À roda duma proposta. Ouvindo opiniões
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| "O Ilhavense", 1922-03-26 |
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Só provisoriamento o Asilo para inválidos pode ser instalado no Hospital - diz o inteligente aluno da Universidade de Coimbra e nosso querido conterraneo sr. José dos Santos Malaquias.
UM APÊLO À MOCIDADE
Amigo Director
O Hospital de Ilhavo, monumento representativo duma iniciativa altruista de alguns rapazes, coadjuvados pelo auxilio filantrópico do povo ilhavense, não deve enm pode ser aplicado, ainda que em parte, a qualquer outra obra de beneficiencia que não seja - Hospital.
Foi para a construção dum hospital que o povo da nossa terra eu o seu apoio moral e material; foi para esse fim que esses rapazes trabalharam incansavelmente dia e noite, prejudicando muitas vezes os seus próprios interesses para bem de todos nós; foi para esse fim que se fizeram várias festas, que se improvisou um teatro durante a sua construção, cujo produto servia para levar a cabo o levantamento da grande obra; é esse fim que eu desejo ver e nada mais.
A Ex.ma Câmara propoz a creação dum Asilo para Inválidos. Seria digna de todo o meu apoio, essa proposta, se nela não se referisse ao Hospital de Ilhavo. Ainda digo mais: talvez eu transigisse se o Hospital tivesse sido construido como os que modernamente se controem, isto é, por meio de pavilhões completamente isolados e então utilisar um desses pavilhões para o fim que a Ex.ma Câmara deseja; assim não estariam os pobres velhinhos em promiscuidade com doentes que muitas vezes podem estar afectados de doenças infecto-contagiosas que, contaminando-os, lhes apressariam a existencia.
Em suma, o Hospital de Ilhavo deve ser sempre o Hospital de Ilhavo.
Em suma, o Hospital de Ilhavo deve ser sempre o Hospital de Ilhavo.
"Oxalá que os que dizem que o Hospital é grande nunca possam dizer que ele é pequeno".
Desculpa a Ex.ma Câmara em não concordar com a proposta; ajude a concluir a obra iniciada por esses rapazes dignos de todo o meu respeito e, depois, mãos ao Asilo para Inválidos; terá nisso todo o meu apoio.
Lisboa, 8-3-922.
Calisto Ruivo
Sr. Director de O Ilhavense.
Seria faltar aos mais sagrados deveres de bom ilhavense, se, não contribuisse tambem, com a minha modesta opinião para a resolução da proposta que a Ex.ma Direcção do nosso Hospital acaba de apresentar à opinião de todos os ilhavenses, livrando-se assim de responsabilidades, de que mais tarde a opinião pública lhe pediria contas.
Foi com regosijo, que li, no penúltimo numero do seu conceituado jornal, a noticia da fundação de um asilo para inválidos e que essa iniciativa tinhasido votada pela Ex.ma Câmara, o que, aliás, mostra que na nossa terra ainda ha quem queira minorar a sorte dos que sofrem.
Responddo-lhe, pois, Sr. Director, não porque me caiba aictoridade suficiente para ventilar tal asssunto, mas porque o apêlo é lançado a todos os ilhavenses sem distinção de classes.
É alevantado e altruista o gesto da Ex.ma Câmara, e todos, sem excepção alguma, devem reconhecer que é necessário concorrer com o máximo esforço para tão nobre instituição de Caridade. Todavia, não acho justo que a Câmara instale no nosso Hospital (que eu julgo não ser muito grande, como muita gente afirma) essa instituição, a não ser que o faça provisoriamente, como diz, e com muita razão (da minha parte) o sr. Marcos Ramalheira. Se não houver outra casa que sirva para tal fim, outra casa que sirva para tal fim, abram-se subscrições como diz aquele cavalheiro.
Desejaria neste momento ser o barão de Rotschild ou coisa semelhante, para que na minha terra, que eu amo tanto, ninguem se visse na dura necessidade de estender a mão à Caridade, pedindo agasalho por não ter abrigo ou um bocado de pão para mitigar a fome!
Ha contudo mil maneiras de se arranjar dinheiro além da proposta pelo sr. M. Ramalheira. Para essas, apelo neste momento para os pobres sentimentos da gente da nossa terra.
Senhoras de Ilhavo, vós que tendes sido sempre tão caritativas, ajudai a vestir os pobresinhos! Atenuai, quanto possível, a miséria daqueles nossos irmãos que não podem trabalhar!
´Promovei festas, kermesses, saraus, etc., etc., e transformai tudo isso, como outr'ora a Rainha Santa, em pão e agasalho para os pobresinhos! E vós, rapazes da minha terra, se quizerdes cooperar tambem nessas festas tão simpaticas, contai sempre com o modesto auxilio daquele que vos fala e que estará sempre ao vosso lado como soldado obediente, apesar de distante, sempre que brilhar nas vossas almas essa virtude sublime: Bem-fazer!
Eis a minha opinião, sr. Director de O Ilhavense. Instalar definitivamente numa casa de doentes, o asilo para os invalidos, seria quasi uma utopia.
É grande o nosso Hospital? Quem sabe, se, infelizmente por vezes não será pequeno para abrigar os enfermos?
A gente da nossa terra é generosa e boa porque disso tem dado provas. Construa-se, pois, uma habitação própria para os pobres inválidos e concorramos todos com o nosso maior esforço, porque (tenho sempre presentes estas palavras do Revd.º Cónego José Maria Ançã, a quando do primeiro aniversário do Hospital) quem sabe se ámahã não cairemos na pungente necessidade de para lá caminharmos os nossos passos já trémulos?! Quem sabe?!...
Coimbra, 9-3-922.
José dos Santos Malaquias

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