Á roda duma proposta. Ouvindo opiniões

"O Ilhavense", 1922-03-12
Célio do Vouga declara-nos que votou à proposta por lhe achar vantagens morais.

O Hospital só pode ser adaptado a Hospital, diz o nosso ilustre conterraneo sr. Viriato Camarão.

Crie-se uma sociedade dos «Amigos do Hospital de Ilhavo», diz aquele ilhavense.

Ao abrirmos este inquerito no ultimo numero do nosso jornal, longe estavamos de imaginar que nele acorressen a depôr patricios tão estimados, patricios mais categorizados que lá longe na labuta pela vida pensam constantemente na sua querida terra natal, não lhes sendo indiferente o que por cá se resolve e se faz em beneficio do seu progresso e dos seus melhoramentos.
As cartas que hoje publicamos e as que já recebemos e publicaremos em numeros sucessivos são uma prova cabal de que todo o ilhavense ausente pensa a cada momento na sua terra e se interessa bastante pelos seus destinos.
Ao abrirmos este inquerito sobre a proposta da Camara Municipal, não nos anima - creiam-no todos sinceramente - a mais pequena parcela de animadversão, contra a excelente ideia da Camara que nós combatemos na sessão de domingo por motivos que damos na noticia dessa reunião. Não. Este inquerito tem apenas por fim ouvir a opinião de tantos patricios nossos, dispersos por esse Portugal alem, sobre um facto que tanto apaixonou a opinião publica e que ficou definitivamente resolvido no domingo passado.
Ao nosso inquerito respondetam hoje: o nosso estimado e inteligente colaborador Célio do Vouga, e o nosso bom amigo e ilhavense de rija tempera sr. Vitorino Camarão.
Outras opiniões temos em nosso poder, que iremos publicando pela ordem que vão chegando à redacção.

Meu caro director:
Fazes uma consulta ao teu jornal sobre a momentosa questão da adaptação duma das incompletas enfermarias do Hospital da Misericordia de Ilhavo a asilo de invalidos.
Vou responder. Na reunião que se realizou para tal fim, eu [?] por que se fizesse essa adaptação movido por estas duas razões entendo que exercer a caridade é minorar a desgraça dos que sofrem; daí, curar uma doença ou proteger um inválido que tanto pode ser velho como novo, estão igualmente dentro daquela virtude. O hospital fez-se com um fim de caridade - isso me basta. A segunda razão consiste no estimulo de que é necessário rodear aquela casa de caridade.
O sr. Presidente da Camara afirmou que era necessário que o Hospital começasse a funcionar para que se vissem já alguns frutos praticos. Ninguem podia discordar desta opinião.
Eis as razões que me determinam.
Mas agora algumas considerações como munícipe: poderá a Camara sustentar esta obra por largo tempo ou naufragará ela em poucos mêses?
Tu, caro director, fizeste nessa reunião as objecções que qualquer amigo de Ilhavo perfilha. E assim é que sendo, como são, os encargos do município de molde a não poder distrair-se verbas para outros fins, havendo, como ha, urgentes problemas a resolver, este plano em discussão vem a gorar-se num praso curto.
Alem de que ninguem pode garantir que uma futura edilidade mantenha os pontos de vista da actual vereação.
Mas, caro director, o facto da assembleia aprovar a cedencia do salão, não implica a resolução definitiva do assunto. A ex.ma Camara tem todo o tempo que quiser para ponderar, tendo ainda em vista que o fracasso do seu plano pode ser de funestas consequencias para o Hospital.
Para terminar: eu votei a proposta por lhe achar vantagens morais. Mas se tivesse de ligar-lhe as minhas responsabilidades pessoais, não a perfilharia sem que se desse esta previa condição: a Camara poderá, em qualquer hipótese, arcar com as despezas e encargos desta obra de filantropia, ficando-lhe ainda reservas para resolver, num praso maximo de dez anos, os problemas da higiene das ruas, canalização de aguas e da construção dos Paços do Concelho.
Só assim eu a perfilharia.
Eis a minha opinião.
Célio do Vouga


"O Ilhavense", 1922-03-12


Meu presado amigo:

Pede-me para que, como ilhavense, diga, por intermedio do seu jornal, qual a minha opinião ácerca da orientação a dar ao novo Hospital, visto haver divergencias entre alguns dos nossos conterraneos sobre a sua melhor adaptação. Poucas vezes na minha vida tenho exposto em publico, a minha maneira de ver, sobre qualquer assunto, pois que sempre adoptei o dilema antigo: o calado é o melhor. Mas como se trata duma questão que interessa sobremaneira todo o ilhavense que tem amor à sua terra, apesar de viver ha muitos anos dela afastado, eu não posso deixar de emitir a minha humilde opinião ácerca de uma obra tão digna de todos os corações bembazejos, honra de todos; porque todos tem concorrido com o possível das suas economias para que um dia, que não virá longe, Ilhavo tenha uma casa onde possa receber os seus filhos, que à falta de meios e carinhos, morrem aao abandono. Confesso-lhe, meu caro Teles, que desde o inicio da construção desse edificio eu previ que não podia comportar os dois fins para o destinavam. Hospital para doentes, Asilo para invalidos. Quando muito só pode ser adptado ao primeiro fim, visto que um Hospital moderno, carece de amplas enfermarias onde haja bastante luz e o ar possa ser renovado afim de evitar outras doenças pela sua viciação. Alem disso, um Hospital moderno, além de duas enfermarias, - uma para homens, outra para mulheres - carece de ter uma sala de operações, com todos os aparelhos modernos; uma sala ampla de repouso (convalencencia) com muito sol e luz, convenientemente ajardinada, onde o doente possa estar sem o  agravamento da sua doença. Alem destas divisões, outras deve haver que se tornam absolutamente indispensaveis, que não menciono, pois tiraria ao seu mui lido jornal o espaço de que tanto precisa. Nestas condições, como vê, não deve ser adaptado o novo Hospital a outra coisa que não seja Hospital, visto não ter capacidade para mais, sob pena de juntar inválidos com doentes, dando em resultado ser tudo, menos Hospital. Tem a casa recursos para poder fazer face ao sustento das duas secções? Decerto não tem, visto que não tem sequer recursos para a conclusão das suas obras. Como o meu amigo sabe, existe em Ilhavo uma grande quantidade de inválidos, sobretudo saídos da classe maritima, onde as energias se perdem com mais facilidade, atendendo a que é esta classe social que dispense maior energia corporal e cujos salarios não comportam uma velhice desafogada. Note bem: eu não quero, de forma alguma, com o que acabo de escrever, desconsiderar tal classe, pois, apesar de a ela não opertencer, é de todas as profissões aquela com que mais simpatiso e tenho nessa gente grande numero de amigos. Que a Camara em vista do gesto nobre do seu presidente, meu amigo Diniz Gomes, faça um estabelecimento proprio para tal fim, porque alem de ser uma obra filantropica, tira da rua esses pobres, que são o reflexo duma vida cheia de infortunios. No Hospital, não. Já agora, que tenho escrito sobre este assunto, deixe-me manifestar a minha pouca simpatia, - sem contudo querer hostilisar a Direcção do Hospital, pois todos os seus membros são homens de bem, que através de todos os sacrificios procuram efectivar essa grande obra para Ilhavo, - pela forma como procuram arranjar receita para fazer face ao proseguimento das obras, com espetaculos que não se coadunam ao meio onde são representados. Pois não ha outro meio de arranjar receita? Crie-se uma sociedade dos "Amigos do Hospital de Ilhavo", composta de pessoas de bem, de coração, e que pelo ingresso na sociedade paguem, alem de uma joia, uma mensalidade, tendo direito a que se exponham os retratos numa galeria, que faz parte duma das dependencias do Hospital, para por esta forma dar o estimulo aos que não tem auxiliado com o seu óbulo aquela casa e prestar homenagem áqueles que vão falecendo. Ainda poderia lembrar-lhe, amigo Teles, outros recursos, mas atendendo a que esta carta já vai longa, reservo-me para outra que farei publicar no "Ilhavense".
Disponha sempre do seu amigo
Vitorino Camarão.
P.S. - Caso seja criada a sociedade a que me refiro acima podem considerar-me um socio com a joia de 50$00 e 20$00 anuais.
V.C.

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