Coisas de lá

"O Ilhavense", 1922-01-29
Soror Maria da Graça

Foi com saudade que perdi de vista essa linda cidade sertaneja que é Araguary, escondida lá no longinquo Estado de Minas Gerais.
O meu companheiro de viagem abre novamente o seu livro e começa a devorar a leitura, emquanto eu me debruço à portinhola a ver a paisagem linda que o comboio me vai mostrando: ora atravessando banhados imensos de verdes arrozais, ora internando-se em densos bosques formados por venerandas e colossais arvores, jámais tocadas pelo gume dos ferros.
Ao longe a larga e deslumbrante paisagem acidentada, de colinas e vales, dum verde fino, macio como voludo, em matizes variados, ora mais brando, ora mais intenso, até a linha cerúlea das serras com os seus píncaros irregulares cravados no ceu turvo.
Estio! Por toda a parte, na mesma fartura, na mesma exuberancia, a terra a procrear reproduzindo em frutos de oiro e em flores os beijos candentes do belo sol tropical.
De muito em muito longe topa-se numa aldeia sertaneja com casinholas de barro e telhados de sapé. Branquejava depois uma ermida entre a casaria de uma fazenda. É terra povoada. A vista expande-se agora ante a paidagem admirável de montes e montes cobertos de cafézais em flor.
Subito, o comboio solta um silvo agudo, e por detraz dum cêrrosinho todo orlado de elegantes coqueiros, começa a aparecer a bela cidade de Uberabinha. O comboio pára. De entre os poucos passageiros que se agrupam na estação afim de embarcarem, destaca-se bem a figura de uma irmã da caridade que entra apressadamente para o nosso compartimento.
- Boa tarde! - num gesto grave, curvando-se um pouco, a freira cumprimenta todos os passageiros, deixando ver naquelas duas palavras, que é portuguesa.
Os meus companheiros de viagem interrompendo a sua leitura, toca-me com o cotovelo, e diz-me baixinho:
- É patricia...
A freira vai na nossa frente e como o comboio já largou novamente, ela parece contemplar a paisagem que é cada vez contemplar a paisagem que é cada vez mais interessante.
O calor é intenso. Por toda a parte ode quer que a vista repouse, o sol resplandece magnifico. Para o horisonte distante, fina e translúcida, uma nevoasinha de oiro pousa como um véo sobre o verde negro dos montes e das florestas virgens.
- Está um calor asfixiante! - diz a freira dirigindo-se ao meu companheiro. E logo a seguir:
- Os senhores vão para Ribeirão Preto?
- Não, minha senhora. Nós vamos para Uberáva, - respondeu-lhe o meu companheiro.
- Os senhores não podem negar que são portugueses, não é verdade? - pergunta-nos ela esboçando um palido sorriso.
- Assim como v. ex.ª tambem é portuguesa... - arrisquei eu a seguir.
- É verdade, sim. Somos então todos portugueses, - responde ela num tom todo familiar. E ha quantos anos deixaram Portugal?
- Eu, ha dez anos, respondeu o meu companheiro.
- E eu ha sete, mas nesse espaço de tempo já lá fui uma vez, respondi.
- Ah! como o senhor é feliz! Deve ter experimentado um dos maiores prazeres da sua vida, tornando a ver depois duma longa ausencia, não é exacto? - perguntou-me ela com um ar de infinita tristeza.
- Na verdade, esse prazer é extraordinario. Não conheço nada mais consolador e não posso conceber que se sinta sensação maior do que essa, no momento em que a bordo ainda a genge lobriga ao largo a terra que não viamos ha muito. Não se pode mesmo descrever esse momento feliz em que chegando â terra que nos foi berço a gente torna a beijar os seus a quem não via ha tantos anos.
O rosto da freira [?] visivel tristeza, mas subitamente e com as lagrimas a brilharem-lhe nos olhos, ela perguntou-nos:
- E de que parte de Portugal são os senhores?
- Eu sou do Minho, nasci em Santo Tirso, respondeu o meu companheiro.
- Oh! Santo Tirso! Como eu conheço bem a sua terra, essa linda vilasinha como que adormecida à beira do Ave, pelo murmurio das aguas e pelos canticos dos rouxinois.
- E o senhor donde é? perguntou-me.
- A minha terra é bem diferente da do meu companheiro. Eu sou de Ilhavo.
- O quê? O senhor é de Ilhavo? perguntou-me a freira anciosamente e fixando muito em mim os seus olhos castanhos. Então o senhor é da minha terra, casa linda da vila da beira mar onde passei os descuidados e felizes  dias da minha infancia?
E serenamente, cruzando sobre o peito as suas mão brancas, elevou os olhos ao ceu e numa atitude toda monástica exclamou fervorosamente:
- Graças, meu Deus! Graças por me terdes concedido a ventura de encontrar um ilhavense em pleno sertão brazileiro!
O comboio parou na estação de Uberáva. Atabalhadoadamente tirei do bolso um cartão de visita, entregando-lhe e oferecendo-lhe os meus prestimos em S. Paulo.
- Mas que pena o senhor ter de ficar aqui..., dizia-me ela enquanto eu passava as malas ao meu companheiro.
O comboio deu o sinal de partida e eu, já na gare, trocava impressões com a minha conterranea que se debruçou na portinhola da carruagem.
Com o comboio já em andamente apertei-lhe segunda vez a mão que ela familiarmente me estendeu, enquanto me recomendava:
- Não se esqueça, viu? Quando fôr a Itú, pergunte no Colegio pela irmã Soror Maria da Graça. Quero que me dê noricias d'Ilhavo, onde ainda tenho familia e que o senhor deve conhecer... Adeus, Adeus!...
E agitou sempre a sua mão branca e fina, até que o comboio desapareceu ao longe, na curva.

João Teles.

 Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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