Coisas de lá

"O Ilhavense", 1922-02-26
O folar do ti Cantigas

No tempo que andei pelo Brazil, encontrei emm Santos muita gente da nossa, destes ilhavenses audazes, que metendo a cara por esse mundo fóra, em qualquer parte do globo se acomodam às condições do clima, quer ele seja humido e gélido, quer seja sêco e tórrido.
Lá estavam eles espalhados pelos lindos arredores de Santos, nos mais pitorescos lugares como S. Vicente, Ponta da Praia, Ilha do Barnabé, Ilha dos Amores, etc.; vivendo não só com a sua característica fala e raça, mas ainda com as suas almas fortes, francas, internecidas, emprestando fisionomia propria áquelas terras onde eles lutam, sofrem, cantam e morren.
Dentre esse punhado de conterrâneos, um havia por quem eu mantinha uma certa simpatia. Era o ti João Branco, que por ser um dos mais antigos e ha que mais anos por lá andava, conhecia como poucos a sua terra e inéditas e engraçadas historias que ele costumava contar quando se achava entre conterrâneos.
Duma feita, estando ele e outros reunidos no «Café Ilhavense», em Santos, falando de coisas de Ilhavo, o ti João perguntou aos circunstantes:
- Vocês conhecem aquela do folar do ti Cantigas?
Todos os que escutavam eram ilhavenses, mas de facto ninguem conhecia a historia.
- Pois vou contá-la, que esta por ser velha ainda é uma das melhores passadas lá na nossa terra:
"Em Espinheiro moravam antigamente dois pescadores: o ti Luiz Cantigas e o ti Gregorio Pausinho. O primeiro morava no Curtido de Baixo, e o outro morava no Curtido de Cima. Durante muitos anos aquelas duas criaturas foram sempre muito amigas, mas um belo dia aquela amizade findou, devido a uma questão muito grande que houve na Praça do Peixe, entre as mulheres dos dois pescadores. Não sei o que houve entre as duas mulheres. O que sei é que daí em diante os dois pescadores que eram tão amigos, nunca mais falaram um com o outro, e o ti Cantigas, que tinha maus figados, sempre que na venda do ti Varela encontrava o seu inimigo, rosnava e dizia por entre dentes: " - Deixa estar, raio, que te hei-de pregar uma partida!..." E não foi boa a partida, porque passados tempos - um sabado de Aleluia - toda a gente de Espinheiro correu ao Curtido de Cima a ver um judas que amanheceu dependurado num ramo de figueira em frente à casa do ti Pausinho.
- Á mulher! Olha que é mesmo ele, já vistas.
- Tómórólha! É mesmo o ti Pausinho chapado!...
Isto, dizia o mulherio que se ia juntando para admirar o espantalho.
- Quem seria, Rosaria? Quem seria? - perguntava uma visinha à outra. E o Pausinho, espretando pela nesga do postigo, quasi teve um ataque ao ver o judas que se bamboleava todo por cima da garotada que o apedrejava e apupava numa algazarrs infernal.
- É Rita, ólha que não foi outro senão o estipor do Cantigas, - disse à mulher o ti Pausinho. E indignado, o pescador soltou uma praga, vociferanco cheio de ira:
- Grande raio, que mas has-de pagar!...
Vexado com aquele caso, o ti Gregorio Pausinho naquele dia "cortou cabilha", não aparecendo à visinhança, e à hora em que apareceu a Aleluia e que a garotada em grande gritaria lançava fogo ao judas, o ti Gregorio mordeu-se todo de raiva.
Seriam 3 horas da manhã, quando no dia seguinte o ti Gregorio Pausinho e a mulher sairam de casa. Seguindo em direcção ao cemiterio deram a volta ao Geraldinho, indo depois sair à Rua Nova. A Rita levava à cabeça uma enorma canastra da eira e o ti Pausinho conduzia à frente uma lanterna acesa. Em pouco tempo chegaram à Igreja, metendo depois ao Passal, indo sair a Alqueidão.
- Á home! Onde vamos a estas horas, home?! - perguntou inquieta a ti Rita, sem atinar onde o marido a levava.
- Tu calas-te, mulher! - berrou secamente o ti Pausinho levantando o braço em atitude ameaçadora. E, a ti Rita, toda chorosa, ia dizendo:
- Ai o meu home que está tolinho, Senhor!
- já tinham chegado às proximidades, do Aido do Saraiva, mas antes de tomarem a estrada, o pescador escutou atentamente, não fosse vir alguem dos lados sa Capela das Almas e que os visse por ali áquela hora.
- Nem viv'alma, - disse o ti Pausinho - Vamos embora, Rita. A estas horas e por estes sitios só se for algum lobishomem...
- Crédo! Não digas isso, home, que morro estarrecida de medo...
Seguiram depois estrada abaixo e em poucos momentos já estavam à beira da Madriz.
- À home! Tu que vais fazer, home?! - perguntou aflita a ti Rita, ao ver o marido saltar para o fundo da Madriz.
- Tu calas-te, mulher! - trovejou o ti Pausinho, levantando mesmo lá de baixo, os punhos cerrados para a mulher.
- Eh Rita! - chamou o ti Pausinho com uma voz mais meiga,
- Que é, home? que é?
- Olha: vai arrumando isso aí na canastra, ouviste?
E o ti Gregorio Pausinho começou a atirar cá para cima uns objectos tão esquisitos, tão estranhos, que a ti Rita, espantadinha até mais não, benzeu-se vezes sem conta:
- Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo, Amen! À home! para que queres tu tantos chifres, home?
- Cala-te, que daqui a mais o saberás. Essa canastra que vá cheinha até mais não, ouviste?
Dai a pouco já o ti Pausinho seguia o seu camiho com a mulher, que vergava ao peso da enorme canastra carregada de chifres.
Quando chegaram perto do cemiterio, desandaram para o Curtido de Baixo até à porta do ti Luis Cantigas.
- Pousa aqui devagarinho, - segredou o ti Pausinho ao ouvido da mulher. Isto é o folar do Cantigas...
E, tirando com todo o geito de dentro da canastra toda aquela enorme quantidade de chavelhos, lá os deixaram encastelados à porta do ti Cantigas, que dormia regaladamente, sonhando com o judas que puséra à porta do seu figadal inimigo...
É o folar do Cantigas... - disse novamente o ti Pausinho à mulher. E agora, estou vingado! Leva de rumôr que d'aqui a nadinha é dia rôto.
"O Ilhavense", 1922-02-26
Já o sol ia alto quando o ti Cantigas, saboreando a sua primeira cachimbando, abriu a porta para receber o fresco da manhã.
Ao deparar com aquele montão de chifres que lhe atravancavam a porta, o ti Cantigas empalideceu. Tirou novamente uma rija fumaça, e lembrando-se do judas da vespera, sorriu-se e placidamente chamou a mulher, a quem perguntou:
- Eh Maria? Quem seria o estipor que veiu aqui pentear-se esta noite!

JOÃO TELES

 Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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