Entrevista com o snr. Presidente da Camara
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| "O Ilhavense", 1922-01-29 |
Curiosos e inéditos informes prestados a O ILHAVENSE
Um repto lançado pelo snr. Presidente da Camara.
Por mais de uma vez procurámos entrevistar o sr. presidente da Câmara Municipal de Ilhavo. Embora muito amavelmente, sua ex.ª negou-se sempre a isso, alegando motivos vários, e muito especialmente o desejo de manter-se num modesto recato. Ha dias, porém, no seu regresso de Lisboa, onde foi assistir à reunião dos representantes de todas as Câmaras do paísm procurámos de novo o sr. Diniz Gomes, para o tentarmos ouvir. Não poude sua ex.ª negar-se a isso desta vez. O resultado da nossa entrevista devia ter sido publicado no ultimo numero de O Ilhavense, mas, tendo aparecido num jornal da terra umas considerações do sr. engenheiro Regala, o sr. presidente da Câmara mostrou desejos de as apreciar. Voltámos a ouvi-lo. Sucede, porém, que essa nova palestra tomou uma latitude com que não contavamos. Impossivel se torna, pois, dadas as dimensões do nosso jornal, publicar tudo neste numero. Porque nos parece mais interessante e oportuna, damos hoje publicidade à segunda parte da entrevista com o sr. presidente da Câmara:
- Aqui nos tem de novo acudindo ao seu amavel chamamento.
- Obrigado, meus amigos, muito obrigado pela sua gentileza. Desculpem o incomodo que lhes dou, e o transtorno que deve ter-lhes causado a retirada da nossa entrevista do ultimo numero de "O Ilhavense".
- Nada disso. Queira dispôr de nós; só nos dá prazer ouvi-lo.
- Sempre amaveis... Como sabem, o sr. engenheiro Regala falou na "Beira-Mar" e fêlo com auqela auctoridade que lá em casa lhe reconhecem. Ora, s. ex.ª, estava no plenissimo direito de falar é mesmo isso uma das suas ocupações diarias, mas o que podia e devia, era fazê-lo por forma a não ferir susceptibilidades alheias. Embora sorrateiramete veladas, ha ali transparentes alusões à minha humilde pessoa. Não sejamos, então, todos ridiculamente tolos, nem pusilanimes. Pela parte que me toca eu aparo-lhe em cheio o bote que me joga ao peito, e num legitimo direito de defeza e de desafronta propria e dos meus colegas na Camara Municipal, acudo ao repto, saindo do isolamento e socego espiritual em que tanto queria conservar-me, para vir comentar a fecunda e espirituosa conversa do sr. Regala.
- Espirituosa, disse? acudimos interessados.
- Sim, espirituosa. É que o sr. Regala tem sempre nas suas eruditas palestras a obsecante preocupação de ser espirituoso. Dest'arte, ainda desta vez ele inicia a sua conceituosa entrevista, com uma introdução musical que lhe fica a matar. Pois não acham os amigos pilhas de boa graça democritiana áquela imagem piramidalmente bizarra de comparar os municipios ao homem dos sete instrumentos? Reparem bem que isto é profundissimo de logica e de concordancia. Os senhores estão vendo que noção possue o sr. Regala do que seja um municipio. Os grandes homens têm muitas vezes, destas curiosas veleidades...
- Equivocos desculpaveis, afinal...
- Equivocos!... tem graça e não ofende. Pois meus amigos, não é preciso ter-se uma grande capacidade tecnica, para se reconhecer, como lhes disse, que as jocosas e sibilinas referencias musicais do sr. Regala, são comigo. Devo eu incomodar-me com isso? Não. Todos nós conhecemos bem o feitio do sr. Regala, a sua maneira especial de ver as coisas, o modo como tudo critica e censura, bem como os seus processos de apreciar e medir os homens.
- A sua longa permanencia em Africa, arriscámos.
- Quem, como o sr. Regala, veio ainda ha pouco, neste jornal, queixar-se dumas inofensivas referencias literarias aqui feitas sem qualquer intuito reservado, a um seu remoto parente, não tem o direito de servir-se dos mesmos processos para fazer referencias que magôam a quem com sacrificio e gratuitamente, exerce cargos publicos. Desta vez, então, deu-lhe para embirrar com os Municipios! Ora como eu ocupo aqui o lugar de presidente da comissão executiva da Camara Municipal - assim é que está certo - claro está que o "homem que tange ao mesmo tempo todos os instrumentos numa desafinação que só encanta os colegas da vareação" só posso ser eu.
- Sem duvida. Felizmente nem todos pensam do mesmo modo, pois que fazem a v. ex.ª e aos seus colegas na Camara a justiça merecida.
- Pois seja embora assim na boca d'oiro do sr. Regala. Mas desta vez s. ex.ª errou. Alto lá! Em materia de afinação de instrumenntos, eu não reconheço supeioridade no sr. Regala sobre mim! Conheço-lhe bem a força musical. Tenha s. ex.ª paciencia que eu afino e toco ao pé dele, sete ou mais instrumentos com vantagem!
- Positivamente. V. Ex.ª tem dado provas exuberantes disso, creia.
- São favores. NNo entanto, folgo em registar o seu tetemunho sobre a excelencia dos meus meritos, e ouvindo para a afinação dos instrumentos e interpretação da solfa... mesmo mamararia.
- O seu passado artistico são uma solida garantia disso.
- E, aqui muito à puridade: podem dizer-me que gaita toca bem e com afinação, o sr. Regala? Ao menos uma em que ele se torne notavel e digno de aplauso...
- Ignoramos, pois não somos intimos de s. ex.ª.
- É pena. Mas ainda que o fossem, ficavam na mesma. Até hoje, que saibamos, os rebentos filarmonicos e tecnologicos de s. ex.ª, com os instrumentos todos bem afinados, estão aí patentes aos olhos de todos - os projectos do Hospital e da escola da Chousa Velha, que o imortalisam.
- Note, porem...
- A grande expressão da verdade é que o sr. Regala não admite bons municipios - queria ele dizer, boas vereações, o que faz sua diferença - a não ser com muitas capacidades proficionais e muitos bons sensos. Parece um requerimento para nicho. Ora capacidades tecnicas deste quilate não andam por aí a trapêlo. Quando muito, poder-se-ha arranjar uma, e desta forma eu opino que se entregue imediatamente o governo municipal ao sr. Regala, para que isto fique tudo rapidamente num brinco e com os instrumentos todos em rigorosa afinação.
- E quem sabe?
- Melhor sorte nos dera Deuz. Mas prossigamos. Alguns dos quesitos apresentados ao sr. Regala para responder, já aqui lhes falei neles na entrevista de ha dias, as que temos são regulares e relativamente abundantes. A natureza do solo não nos dá margem a possuirmos outras, e nem poderemos ter a veleidade de as ir buscar à Serra da Estrela... As canalisações são, talvez, deficientes em parte, mas razoaveis, quasi todas em manilhamentos de grés. Inquinações ainda aqui não se constataram. Ha, é certo, as diarrêas infantis, estivais, como em toda a parte, provocadas especialmente pelos excessivos calores, abuso das frutas de má e impropria alimentação. A proposito de aguas vou contar-lhes um caso interessante.
Informaram-me de que havia abundante e rasoavel agua na cerca do Hospital. Lembrei-me trazê-la até ao centro da vila por meio duma canalisação higienica e moderna. Restava saber se a diferença do nivel seria bastante para elevar cá em baixo a agua à altura dos marcos fontenarios. Pedi por mais duma vez ao sr. Regala o obsequio de me fazer esse trabalho. Pois dois anos quasi decorridos ainda espero por resposta!
Depois disto julga s. ex.ª com autoridade para prégar contra as más canalisações!
Em assunto de melhoramentos, o sr, engenheiro Regala, acoima de má a abertura da Avenida Manuel da Maia, bem como a que trago em construção, ligando aquela com o mercado. Não favorecem a expansão-urbana, diz. Todavia, o sr. Regala sabe bem que já ha ali sitios vendidos para construções, e que aquelas arterias favorecem muitissimo as comunicações, descongestionando outras ruas nuito transitadas, tais como as de Serpa Pinto, Oitão, Praça, etc.
- É isso uma grande verdade.
- Pois se o sr. Regala até nega horisente às novas avenidas! Como se não existisse ali aquele luxiriante e pitoresco vale, com a linda e aprazivel encosta de Alqueidão, esmaltada de jardins e pomares, e tendo ao fundo, como remate soberbo, cheio de magica ppoesia e encanto, o panoramo tão caracteristico e belo da Malhada e da Gafanha, com aquelas bucolicas tonalidades prenhes de lirismo, a beleza das aguas palreiras, o matiz dos prados, tanta coisa soberba que impressiona e encanta todas as almas e todos os corações que sabem sentir e amar... menos ao sr. Regala...
- Que bela tirada!
- Sim... talvez. De resto, meus amigos, eu conheço muitas avenidas e outras em construção, a dos Aliados, no Porto, por exemplo, em que o horisonte ficou no gabinete de quem as delineou. E basta o facto daquelas arterias terminarem de vez com o transito do pescado pelo centro da vila, para se lhes reconhecer utilidade.
- Diz v. ex.ª muito bem. Era tambem um espetaculo deprimente a exibição dos ranchos de pescadeiras acocoradas na praça esperando o pescado vindo da Costa Nova. Isso findou.
- Está claro. Mas, o sr. Regala não vê nem reconhece nada disso. São coisas mininas para ele, que, no entanto, tudo sabe, tudo diz e tudo vê como o A. B. C. Quanto ao projecto duma arteria que, partindo do Hospital, se alargasse na direcção de Vale de Ilhavo, aquilo foi sonho. Deixemo-nos de coisas tão largas, que a casa é estreita de mais. Provavelmente queria horisonte para a sua obra... Tambem o sr. engenheiro do Hospital condena a obraem projecto de se eliminar a curva que afronta a estrada logo a seguir ao recanto da fonte.
- Mas essa obra ha muito que se recomenda, e todos a aplaudem.
- Todos, menos o sr. Regala. O argumento condenatório é a estafada expansão urbana. De forma que, melhoramentos sem expansão vai para o limbo. Beleza, comodidade, asseio, são ninharias. Assim é que o sr. Regala, tambem não aplaude que se amplie e dê forma moderna e consigna ao exiguo mercado que possuimos em forma de ganheiro e pejado de casinhotos e alpendres. Que não, que o que está chega e serve. Ele lá sabe. Este senhor tanto prega pelo que se faz como pelo que se pretende fazer.
| "O Ilhavense", 1922-01-29 |
- Realmente o nosso mercado é deficiente e inestetico. Impõe-se o seu aformoseamento e ampliação, procurando isolar a venda do pescado, que derrama moiras e maus cheiros, dos restantes generos, e acabar com a venda fora do recinto que dificculta o trsndito e dá ao local um desagradavel aspecto.
- É isso, precisamente, o que se tem em vista, não falando já na avultada receita que daí resulta para o municipio (neste caso é que se escreve muninicipio). Mas, como podem os amigos atingir isso sem possuirem, como eu, largos conhecimentos tecnicos?... Esquecia-me dizer-lhes que o projectado cort do muro, junto à fonte, tem especialmente em vista, evitar os desastres que a cada passo lá se dão. A curva brusca da estrada, tapa a vista aos carros, automoveis e ciclistas, que seguem animados de grande vecolidade por motivo do declive da estrada, o que dá margem a atropelamentos e desastres graves.
- É isso verdade. Ainda não ha muito tempo que ali foi buscar a morte uma creada do sr. madail.
- Quasi no fim da sua suculenta palestra, o senhor engenheiro do hospital, volta a prégar que tudo o que ha para fazer, não pode ser obra duma só cabeça. Muito o incomoda acabeça do homem dos sete instrumentos!
- Não será má interpretação?
- Pois, meus amigos, garanto-lhes firmemente, que, antes me quero absolutamente só, do que acompanhado por certos profissionais tecnicos.
De resto, o sr. Regala, sabe bem que eu costumo consultar alguem com valor real, praticamente demonstrado, que a Ilhavo tem vindo a meu pedido. Talvez até venha daí a quisilia de sua ex.ª. Quem sabe? Tudo o que aí está feito, e o que haja a fazer-se, sob a minha superior orientação, e com o aplauso dos meus colegas na Câmara, exponho-o de bom grado à critica acerba do sr. engeenheiro Regala. Resta-me depois o direito legitimo, que não enjeito, de, embora como leigo e sem competencia tecnica, apreciar e descutir, sem chocarrices, mas sim com a consulta dos mestres e o exemplo e lições dos scientistas, a obra de sua ex.ª aí patente aos olhos de todos. Não será preciso um grande esforço intelectural para esse trabalho. E veremos, então, quem mais barbaridades tecnicas tem praticado em Ilhavo.
A palestra vai longa, e demais os tenho maçado.
- Pelo contrario interessa-nos muito.
- É natural que eu, de novo reptado, tenha que voltar a importuna-los. O homm dos sete instrumentos tem um variadissimo reportorio a exibir. E, por demais, doi começar a festa e terem-se afinado as gaitas.
Garanto-lhes que o concerto vai ser de tres assobios!...
Assim terminou o sr. Diniz Gomes a sua interessante palestra, entendendo-nos, num grande gesto de franca e leal amisade, a sua mão amiga, numa despedida toda cheia de carinho e afectuosa amabilidade.
Aqui lhe reiteramos mais uma vez os nossos sinceros agradecimentos.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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