As eleições de hoje

"O Ilhavense", 1922-01-29
Dissolvido o Parlamento eleitoral e Julho do ano passado, por via da sangrente revolução de 19 de Outubro, que um veu de ignonomia e de traiçaoenvolveu, vão hoje ser eleitos novos deputados e senadores que hão-de constituir as futuras camaras legislativas.
O povo, este malfadado e esfolado povo português, assiste já sereno e despreocupado ao acto eleitoral que deveria revistir um aspecto de nobreza, pois que ir votar é escolher aqueles que hão-de fazer as leis pelas quais o país se rege. Acostumaram-no, porem, a ver e a entrar nas eleições como se vê e entra nas eleições como se vê e entra num festim em que de nobreza nada ha e onde tudo é ficticio e mentira.
O cosinhado eleitoral faz-se ao sabor dos potentados e dos mandantes não havendo consideração alguma pelo povo que nesse acto faz de simples criado para que a eleição revista, aos olhos do observador, um caracter de legalidade que, na verdade, não tem.
Nos tempos que vão correndo não é já a urna que fala, na caracteristica expressão eleiçoeira, que o mesmo era dizer: o povo a manifestar-se.
Uma grande maioria do eleitorado português abstem-se de ir dar o seu voto, e os que lá vão, fazem-no, quasi sempre, presos a favores de amigos, votando muitas vezes em individualidades que nunca conheceram, em pessoas que ao Parlamento irão votar medidas contrárias às crenças e aos ideais dos eleitores por quem deveria haver um pouco mais de consideração.
Votar livremente, desinteressadamente e com consciencia, é hoje raro nesta desgraçada terra portuguesa. Por isso as coisas publicas chegaram ao estado em que as vemos, sem salvação possivel, sem remedio eficaz.

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"O Ilhavense", 1922-01-29
«O Ilhavense» que tem o maximo desejo em bem orientar a massa popular, cumprindo assim um dos pontos do seu programa, não quer fugir hoje ao dever imperioso de indicar aos seus leitores os nomes dos individuos que se apresentam ao sufragio eleitoral. Não o movem intuitos politicos - que os não tem. Não o inebriam paixões partidarias de que, felizmente, está ilibado. O seu desejo é somente ilucidar os que hoje teem que se apresentar ai chamamento da meza eleitoral.
Um dos individuos que se aprsenta como candidato a deputado por este circulo, é o exm. sr. dr. Costa Ferreira. O partido que milita  não o queremos nós saber. O que é preciso tornar publico, bem publico mesmo, é que a esse homem deve o povo de Ilhavo um grande serviço. Foi devido às suas boas instancias que o nosso Hospital recebe anualmente a verba de dois contos de reis. Este favor não mais devia o povo de Ilhavo esquecê-lo e como a unica maneira de lho agradecer é votar no seu nome, é pois, o eleitor ilhavense obrigado, moralmente, a cumprir esse dever.
Outro candidato é o exm. sr. dr, Jaime Duarte Silva, advogado em Aveiro. Todos o conhecem, porque quasi ninguem em Ilhavo lhe não tem pedido um favor. Da sua envergadura e do seu lúcido espirito muito temos todos a esperar. Quem, como o sr. dr. Jaime, sabe impôr-se pelas suas convicções politicas, merece a estima de todos os que reconhecem as suas faculdades de trabalho.
"O Ilhavense", 1922-01-29
Votar nele, pois, é um dever de todo o ilhavense.
Propõem-se ainda os srs. Homem Cristo, o aguerrido jornalista português, cuja presença no Parlamento, só por si impedirá muita pouca vergonha. A pena escaldante desse grande homem que em outro país seria venerado enquanto que em Portugal é tão odiado, é a melhor garantia de que não dexaré passar em julgado, sem que o povo o saiba, qualquer medida menos justa.
Manuel Alegre, o fugaz e ponderado republicano, o tão amigo desta nossa região, especialmente da nossa Costa Nova que ele frequenta assiduamente, é ainda candidato a deputado por este circulo.
Não devem esquecê-los os eleitores porque deles alguma coisa boa ha a esperar para bem da nossa terra.
Os outros que se propõem, não os conhecemos, nem os conhece o povo de Ilhavo. E como nem sequer tiveram a delicadeza de se apresentar aos eleitores para lhes dizer qual o seu programa, justo é que o povo lhe corresponda com igual gentileza.
Bom é que a gente de Ilhavo se deixe de faccionismos partidarios para só pensar no futuro da sua terra, dando o seu voto a quem melhores garantias lhe dê de trabalhar pelo nosso bem estar, pelo futuro de Ilhavo e pelo futuro de Portugal.
Não olhemos a facções. Tomemos antes, na devida conta, as qualidades de inteligencia, de acção e de caracter dos que se apresentam ao sufradio dos eleitores de Ilhavo.
Acabemos tambem com caciquismos. Façamos da nossa terra um baluarte para defender os nossos proprios interesses, que da Patria são.
Unan-se todos os ilhavos. Façam um programa minimo de reivindicações e digam aos candidatos: queremos isto, para bem da nossa terra. Quem o fizer terá os nossos votos. E se eles aliarem à boa vontade em trabalhar pelas nossas reivindicações, qualidades morais, de inteligencia e de honestidade, para bem desempenharem o seu papel de legisladores, votemos com eles. De contrario, não, nunca!
 

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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