Coisas de lá. Pesca Tragica

"O Ilhavense", 1922-03-12

 Ao Sulamite


Ha-de haver catorze anos que numa digressão que fiz pela extensa baía de Santos, fui encontar um pequeno logarejo chamado Rio Branco, o velho e venerado ilhavense Onofre Zézinho.

Parece que estou a vê-lo ainda com as suas enormes brancas a escorrerem-lhe pelo peito abaixo, como uma fronde alvíssima que lhe tivesse crescido durante a sua existencia.

Quando me aproximei da interessante casinha coberta de sapé e toda rodeada de viçoso arvoredo onde morava o nosso patricio, lá o obriguei sentado à porta sobre uma velha canôa de cedro, naquela atitude pensativa, tão tranquila que, ao primeiro olhar, ninguem diria que sob aquele velho arcaboiço, batia um coração.

- Boa tarde, ti Onofre! saudei eu.

Mas o velho não se mexeu. Parecua sonhar e, sem que ouvisse os meus passos e a minha voz, mergulhado no extase, a fronte derreada, continuou meditativo, absorvido e mudo.

Aproximei-me mais e pousando-lhe a mão no ombro, saudei-o novamente:

- Boa tarde, ti Onofre!

E como se lhe pezasse a alva cabeça, erguei-a e eu vi qie no seu rosto encarquilhado havia ainda aquela graça e aquele ar de franqueza que os velhos de Ilhavo nunca perdem.

Fitou em mim os seus olhitos miudos e um pouco turvos, encarou-me sorrindo e estendendo-me a mão engelhada, respondeu-me:

- Santas tardes nos dê Deus, meu menino... Então cá pelo sítio do velho?

- É verdade, ti Onofre. Sei que vocemecê é de Ilhavo e como conterraneo, vim fazer-lhe uma visita.

- Então és de Ilhavo?... A bem dizer eu sou mais de cá do que de lá... Sim. Estou por'aqui ha tanto ano!... Mas tambem nunca esqueci a minha terra.

A inflexão da sua voz era pausada e dolente, deixando transparecer, em certas frases, o caracteristico falar da gente de Ilhavo.

Indicando-me o rio que corria ao longe, entre cajoeiros, o ti Onofre continuou:

- Não ha dia nenhum que, ao ver aquele rio, não me lembre tambem dos rios da nossa terra onde passei a minha atribulada infancia...

- Ainda por lá tem familia, ti Onofre? perguntei

- Não. Não tenho mais ninguem. A Ilhavo só me prende agora uma apagada saudade, porque do pouco tempo que por lá vivi, só guardo amargas recordações...

- Amargas recordações? indaguei interessado

- Só, e mais nada. Muita fome, muita miseria e muitas lagrimas... Oh! o que eu passei naquela triste vida da pesca!... Só em lembrar-me a desgraça que me sucedeu certa madrugada, ainda sinto calafrios!...

- Conte lá isso, ti Onofre, pedi eu com interesse.

- Eu nem gosto de contar certas coisas... mas se quer ouvir lá vai:

-«Naquele tempo, a pesca era sáfara, como mil demonios. Dias havia em que nem um saguncho p'rá ceia tinhamos. Nós moravamos então num velho e carcomido palheiro da Malhada. Certa madrugada, o meu pai que já ha muitos mêses vivia entrevadinho, chamou-me: - "Eh! Onofre, leva a riba mais a cachopa que, está a chover. Olha que isto deve dar muita enguia, home." Pobre pai! se ele soubesse a sorte que nos esperava, nunca nos chamaria.

"A noite estava escura como brêu e dos lados do sul o vento ameaçava temporal. Tiritando de frio, eu e minha ormã lá seguuimos pró esteiro, onde nos esperava a velha bateira. Largamos e logo ao dar a volta da marinha, caíu um aguaceiro tão grande, que ficámos com as roupas coladas ao corpo. - "Que raio de sorte a nossa!" dizia a minha irmã. Estivemos quasi a voltar para traz, mas a lembrança do nosso pai entrevadinho, deu-nos coragem e seguimos sempre. Á revessa da ponte do Juncal demos o primeiro lanço sempre bedaixo de chuva e vento, mas a rede veio lavadinha de todo. Demos ainda o segundo lanço mas por infelicidade a rede prendeu pela tralha e lá nos ficou no fundo do rio. - "Que raio de sorte a nossa"! lamentada a minha irmã. a chuva e o vento apertavam cada vez mais, e eu com medo dda bateira garrar, mandei a minha irmã fincar à prôa duas varas, para ver se com a fisga inda podia safar a chincha. De repente, sem que nós esperassemos, um relempago iluminou tragicamente todo o espaço e seguidamemte um trovão que parecia o desabar do ceu, estalou sobre as nossas cabeças. Novos relampagos vieram e os trovões começaram cada vez mais violentos. apavorada com aquele poder de Deus, a minha pobre irmã aninhou-se à prôa a resar o «magnificat» e eu desesperado tamem por ter perdido a chincha, começo às fisgadas a ver se ela me vem à mão. Á terceira fisgadela notei que havia espetado qualquer coisa e julgando ser um peixe que eu houvesse apanhado pela cabeça, levantei violentamente a fisga, e sacudi o quer que era para o fundo da bateira.

"Na escuridão da noite não pude distinguir bem o que estava ali, mas quando um novo relampago iluminou o fundo do barco, fiquei aterrado.

"Era um esqueleto!

«Apavorado, com os cabelos em pé, quiz gritar, mas a voz prendeu-se-me na garganta. Quiz fugir, saltar à agua, mas as pernas pareciam pregadas ao fundo da bateira. O temporal recrudescia sempre. A cada novo relampago eu via ali ao comprido o esqueleto, cuja caveira parecia rir sinistramente, e a minha pobre irmã diante aquela pavorosa scena, caíu desamparada, sem sentidos, por cima do esqueleto, cujos ossos carcomidos estalaram. Nauqele momento angustioso pedi a Deuz a morte, mas Ele ão me atendeu! Eu continuava inerte, sem me poder mexer e preso daquele grande terror nem dei fé do perigo que corriamos. Com a força do temporal as varas quebraram e a bateira foi bater de encontro à ponte, partindo ao meio. Foi então nesse momento tétrico, vendo já a morte deante dos olhos, que eu lutei com todas as forças da minh'alma.

Agarrando minha irmã para a livrar da morte, agarrei tambem o esqueleto, e quando a bateira desapareceu no abismo já eu nadava a custo para ganhar a margem. Por vezes tinha a impressão de que o esqueleto se agarrava a mim para me prender os braços e a cada relampago que vinha eu via sempre a meu lado a horrenda da caveira a rir-se sinistramente. Só pedia a Deus para me dar forças para poder salvar a minha desgraçada irmã, e no entanto eu sentia já as pernas do esqueleto a baralharem-se nas minhas como que a arrastar-me sempre mais para longe. Foi uma luta horrivel, desesperada, titânica essa dos ultimos momentos, chegando mesmo a pensar em largar aquele pesado fardo e salvar-me a mim só. Já sem forças para nadar, fui então arrastado pela corrente, indo dar de encontro a umas tramagueiras, junto a uma marinha.

«Estavamos salvos! Arrastando-me a custo, lá desenvencilhei o corpo de minha irmã dos ossos do esqueleto, cuja caveira parecia rir sinistramente de toda aquela tragedia.

"Já são passados quasi sessenta anos e inda hoje sinto arrepios quando tal me lembra..."

E o velho Onofre, sorrindo amargamente, disse-me por ultimo:

- A Ilhavo só me prende agora uma apagada saudade, porque do pouco tempo que por lá vivi, só guardo amargas recordações...

João Teles

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