Bilhete Postal
| "O Ilhavense", 1922-02-12 |
Alguem no parlamento, ha tempos, apresentou uma proposta sobre a aplicação das rendas actuais e futuras, em beneficio duma instituição portuguêsa. E do projecto consta, em ultimo lugar, a remuneração dos que tomarem parte na sessão semanal, à razão de 50 mil reis por pessoa. Só receberá o dinheiro quem comparecer, ficando o dos ausentes para os cofres do hospital mais pobre.
Aplicado o projecto, estaria resolvido o problema da falta de "quorum" que tanto dificulta os trabalhos da tal instituição.
Creio haver um processo mais perfeito para promover o funcionamento das assembleias remuneradas, e quem o alvitrou, ha uns dez anos, foi um sacerdote portugês, que ocupa hoje um dos mais altos cargos no meio exlesiastico.
No tempo da monarquia, um bispado português, recebia para o seu cabido, uma pensão de 200 mil reis mensais, destinados aos vinte conegos que eventualmente o compunham, e que deviam receber esse dinheiro na reunião do mês, realizada em dia fixo. Cada conego devia receber dez mil reis; se, no entanto, faltavam três, quatro ou mais, o dinheiro desses era distribuido pelos que compareciam, e cujas almas assumiam a responsabilidade das deliberações tomadas pelo cabido.
Como dez mil reis não constituissem quantia tentadora de um cristão, havia sempre dois ou três conegos, mais ou menos abastados, que ficavam em casa, deixando o seu dinheiro aos companheiros mais pobres,
Neste ponto, um conego que estava a tomar interese na conversa, tomou uma pitada de rapé, assoou o nariz no lenço tabaqueiro, e confirmou:
- É verdade, é verdade! E quer ver o que faz a ambição? Ora imagine, dizia ele a um amigo particular, que em certo dia da reunião caiu tão forte temprestade, que abalou toda a cidade.
Eu, dizia o conego, que fazia parte do cabido, pensei em deixar-me em casa comodamente. De que me serviam dez mil réis? Não dariam, talvez, para o chapeu que ia inutilizar com a chuva. De repente, comecei a pensar... Os outros, com certeza, não compareceriam com semelhante temporal; e não seria bom receber eu ó os duzentos mil réis? Pensando desta maneira, melhor o fiz. Vesti-me e lá fui debaixo da chuva torrencial, caminho da Sé.
- E recebeu os duzentos mil réis?
- Espera lá. Quando cheguei tive uma surpreza; já estavam nos seus logares sete conegos. E os outros foram chegando molhados e tiritando de frio; e tantos chegaram que o cabido funcionou completo, com seus vinte membros, que tinham ido todos com a esperança de receber, cada um, sosinho, os duzentos mil réis.
E nisto retirou-se o conego com ar de desalento.
Zé do Adro
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo
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