Bilhete postal - A nossa mulher

"O Ilhavense", 1922-03-05


No café «Chave Verde» do Guerra, falava-se ha dias acaloradamente na educação da mulher.
Entre outras coisas, dizia-se que era preciso levantar o nivel moral e social da nossa terra, educar as mulheres, amolda-la ao grau de perfeita sociabilidade, para fazer dela, não à companheira material da nossa vida, mas sin a terna e carinhosa compreendedora dos nossos mais pequenos detalhes...
E então fazia-se o confronto entre todas as mulheres provincianas e europeias, dizendo-se que de todas as mais inteligentes e educadas são as francesas e depois as argentinas.
Ora a conversa tinha chegado ao auge, quando alguem simplesmente foi interrogado.
Manifestou a sua opinião a sua maneira de pensar e o melhor modo de civilisar a mulher da nossa terra, se bem que ha no nosso meio mulheres verdadeiramente educadas e civilisadas.
Aqui o nosso amigo abriu parenteses, e depois de limpar o nariz, alvitrou conferencias, reuniões familiares, cujas visitas reciprocas concorrerriam para o aperfeiçoamento da nossa tricana.
Não deixou de mencionar as dificuldades que no principio encontraria, e com o esforço de todos e boa vontade das nossas mulheres já civilisadas, alguma coisa proveitosa se colheria.- Nada mais simples - dizia um entusiasta - do que conversações amigaveis, verdadeiramente familiares...
Acima de tudo ser´´a preciso tirar-se proveiro das visitas.
- Ora! - dizia outro mais pessimista, - vens prégar moral aqui nesta terra onde nada se faz e nada se alcança...
Pareceu a principio os animos enfraquecerem, mas  dias depois trataram de assentar alicerces para a nova campanha, afim de não ruuir ao mais pequeno sopro do indeferentismo.
Escalaram-se os mais letrados para encetarem algumas palestras instrutivas so seio de algumas familias mais acatadas e respeitadas, dando conta ao presidente da reunião do resultado do seu trabalho.
Volveram dias e o exito da campanha ia-ter seus frutos.
A um domingo, porem, num daqueles passeios tradicionais pela estrada Camões, houve um encontro com algumas donzelas gentis em galanteiios e amaveis em sorrisos disfarçados.
 Mal a conversa do novo lutador pela boa cauda tere inicio, uma das nossas patricias, que julga mostar os dentes e apertar os lábios, é ser educada e instruida, desbancou o nosso amigo quando se exprimiu naquilo que quasi todas sómente sabem dizer:
- O sr. é muito simpático e gentil!...
"O Ilhavense", 1922-03-05
Ficou desarmado e logo previu o fruto duma campanha civilisadora que tantos bens poderia ter, se a nossa mulher, a nossa tricana nos soubesse compreender.
Até pareceu que a terra se sumia debaixo dos pés.
20-11-921.
Zé do Adro.

Comentários