De Ilhavo a Anadia

"O Ilhavense", 1922-01-29
Partida

Como estava combinado, aí por volta das 6 horas da manhã, retumbaram na atmosfera serena os estoiros dos morteiros, anuniando nuns puns atroadores que se podia partir. Rolavam pardacentas nuvens pelo céu, mas nem vento nem frio anunciavam manhã chuvosa.
Pelas 7 horas e meia todos quantos se aprestavam para partir se juntaram, pelo Oitão e Praça, onde rebentavam a cada momento novos morteiros chamando os retardatários. Finalmente, carros, bicicletas largaram a caminho da Estação de Aveiro no meio da mais esfusiante alegria e entusiasmo.
Para o nascente abria-se o ceu em clareiras dum purissimo azul e róseos vapores anunciavam uma deliciosa alvorada. Parece que a sorte favorece os de Ilhavo. O Sol levanta-se ainda pálido e fraco, mas a animação recrudesce e sentimos rebates presagiando um belo dia. Grandes bandos de gaivotas veem do mar e passam gritando por cima de nós. - Mal sinal, diz alguem a nosso lado.
Efectivamente, já em Aveiro, as avançadas do negrume que do sul veio cobrir todo o céu, começam a largar as primeiras gotas.
Quando a chuva começa a sair ineterruptamente já nos não desanima, porque estamos na gare prontos para o embarque. Um silvo agudo... embarcamos; outro silvo agudo... partimos; depois cantigas, conversações, prognósticos, gritos estridulos, uma paragem, outra paragem e ainda outra paragem e preparamo-nos para saudar e abraçar os nossos amigos de Anadia cujos hurrahs estralejam como foguetes.
Os de Ilhavo cantam:

«Não trazemos a sardinha
por ser salgada de mais...
Descansa, Manel Craveiro:
Não chores que tambem vais.»

Vimos de Ilhavo aqui
Com a presteza do raio
Saudar a linda Anadia
No dr. Carlos Sampaio.

E o coro, como um crepitar de metralhadoras e canhões;

Vamos com fé
E bom coração
Saudarr Anadia,
Tomar o pifão.

A recepção

A chuva continua morrinhenta e aborrecida e, num instante, na mais alegre camaradagem, entre vivas e gritos de alegria, quando começa de novo o sul e o poente a azularem-se, numa claridade alacre e animosa, saltamos para os automoveis que a amavel hospitalidade dos Anadienses tem em Mogofores para nos conduzirem a Anadia.
Mais uns chuviscos, mais uns minutos de morrinha, de angústia e pesadelo e, numa bela corrida pelas estradas lamacentas, ei-nos na entrada da risonha vila de Anadia.
Sons metálicos estrugem, inumeros morteiros rebentam.
Bom tempo agora, uma aberta providencial deixa acamaradar freneticamente as duas terras. Anadia recebemos nos seus braços tão festivamente, tão carinhosamente, que os de Ilhavo, desnorteados, delirantes, loucos de alegria, berram cada um para seu lado, abraçam o mais desconhecido, o mais humilde de Anadia.
A pé agora pelas ruas de Anadia, por baixo das janelas e sacadas repletas de senhoras que atiram flores e gritam saudações. O entusiasmo atinge então o máximo e a imensa mole humana passa sempre gritando, chapeus levantados, lenços em agitação febril, flâamulas desfraldadas e beijando-se em amistosos contactos, como que a remediar um pouco o esquecimento dos de Ilhavo, que, alheados e isolados no meio dos grupos de Anadia, berram cada um para o seu lado, sem se verem, sem se ouvirem para atordoarem com os seus hurrahs e vivas a risonha vila,
Entramos, enfim, nas salas do Centro Recreativo de Anadia, depois do que, soltados os derradeiros vivas, nos espalhamos pelas ruas fóra.

O almoço

Manuel Craveiro aparece-nos então mexido e alegre, em apresentações sucessivas, atendendo todos simultaneamente e avisando-nos de que sãao horas de almoço.
Cercado de ínumeros Anadienses que reclamam hospedes, numa franca e comovedora hospitalidade, vai-nos apresentando e indicando, dois a dois e três a três, para almoçar. A camaradagem torna-se cada vez mais simpatica e comovente. Ilhavenses e anadienses que nunca, até então, se tinham visto, falam e gesticulam como velhos e leais amigos.
Soubemos depois que todos trouxeram gratas e saudosas impressões da casa, da mesa e da familia dos anfitriões que, francos e rudes como os antigos lusitanos desta bela região da peninsula, souberam confraternizar a simplesa do seu viver campestra com a rude e viva espontaneidade dos homens do mar.

O desafio

Aí pelas 2 e 30 o véu pardacento das nuvens rompe-se ao sul e a uma voz todos os jogadores de Ilhavo e Anadia, já devidamente uniformisados, seguem para o campo de futebol. A uma apitadela estridula de Artur Sacramento, que vai arbitrar, reunem-se no meio do campo os dois "onzes" que, em seguida às sortes, partem cada qual para o seu campo.
A sorte começa a abandonar os jogadores de Ilhavo que escolheram a metade escorregadia, declinosa e encharcada.
De principio mantem-se o jogo regularmente equilibrado nos dois campos, ainda que predominem os ataques do «onze» anadiense que está como o peixe n'agua. Os de Ilhavo começam a andar lambusados de lama e a desprenderem-se do jogo. Quando a bola cai nalguma poça de água fogem como se esperassem o rebentar duma granada. Alguns jogadores jogam tanto às cegas e tão desorientados, que ajudam sobremaneira as avançadas, cada vez mais perigosas, dos de Anadia. E por fim, quasi ao terminar a 1.ª parte, numa recarga mesmo defronte das redes, depois de uma bela defesa do guarda-redes Ilhavense, Anadia marca o seu primeiro ponto, com espanto geral dos jogadores de Ilhavo, especialmente de Parracho, que julgavam a bola fóra da linha.
E imediatamente terminava a 1.ª parte, que todos julgavam ir ficar sem resultado para qualquer dos lados.
Na 2.ª parte o "onze" Anadiense domina francamente o de Ilhavo, cujos jogadores, atarantados, enlameados e dando a impressão de que teem as pernas presas, mudam e trocam, numa baralhada de causar riso, os seus lugares. Ha um até que parece ter passado abertamente para os de Anadia, atrapalhando os seus camaradas e fazendo passagens tão a propósito para os jogadores adversos, que estes jogam agora dôse contra dez.
Anadia marca ainda mais 2 pontos dos quais o ultimo nos pareceu of-side, apesar de ser validado pelo juiz, que favoreceu sempre os de Anadia.
No ultimo quarto de hora os de Ilhavo parece que despertam e fazem avançadas constantes que as excelentes defesas de Anadia inutilisam.

Recomentação util e... cómica

Aconselhamos a direcção do Spor-Ilhavo a que tenha mais cuidado, de futuro, na selecção dos jogadores; que saiba vigiá-los e aconselhá-los melhor e que, quando se comprometa a faze-los ir representar o nome de Ilhavo (embora em desafio amigavel) os vigie bem durante os almoços que, como desta vez, podem ser fatais,

O jantar

Depois do desafio e dum ligeiro passeio, os excelentes rapazes de Anadia, como Arautos, correm por todos os cantos a juntar os grupos dispersos chamando-os para jantar.
Devia este ser servido na espaçosa sala de jantar do Hotel Anadia, cujas mesas se achavam já preparadas, enormes ramos de camélias brancas e rubras pondo tons suaves na meia penumbra da sala, montões de perfumosas violetas por entre o desmaiado dos pratos, o reluzir dos cristais e metalico dos aços.
Pouco a pouco todos os ilhavenses se juntam e entre rumores de vivas e entusiasmo vão tomando os seus lugares. Candieiros surgem inundando de luz a sala do festim.
O jantar decorreu sempre na melhor ordem e entusiasmo, sendo soltados constantes hurrahs de ambas as partes.
No fim do jantar, quando o champagne começa a espumar nas taças, o sr. Diniz Gomes, pela Câmara e pela direcção do Sport-Ilhavo e o sr. Artur Sacramento como capitão geral, levantam arrebatados brindes pelo sport, pela fraternidade que une já as duas terras e pelo povo de Anadia.
Ao sr. Diniz Gomes, que, no seu discurso, emprasa e pede ao dr. Carlos Sampaio para jurar pelos de Anadia a tornarem a visitar-nos, responde-lhe o simpático sportmam com um brilhante improviso cheio de elogiosas palavras para os de Ilhavo, para os seus jogadores, para os seus marinheiros, para as suas mulheres; brindou ainda a um dos grupos de Anadia que foi a cada momento interrompido com aclamações vibrantes.

No teatro

Os "Ilhavos" ocupavam uma grande maioria dos camarotes, mas a maior arte, preocupando-se pouco com o espetaculo iam e vinham num redopiar incessante, por todos os lados, acamaradando com o primeiro vindo.
O entusiasmo e a alegria não decrescem um momento e sobre de ponto, quando, finda a primeira parte do espetaculo, sobe o oano e aparecem alinhados no palco os dois "onzes" amigos.
"O Ilhavense", 1922-01-29
O sr. Artur Sacramento toma então a palavra e, num feliz improviso, con a como a derrota aos de Ilhavo era para nós uma coisa indiscutives e certa e como prova entrega do dr. Carlos Sampaio uma palma artificial, que daqui se levou, adornada de vistosa fitas em cujas pontas se vêem duas caricaturas a óleo representando Sampaio e Sacramento. Entregou ainda ao capitão do "onze" Anadiense uma mensagem, tambem com ilustrações, do nosso grupo.~
Fala a seguir C. Sampaio que comovidamente agradece.
Estrudem delirantes salvas de palmas, frenéticos vivas de entusiasmo e pelas caras tisnadas dos Ilhavos, pelas faces saudaveis e francas dos de Anadia caem grossas lágrimas de alegria. As senhoras dos camarotes aclamam delirantemente.
E assim acabou esta excelente festa, que em todos os Ilhavos deixou saudosas e perduráveis recordações.
Hurrah pela hospitaleira Anadia!
Hurrah pela amizade de Ilhavo e Anadia!
 

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo


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