Bronzes
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| "O Ilhavense", 1922-03-05 |
É muito cedo que o místico respeito das avosinhas ergue as mãos em cruz - a cruz dos polegares - as mãos de arminho dos netinhos lindos como anjos, como açucenas, frágeis como pé de trigo no verde-loiro do Amanhã.
As ergue ao ceu na oração pelo infinito coração do mundo, dos peitos que já dormem socegados da labuta passageira da vida. Começam aqueles retalhinhos de alma olhando inconscientemente por intenção de bisavós que morreram, por almas que estão - lhes dizem na crença singela - no fogo redentor do purgatório. Oram pelos santos, falam com a virgem e comungam um pão branco onde, lhes dizem, Deus se encarnou para os bálsamos necessários da chaga dos seus pecados. E eles, coitados, sem pecados nenhuns, hastesinhas dum trigo ao vento, troncos debeis, fresquinhos envoltos da tempestade da vida.
Assim, pequeninos pedaços de sentimento, pedras cândidas de instinto, notas primeiras e singelas de melodia, começam logo muito cedo a beber por ânforas de crença, pelo calix da fé, os segredos do misterioso - qual Pedra encantada dos Arabes, qual fábula curiosa de Fedro e qual geometria astral de Pitágoras desenhando ainda, com o dedo enorme do seu buril, o numero e a configuração eterna das coisas. Começam a comungar muito cedo musicas milagrosas dezanjos e arcanjos como procurando um Platão de beleza dando ao espírito nú de Pitagoras, à rocha dura do seu traço, ao número frio das abstracções a plástica de harmonia e comparação e as essencias próprias da sua côr e sua grandeza.
Bem pequeninos, sem nada compreender o incompreensivel. De vôos tão curtos, ai! a cegueira das velhinhas, das avósinhas, que quer netinhos onde a aguia quis seus filhos "para que não degenerem, acostumando-se ao chão". De vôos tão curtos e já tocados do encanto dos astros, do infinito...
Á hora solene, muda, impenetrável em que o coração começa a sonhar e a amar, a sorrir e a sofrer, a esperança deita raizes fortes no torrão sentimental da aspiração e ergue-se robusta na atmosfera favorita do seu passado e do seu presente a enriquecer o seu futuro de preciosas ilusões com lembranças lendas e um destino belo. A esperança e a necessidade frutificam as azas de amor que sobem ao empírico nostálgico das saudades a colher perfumes e exemplos, evocações suaves e conselhos nobres e descem depois ao lago, onde se funde o vigor da vida, a vaporisar as lagrimas da sua dor que é a dor do seu trabalho - lagrimas que servem à vida para a regar no torrão árido e deserto da sua desventura e que servem tambem de regar na veia funda da felicidade humana e na artéria quente da arquitectura do Mundo.
Nesta hora, pois, de mocidade a sonhar e a amar, a sorrir e a sofrer por lá andamos - altas esferas de misterio, de penumbra e encanto, por lá andamos num recolhimento, parado o musculo, serena a célula interior para a melhor penetração nessa divina comédia de espiritos, sorrindo canções de crança e fé, nesse drama saudoso de corações ausentes chorando as lagrimas do eterno silencio. E assim andamos toda a vida, sempre e sempre com os olhos no vago, nas estrelas, sem entendermos ainda o verbo criador da serenidade religiosa da rocha, da dor angustiada da treva, da alegria cristalina de luz e do timbre meigo do som.
Teixeira de Pascoais já entendeu, todavia, porque chora a lua, porque se ri o sol num reberbo de espuma, porque resa o granito quando a tarde cai. Mas se entendeu, foi na formula poetica do seu entendimento individual. Esse verbo criador, revelou-lhe o seu sentimento panteista. Foi a saudade profunda que acordou no seu eu a filosofia das coisas com as suas sombras, a sua luz, penumbra, lagrimas e sorrisos no espiritual amplexo das suas relações.
De resto ninguem entenderá jamais. Mas Socrates entendeu... Misterio. Choram os discipulos e Socrates sorri. Com a sentença fatal sobre a cabeça, onde repoisa a coroa laureada da sua filosofia estoica e pura e da sua arte heróica e santa Socrates sorri. Fredon, Sibias, Cebes lamentam e choram a morte do Mestre. Querem-no ali rial e vivo. Não o suportam à luz fria da morte e da saudade. E o veneno então a sua Cicuta voluntaria desprende para a historia e para os seculos os sons dum bronze que revelou o Mestre já moribundo e sempre forte e constante na sua crença infinita, a crença da sua propria filosifia na origem divina das coisas.
Ele entendeu porque creu. Não entendeu, não; acreditou que entendia...
Nem se entenderá Jámais!...
CELIO do VOUGA.

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