o mais pequenino aspecto politico ou pessoal. Garante-o sob sua palavra de honra. O fim da Câmara é tornar proficua uma obra que se arrasta meses e meses sem que seja possivel, tão cêdo, produzir os beneficios que dela ha a esperar.
Havendo em Ilhavo tanta miséria e tanta fome, pergunta: porque não havemos nós todos de trabalhar para mitigar a situação desses pobres marinheiros que o desastre atirou para a miseria? A Câmara pensou que podia, desde já, asia-los nesta casa, tomando a seu cargo a sua sistentação e assim o nosso Hospital, que muita gente olha como uma obra que jámais produziu à beneficios, começará imadiatamente a prodigalizar o pão nosso de cada dia, aos infelizes, aos velhinhos, aos desemparados da fortuna.
Para isso a Câmara aumentará no seu orçamento a verba precisa e está certo de que este gesto será um incentivo para canalizar para aquela casa de caridade alguns rendimentos e mais esmolas da Caridade pública.
Quere, porem, frisar de que não vem lançar espadas ao peito da assembleia. Quere que esta se promuncie aberta e sinceramente sobre a proposta da Câmara, sem receio de que tal ou tal atitude irá desgostar ou lisongear a Câmara. Não. O assunto é de magna importancia e por isso pede a máxima ponderação e que cada qual féche o seu coração para só deixar agir a inteligencia.
Qualquer que seja a resolução da assembleia, nem por isso a Câmara da sua presidencia deixará de continuar a comcorrer com o mesmo carinho, com a mesma boa vontade, com a mesma simpatia, na medida das suas forças, para as obras do Hospital.
Nada se incomoda que ámanhã, ao deixar a Câmara de Ilhavo, lhe atirem em rosto que gostou os dinheiros do Municipio em favor do Hospital da sua terra.
Terá nisso um grande orgulho, o orgulho de um bom ilhavense e de um bom patriota.
Findo este discurso, o sr. Diniz Gomes deu a palavra ao sr. Antonio Ramalheira que pede à Assembleia que tome uma resolução ponderada e justa. Ele, por sua vez, achando optima a proposta da Câmara, tem os seus receios de que ela não venha a poder realizar-se.
José Pereira Teles, que acha a proposta da Câmara muito digna e muito honrosa para os proponentes, não podendo, porêm, dar-lhe o seu voto pelo receio que tem de que a sustentação dos inválidos absorva toda a receita disponivel da Camara e a que se possa angariar particularmente e que assim o Hospital fique eternamente como está.
Em seu entender melhor seria que o dinheiro de que a Camara pode dispor para a beneficiencia fosse aplicado na conclusão da enfermaria onde estavam reunidos e que no mais curto praso de tempo começasse o Hospital a funcionar. E assim, em vez de 10 ou 12 pobres, por cujo sustento a Camara se responsabiliza, seria melhor dar hospitalidade a 3 ou 4 doentes e consultas médicas aos pobres.
Sendo certo que na nossa terra não é facil reprimir a mendicidade e que, pelo costume em que estão os nossos inválidos de esmolarem de porta em porta, dificil será acostuma-los ao asilo, e ainda tendo em vista que a actual Camara Municipal está a terminar o seu mandato e que pode ser sucedida nas cadeiras da edilidade por outras criaturas que não concordem com a applicação dos dinheiros do Municipio em favor da beneficiencia, poderá correr-se o risco de os inválidos que agora vão dar entrada no asolo tenham ámanhã de o deixar ou por se não adquarem ao meio ou por dificuldades monetárias que não seja facil remover.
Em vista de tudo isto, sem que o seu gesto implique desconsideração pela nobre atitude da Câmara, não pode dar o seu voto à proposta, visto ter o seu espírito formado e a sua opinião não oder mudar sobre o assunto que ali se trata.
O sr. José Celestino concorda com a proposta, poisque considera doentes os próprios inválidos.
O sr. alferes Alberto Mendonça começa por declarar que vots abertamente contra a proposta da Câmara, sem que isso signifique qualquer intuito de a melindrar, pois toda a gente sabe as boas relações de amizade e de simpatia que o igam ao seu digno presidente.
Não pode, porem, compreender que a Camara esteja gastando com o Hospital verbas tão importantes, quando é certo que as demais obras do Município, como sejam limpeza da vila, canalização de águas, construção de Paços do Concelho, etc., etc., estão exigindo uma solução e simultaneamente inúmeras despesas.
Ele bem sabe que a proposta da Câmara é tudo quanto ha de mais filantrópico e de mais digno. Mas isso não quer dizer que a Camara venha agora gastar com a beneficiencia tudo quanto tem, desprezando os outros ramos de serviço público.
Que a Câmara continue protegendo o Hospital, como tem feito até aqui, dando-lhe o superfluo do seu orçamento, é justo. Mas que vá tomar a seu cargo uma responsabilidade de tamanho calibre... não concorda.
É preciso pensar bem nos trabalhos que vai tomar a seu cargo e nas inúmeras despezas que a sustentação dos inválidos vai acarretar. Porque é preciso considerar que embora os inválidos sejam doentes, o facto é que são doentes, o facto é que são doentes, o facto é que são doentes perpétuos, sem cura, e que estarão no asilo até à morte, podendo dar-se o caso de estarem de cama anos e anos.
Retomando de novo a palavra, o sr. presidente responde a cada um dos presentes que tomaram a palavra. Faz uma interessante palestra sobre beneficiencia, desde o seu início, no reinado de D. Manuel, até aos nossos dias - palestra hisotrica que muito agradou à assembleia.
Declara depois que vai pôe à votação a proposta da Câmara. Pede encarecidamente a todos que deem o seu voto como melhor o entenderem em sua consciencia. Nem o agradece aos que aprovarem a proposta nem censurará os que a reprovarem. em coisas desta natureza a ombridade é um grande e apreciavel predicado.
Que a simpatia e a amizade que merece ais assistentes deche por um segundo as portas do sacrario - coração. Façamos de conta que não é o Diniz Gomes que fala. Suponhamos que é estranho que faz uma proposta. Que a justiça esteja portanto, acima de tudo e de todos.
Em seguida clama: os senhores que desejam que esta [?] Casa de Caridade seja apenas utilizada para Hospital deixam-se estar sentados; os que aprovam que uma das sias dependencias seja aplicada a um asilo para inválidos, sem que contudo esta casa deixe de ser Hospital, levantam-se.
O sr. Diniz Gomes profere ainda algumas palavras de sentimento, fazendi uma exortação aos representantes da imprensa e aos politicos para que trabalhem com afinco pela obra do Hospital-asilo de Ilhavo.
A reunião terminnou às 5 horas.

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