zig-Zags

"O Ilhavense", 1922-01-22
É do inferno que lhes escrevo. De junto duma fogueira que tem reduzido a nada, um sem numero de creaturas, por crimes praticados aí na terra, para os quais não obtiveram salvação possivel. Eu lá me livrei de ser papado pela referida, devido à protecção do senhor diabo. Mas porque - dirão V. Ex.as - sendo o autor dos Zig-Zags um justo e um bom foi parar ao inferno?
Eu digo a V. Ex.as o que cá me trouxe: Não sei se se recordam no meu primeiro Zig-zag pedir à ilustre junta de paroquia para mandar caiar a casa da residencia do sr. prior e pintar-lhe as portas e as janelas. Ora bem. Os preclaros membros da dita, sentindo-se melindrados  com o meu inocente pedido e feridos na sua dignidade de homens empreendedores, mandaram prender e julgar por um tribunal especial. Acusado de quê? «De ter atacado num jornal da terra o procedimento da já dita junta, de ter escrito palavras que representavam um crime de alta traição à referida, que só uma coisa desejava: não fazer nada; de ter afirmado numa audacia enorme, que a casa da residencia, tal como estava, era uma vergonha para todos os ilhavenses, quando a patetica junta era unanime em declarar que assim é que estava bem e assim havia de continuar para gloria eterna do povo de Ilhavo; de ter feito um pedido, enfim, com o qual apenas pretendia levar à revolta as multidões e os partidos. Mais palavra menos palavra era acusado disto. Ia o meu interrogatorio pouco mais ou menos em meio, quando entraram na sala os membros da já referida preclara junta, de caneco na mão, colarinhos de ida e volta, sem gravata. Como soldados disciplinados, esperavam hirtos que o presidente os mandasse falar. E a um sinal deste assim começaram todos tres, ao mesmo tempo.
«Eis-nos aqui. Nós vimos declarar a V. Ex.ª que reunimos antes da audiencia para tratar do assuntto por que está sendo julgado o autor dos Zig-Zags, resolvendo mais uma vez: não mandar caiar a casa da residencia, nem tão pouco pintar-lhe as portas e janelas; conservar os casebres junto da casa, porque quem os fez, não os fez para serem postos abaixo; não mandar tapar as fendas da parede da capela-mór; não fazer a mais leve reparação na igreja nem ligar dois dedos de importancia ao seu estado de aceio; e muito principalmente, impedir por todos os meios, ainda que tenhamos de fazer uso das armas, a destruição da retrete pegada à sacristia, que deita para a Avenida Manuel da Maia, por ser ela que nos fornece os cheirinhos com que todos os dias nos perfumamos e porque reconhecemos nós, membros, que é uma obra de arte admirada por toda a gente que por aqui passa, não se encontrando coisa igual em terra nenhuma do país e do mundo.
Nós tres, todos tres verdadeiros, estamos convencidos de que temos desempenhado brilhantemente os nossos lugares e, se não, veja-se já algum dia deixámos de receber a massita dos sinos e de passar atestados de pobresa. E isto, é preciso que se saiba, nem todos são capazes de fazer. Que todo o povo de Ilhavo fique sabendo que a mui nobre e insigne junta de paroquia tem imensa vontade de trabalhar, mas não está para massadas e, portanto, mais uma vez solenemente declara que está na disposição de nada fazer.
A igreja, a casa da residencia e a retrete hão-de continuar a estar como estão. Assim é que é. Fóra os reaccionários! Temos dito!
Vi-me perdido. Calei-me como um rato. A sentença não se fez esperar: condenado por unanimidade... de vistas a passar todo o inverno deste ano a arder numa fogueira do inferno. Valeu-me o sr. diabo, senão a estas horas nem osso se me aproveitava. E aqui teem V. Ex.as por que vim parar ao inferno. Vamos a ver se vem por aí alguma amnistiadinha...
SULAMITE
 

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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