Crónicas maritimas
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| "O Ilhavense", 1922-02-12 |
Saí de Ponta Delgada para Lisboa a 16 do mês de Dezembro do ano passado e encontro-me, actualmente no Funchal, porto que não esperava tocar nesta viagem. Acidentes da vida maritima que só acontecem a quem cá anda...
Os lavradores, com certeza, não teem destes bocadinhos, como, pouco ou mais ou menos, diz Blasco Ibanez no seu "Mare Nostrum".
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Ávido por noticias de Ilhavo compreios jornais da capital. E, depois de ter o espirito mais socegado das comoções desta força «arribada» e quando sua excelencia a "Lei" me permitiu um pouco mais de descanço, eis-me de papo para o ar a ler os ditos jornais de "fio a pavio". Na secção das Correspondencias lá se vê Escalos de Baixo, aldeia da raia; mas o nome de Ilhavo nem pelo óculo de Napoleão ele se vê... E olhem que «devorei» Séculos, Diarios de Noticias, Correios da Manhã de ha quinze dias a esta parte! Quatro escudos e cinquenta luminosissimos centavos ou seja uma ominosissima libra! E tudo só para ter o gosto, o supremo prazer de ler a palavra Ilhavo e saber noticias dessa terra,
Pois apesar de os dois «colossos» da capital terem correspondentes em Ilhavo, estes poucas noticias para ali enviam porque os seus multiplos affaires os impedem de, ao menos uma vez por semana, darem noticias da sua terra aos muitos patricios que por esse mundo andam espalhados.
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Chegou hoje nova mala de Lisboa e vieram jornais. Toca a comprar. São do dia 7 mas não importa. Até que enfim o Correio da Manhã traz «coisas» de Ilhavo. Duas noticias da sociedade e duas lacónicas linhas o seguinte: «Passou ontem o 1.º aniversario da Associação dos Oficiais da Marinha Mercante, deste concelho, pelo que foi dia de festa naquela casa." E mais nada. Çá suffit, diria o françês do Mano. Pela parte que me toca, obrigado ao sr. correspondente. Poderia, porem, acrescentar: deste concelho e de mais alguns. E não lhe ficava nada mal se tivesse desenvolvido um pouco mais a sua noticia, porque, com isso, alegraria muitos maritimos que estão ausentes dessa terra.
Sabe toda a gente e o correspondente a que me refiro não o ignora que, sendo Ilhavo uma terra essencialmente maritima, é aos nautas que se deve o seu desenvolvimento e a sua propaganda. A Associação dos Oficiais fundou-se em Ilhavo para interesse da classe e para o bem da terra. Já o afirmei nas colunas deste jornal, mas um melhoramento local, mas um melhoramento de bastante vulto, a fundação da Associação. Só cegos e mais o não vêem. Se esta fundação foi um melhoramento para a terra, parece que estava na alçada dos srs. correspondentes, que teem por obrigação fazer a propaganda de Ilhavo, referirem-se a ele um pouco mais circunstanciadamente. O silencio dos senhores correspondentes do Seculo e do Diario de Noticias é qualquer coisa que eu agora não quero qualificar. - Á bom entendeur...
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Afirmei ha tempos, e até hoje nada houve que me convencesse do contrario, que a Associação dos Oficiais de Ilhavo não teve, ao fundar-se, as simpatias que todos nós esperavamos dos nossos patricios.
Agreminação puramente de classe, sem politica alguma e com o seu programa claramente definido, sendo cada associado um ardente propagandista e amigo de Ilhavo, se não foi combatida às claras e de frente, não deixou, todavia, de se conhecer e de ter os seus efeitos a campanha de difamação que, «à surdina», se moveu contra ela. Obstáculos de toda a ordem, incidentes, criticas e verrinas, tudo tivemos que vencer para se fazer a sua inauguração. e para que se não alardeasse a crónica má-vontade ao homem do mar, vá de atirar as responsabilidades para cima do secretario adjunto... que não é marítimo. Tudo se venceu, graças a Deus. E muito contra a profecia do jornal humõristico O Pirilau, que lhe dava só seis meses de vida, ela já festejou o seu primeiro aniversário e podemos garantir absolutamente que ha-se tambem festejar o segundo.
Estou plenamente convencido que todos os meus colegas hão-de saber responder com uma união bem amistosa e uma solidariedade bem precisa, a todas as diatribes e palavras menos justas de quem prepositadamente não quere compreender-nos.
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| "O Ilhavense", 1922-02-12 |
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Ha tempos, na redacção deste jornal, estava eu e um seu distinto colaborador que escreveu brilhantes artigos sobre Ilhavo e não sei mais quem. Perguntei-lhe porque não continuava com os seus escritos na defeza de Ilhavo. E ele, com um sorriso misto de mágua e talvez de ironia - reflexo da muita desilusão que lá lhe ia dentro - respondeu-me: - Para quê? Sou eu só!...
Não era bem assim. Alberto Mendonça não estava desamparado. Tinha a acompanhá-lo toda a mocidade ilhavense, todos aqueles que não tem responsabilidades no descalábro a que chegaram as coisas da nossa terra. João Teles, nas suas «Coisas de lá» faz constantemente a propaganda da nossa terra. O «Nautico», maritimo de profissão, conquanto escreva as suas «Cronicas» para os seus camaradas, em todas procura salientar e elevar o nome de Ilhavo. Se estas «Cronicas» pecam pela forma literaria, não pecam, contudo, pelo grande sentimento que as dita: o bem da sua classe e o muito amor pela sua terra natal. Alberto Mendonça não estava, pois, só. Tinha, pelo menos, ao seu lado os homens rude da terra, esses homens do mar que não enganam porque são sinceros. Poderia, pois, ter continuado com os seus artigos que, áparte pequenos senões, mereciam os aplausosde todo o ilhavense que se preza.
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Tornou-se a «Cronica maritima» de hoje em cronica da terra por causa da correspondencia do Correio da Manhã a que acima me referi.
O homem do mar é sentimentalista e patriota por natureza e por educação. Foi o meu sentimentalismo e o muito amor que consagro à terra que me viu nascer que mudou o rumo à minha caneta que deslisa serena neste mar de papel e vai seguir derrota até redacção de «O Ilhavense», se os ventos lhe forem mais propicios do que ao meu "Brilhante" que teve de aportar a esta cidade onde não contava vir nesta viagem.
Doutra vez falarei de coisas do mar, porque esta Cronica já vai extensa.
NAUTICO
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo
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