Zig-Zags
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| "O Ilhavense", 1922-01-08 |
Essa carta é um rompimento dum namoro que durava ha muito, mas que toda a gente ignorava, visto os dois seram extremamente cautelosos, falando-se apenas por acênos e olhares, ainda mesmo quando se encontravam a sós. Amigo dos dois, lamento profundamente o cado, tanto mais que reconheço ser absolutamente impossivel reatar as relações que os haviam de levar ao casamento e entregar-lhes uma felicidade, que bem mereciam.
Mas na vida tudo são contrariedades e imprevistos e assim, quando menos o julgamos, basta uma coisa bem pequena e de nenhuma importancia para de fazer e lançar por terra os sonhos que mais agarradamente acalentámos e aquilo que pensámos indestructivel.
Uma crónica, cheia de encanto e de graça, foi o bastante para matar num coração de mulher todo aquele ammor, dedicado a um dos mais belos rapares de Ilhavo, que soube resistir a todas as contrariedades e vener as mais violentas oposições. Coisas da vida, afinal.
Essa carta, que religiosamente guardo na minha pasta, vou eu publicá-la, conscio de que nem um nem outro levarão a mal o meu gesto. Ora leiam:
"Senhor: - Peço-lhe, pelo amor de Deus, que não insista. Não pense que é por ciumes ou pela desconfiança dum amor menos verdadeiro que procedo addim. Quero ser franca comsigo. É unicamente pela maneira como o senhor, nas Historias do to Bigões, descreveu o S. Pedro ao vir receber o Luiz Canin e por não ter ocultado ao publico a relutancia que aquele mostrou e as dificuldades que levantou à entrada do ti Gamboa no ceu.
Não posso conformar-me com tais declarações, que me magoaram imenso. O senhor não quiz poupar-me esse desgosto - quantas vezes lh'o pedi! - e eu sinto que o meu amor morreu. Para que iludilo? É melhor assim. Depois de tais declarações, a nossa felicidade era impossivel. O senhor encontrará facilmente outra mulher capaz de o tornar feliz e de lhe dedicar um amor tão grande como o que lhe tive. Ha na vida desgostos tão violentos que nós, mulheres, somos pequenas de mais para lhes resistir. E o que o senhor me deu, está incluido no numero destes. Esqueça-me, pois. Vou mandar-lhe todas as suas cartas e lembranças que me deu e que tantas vezes loucamente beijei. Não os quero continuar a ver. Estou bem senhora de mim e para que o senhor nem por instantes possa pensar o contrario, vou pedir à minha veia poetica uma quadra alegre, que as acompanhe. É um bocado de espirito, o ultimo que faço comsigo. Um segundo de recolhimento apenas. Achei. Ai vai:
A.
Por ter achado bastante interessante esta carta é que me resolvi a publica-la (talvez não o devesse fazer) para que se não fique ignorando um documento que muito valor pode vir a ter para alguem que, daqui por seculos, queira fazer a historia do amor em Ilhavo, no ano que deu a alma ao Creador...
SULAMITE
CORRIGINDO - O tipografo, no "Zig-Zag" da semana passada, fez careda o sr. Balseiro e tirou a coroa de espinhos do capitão Rocheiro.
Que aquele lhe perdoe e este lhe agradeça.
S.
Não posso conformar-me com tais declarações, que me magoaram imenso. O senhor não quiz poupar-me esse desgosto - quantas vezes lh'o pedi! - e eu sinto que o meu amor morreu. Para que iludilo? É melhor assim. Depois de tais declarações, a nossa felicidade era impossivel. O senhor encontrará facilmente outra mulher capaz de o tornar feliz e de lhe dedicar um amor tão grande como o que lhe tive. Ha na vida desgostos tão violentos que nós, mulheres, somos pequenas de mais para lhes resistir. E o que o senhor me deu, está incluido no numero destes. Esqueça-me, pois. Vou mandar-lhe todas as suas cartas e lembranças que me deu e que tantas vezes loucamente beijei. Não os quero continuar a ver. Estou bem senhora de mim e para que o senhor nem por instantes possa pensar o contrario, vou pedir à minha veia poetica uma quadra alegre, que as acompanhe. É um bocado de espirito, o ultimo que faço comsigo. Um segundo de recolhimento apenas. Achei. Ai vai:
«Devolvo-lhe as suas cartas,
«Retratos e o mais que vê;
«Só cabelo não devolvo...
«Bem sabe a razão porquê!
Vê? o meu amor por si morreu. Não insista, pois. Esqueça-me e... adeus.A.
Por ter achado bastante interessante esta carta é que me resolvi a publica-la (talvez não o devesse fazer) para que se não fique ignorando um documento que muito valor pode vir a ter para alguem que, daqui por seculos, queira fazer a historia do amor em Ilhavo, no ano que deu a alma ao Creador...
SULAMITE
CORRIGINDO - O tipografo, no "Zig-Zag" da semana passada, fez careda o sr. Balseiro e tirou a coroa de espinhos do capitão Rocheiro.
Que aquele lhe perdoe e este lhe agradeça.
S.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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