Cartas a Bettina Manuela

"O Ilhavense", 1922-03-05
II

Minha boa amiga:


«Se quasi não tenho pai; se o anjo que, ao dar me à vida desapareceu para todo o sempre no abismo das trevas quem, senão aqueles que tenho presos ao coração pela haste da rosa sempre viva que é a afeição, a qual nem o furação do adeus nem o mar tenebroso da distancia consegue desfolhar, ha-se ter pena de mim e alucinar-me com a benefica luz dos seus conselhos, para que eu julgo a lampada sempre acesa ao trono da minha vida?

- Eu não sei, Manuela, se haveria no mundo alguma coisa que fosse capaz de produzir no meu espirito maior reacção que o ultimo periodo da sua carta que ontem recebi e que transcrevo inteiro por me estar constantemente assediando a imaginação! Sim!...

Talvez tenha razão! Talvez que eu a não tenha compreendido ainda bem, e que a sua alma sã preferisse que eu lhe mostrasse a nudez da realidade que tantas vezes nuvens espessas de fantasia escondendo nosso olhar! Mas que pode aconselhar-lhe quem, como eu vive ainda à mere dos sonhos, tecendo-os às vezes de horas interminaveis e matisando-os de saudosas lagrimas carpidas em silencio, sinal de que o coração não dorme?!

De proposito deixei passar o dia todo sem lhe responderr; que se fizesse o silencio da noite para que nada viesse perturbar-me, e que a lua brilhando só na paz das trevas, fosse a minha unica companhia, como que um livro aberto onde eu pudesse ler o que ia dizer-lhe1 Olho-a longamente através da janela do meu quarto, sonho acordado que ri e canta, que chora e tem lagrimas nos olhos, grossas como as contas do seu rosario que tantas vezes os seus dedos tem contado em solencio, e ela, que me adivinhou certamente o pensamento, diz-me baixinho e comovidamente, por entre lagrimas e sorrisos, que o chorar dos olhos não é mais que o cristalisar do sangue que goteja do coração!...

- Que chora às vezes sem razão, sem saber porquê - diz-me

"O Ilhavense", 1922-03-05
Quando se possue um coração como o seu, minha amiga, uma lagrima que dos olhos se desprende por alguem que saiba compreendê-la, vale bem o sacrificio duma vida inteira!

Ah! tambem eu queria ser dos bemaventurados para quem ocoração não é mais que a fria rocha onde nem o sol caritativo de afeição consegue penetrar!

Chorar sem saber porquê é amar às vezes sem saber a quem: é sofrer sem saber de quê; é sentir-se morrer sem saber como, onde, e nem quando...

E hei-de eu aconselha-la a amar ainda mais, Manuela? Oh não, por Deus!...

Mas hei-de tambem eu, que mal conheço o fragil batel do coração humano, leva-la, com os meus conselhos, a deixar de amar?!... Mil vezes peor ainda, que já não amar é avizinharmo-nos vertiginosamente do princicipio do final.

A sua mão e uma saudade do amigo

Elsa


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