Uma opinião
Educar, moralisar, instruir, eis qual deve ser o nosso scopo - diz um inteligente colaborador deste jornal.
O numero 4 de «O Ilhavense», versando a questão do que deve fazer para ser util e, sobretudo, instrutivo à nossa mulher, sugeriu-me algumas considerações que a correr rabisco, e de que fareis o uso que vos aprouver.
Tive sempre uma consideração muito especial - e quem ha que a não tenha? - pela mulher culta e educada, e é por isso, e ainda porque a mulher de Ilhavo caminha infelizmente na rectaguarda da mulher de Portugal, quando esta já é das mais atrasadas da Europa, que a secção deminina encontrou em mim um adepto fervoroso. Por direito eu não devia ter voto na materia, visto a tratar-se duma questão inteiramente feminina, e, portanto, delicada para mim. Mas eu acostumei-me de pequeno a ter o espirito um tanto quanto lhe diz respeito me interessa sobremaneira.
Ha um ponto em que a minha opinião diverge um pouco da da ex.ma Senhora que O Ilhavense começou por entrevistar. Simples diferenças de vistas e nada mais. É aquele em que S. Ex.ª é partidario de que O Ilhavense poderia publicar como instrutivo, um romance, por exemplo de Campos Junior.
A minha opinião a respeito da leitura de romances cuja essencia é o mais prejudicial possivel no espirito fraco da mulher, e sobretudo da mulher portuguesa, talvez mais sensivel que nenhuma outra, está absolutamente formada. O romance na mão da mulher é, quanto a mim, não sómente prejudicial, mas ainda contrario aos principios da moral, sobretudo da moral cristã.
Eu substituiria o romance por qualquer coisa do genero epistolar sempre diferente, interessante, instrutivo e agradavel. Isto teria, a meu ver, a dupla vantagem de dar à mulher de Ilhavo (que, seja dito em abono da verdade, não sabe, regra geral, redigir uma carta) ocasião, servindo-lhe ao mesmo tempo de estimulante, para aprendê-lo, e desenvolveria ao mesmo tempo o gosto pela leitura. Outro genero que não deixaria de gostar ver substituir o romande, coisa já tão velha, sensaborona e má para o anjo de candura e simplicidade que deve ser a mulher, seria o genero narrativo. Um conto bem feito baseado na historia de Portugal - que a temos mais bela que nenhum outro povo - não só interessa e prende quasi sempre, mas tem ainda o dom de desenvolver às vezes um sentimento bem oculto. Ha tanta coisa maravilhosa em português sem ser preciso descer ao romance!...
Assim, se me fosse dado ter ulguma interferencia na "Secção feminina", que deve ser um ninho de caridade, amor e beleza, poupando ao mesmo tempo o mais pequenico conto do jornal, que o espaço não é muito, tanto são os assuntos a tratar-se nas suas colunas, eu daria, ao menos de 15 em 15 dias, à 3.ª pagina o nome de pagina feminina e ver-se-ia ali tudo quanto possa interessar a nossa mulher.
Desde o berço à maternidade, do ménage à recepção, do pontear à confecção de um vestifo ou de um chapeu; ha tanta coisa que 99 por cento das nossas mulheres ignoram, que eu pretendo que a secção ou pagina dedicada à mulher de Ilhavo é uma pagina de verdadeira caridade, porque nem só de pão se vive.
Á mistura com esses assuntos capitais viriam então os contos, as cartas, toda uma secção literaria escolhida, instrutiva e moral.
Uma das muitas coisas que a "Secção feminina" terá de fazer será fazer mudar a pouco e pouco o trajo da nossa mulher, substituindo-o por alguma coisa de mais seculo vinte e menos provinciano, mais rasoavel e quasi sempre mais barato, simples e elegante. Virá depois, ou talvez em primeiro logar, a creação de um colegio em Ilhavo, onde se ministre à mulher uma educação solida, a par de uma instrução rasoavel e sã. Tem sobretudo que velar pela educação religiosa da mulher - que a educaçãoreligiosa desta é a mais segura garantia da felicidade do homem - formando-lhe ao mesmo tempo o espirito e desenvolvendo-lhe a inteligenccia.
Educar, moralisar, instruir e modificar, eis os principais papeis que terá a seu cargo a pagina feminina.
Elsa.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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