Na Costa Nova
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| "O Ilhavense", 1922-02-19 |
Aquela alma daninha que infestou a nossa praia e que no tempo balnrar tanta celeuma provocou, tendo este jornal, de chamar, por vezes, a atenção dos seus superiores; aquele espirito mau que assentou arraiais na nossa linda estancia, fazendo-se nela um soba, em regulo, por todos temido e respeitado, fazendo valer sempre os seus caprichos, mesmo quando isso ia de encontro aos mais rudimentares principios da hospitalidade e da delicadeza; essa cara estranha de fantoche, horripilante, abominavel, que ali vive cegetava como cogumelo numa estrumeira, auxiliado pelo querido companheiro da guarda-fiscal que lhe dava toda a força e toda a audacia e - porque não dizê-lo - encorajado com a impunidade que se notava da parte de quem tinha obrigação de o castigar, ou pelo menos sindicar em face das acusações que lhe fizemos, fez agora das suas, sendo deveras de lamentar que o biltre não deixasse o seu lugar, de que tanto exorbitou, sem primeiro marcar, como ele tanta vez ameaçava, algumas pobres criaturas que lá foram para o Hospital de Coimbra crivadas de balas e bastante maltratadas de chicotadas de cavalo-marinho de que o régulo fazia uso diario.
Contemos, serenamente, mas com a repulsa que o caso nos causou, a scena em que foi protagonista o famoso cabo do mar de apelido - o Pina.
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| "O Ilhavense", 1922-02-19 |
Ha ao sul da Praia duas tabernas - a da Pauseira e a do Cabelo. Aí costumam juntar-se os individuos que ficam na praia durante o inverno.
O banheiro José Pio Ricoca é "habitué" da cada do Cabelo com o que se não pode conformar a Pauseira.
No referido dia 13, pelas 8 horas da noite, estando o banheiro José Pio à lareira com a familia do Cabelo a contar historias, precisou vir à rua fazer as suas necessidades. Meteu-se para isso numa viela proxima. A mulher do cabo do mar, que com este e outros frequentava a taberna da Pauseira, teve precisão de, à mesma hora, ir à mesma viela. E como já ali encontrasse o banheiro José Pio, começou a injuriá-lo e insultá-lo, indo chamar o marido que, correndo à viela, bateu barbaramente com um cavalo-marinho no pobre banheiro que começou a gritar por socorro.
Acudiu então bastante gente e o cabo de mar, entrincheirando-se no palheiro da Pauseira, e auxiliado pelo Albino Azevedo e pelo João Fradoca, começou dispando sobre a multidão balas de pistola a esmo. Ficaram feridos na retrega o José Pio com duas balas, Joaquim Portugal, de 13 anos, filho do banheiro Antonio Pataneca, com uma bala numa perna e Manuel Prospero Genrinho, casado com Gloria Figueiredo, da Gafanha, com duas balas na coxa direita. Enquanto durou o duelo e logo que se soube que havia feridos o sr. José das Hortas e outro companheiro foram de bicicleta a Aveiro dar parte às auctoridades e à Cruz Vermelha, que imediatamente fez seguir para ali um carro transportando para aquela cidade os feridos que, em virtude do seu estado de gravidade, tiveram que ser conduzidos ao Hospital de Coimbra.
O sr. Capitão do porto logo que soube do sucedido demitiu imediatamente o cabo do mar, sendo o caso entregue à justiça.
E aí está o fim de uma odisseia. Triste odisseia, por sinal, que faz rir o tal regulo, ma que pode ser fatal a qualquer dos feridos.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo
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