Questões de higiene
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| "O Ilhavense", 1922-01-15 |
Fala o dr. José Vieira Gamelas
Procuravamos ha muito insistentemente o ilustre clínico. O consultório, porem, regorgitante duma clientela numerosa e variada, indicava-nos sempre que sua ex.ª, preocupado com os seus deveres profissionais, não poderia ouvir-nos e prestar-nos as suas declarações.
Os redactores não desistem e uma tarde, em que um ventinho soprava frígido do norte, a nossa paciência foi sobejamente posta à prova. No pequeno gabinete da rua de Camões, esperamos uma hora bem puxada. Entraram primeiro os que maior necessidade tinham e por último a vez pertencia-nos.
O dr. Gamelas recebeu-nos sentado na sua cadeira de consulta e num ruidoso sorriso indaga as nossas intenções.
- A idêa dos senhores merece os meus aplausos francos e mais ainda: a minha admiração. Ilhavo não é a terra da minha naturalidade, é certo, mas tenho já por aqui repartida uma grande parte do meu coração e lodos os que por esta vila tentarem fazer algo de profícuo e alevantado, podem contar comigo. Os senhores, teem imprimido ao «Ilhavense» um cunho manifesta e exuberantemente patriotico, bairrista. Muito bem, muito bem. A minha admiração sincera pelo vosso esforço, hão-de os srs. registá-la como introdução na entrevista.
E o doutor acentuava com vivacidade:
- Que não esqueça, ouviram?
- O desejo de V. Ex. a será satisfeito, se bem que, como deve compreender, não tinha sido nosso intento, vir aqui procurar incomoiásticas referencias...
- De acordo, mas registem.
«ÍLHAVO É UMA TERRA ANTIQUISSIMA E A RESPONSABILIDADE DAS SUAS DETESTAVEIS CONDIÇÕES HIGIÉNICAS NÃO PERTENCE EXCLUSIVAMENTE À MODERNA GERAÇÃO.»
- O que nos diz v. ex.ª sobre as condições sanitárias e higiénicas da vila?
- Vem de longe, meus amigos, de muito longe mesmo, o descalabro horrível a que chegamos hoje. O progesso e exigências higiénicas nos últimos tempos, teem aumentado assombrosamente. Lá fóra, nos países que acompanham a par e par a evolução scientifica, as modernas povoações são edificadas sob um plano antecedentemente delineado e estudado. Na construção das habitações sucede o mesmo. Como Ilhavo é uma terra antiquíssima, a responsabilidade das suas detestáveis condições higiénicas não pertence exclusivamente à moderna geração.
- Alguma coisa mais se poderia ter feito, doutor…
- Sim, muitíssimo até e se houvesse dinheiro em abundancia, o primeiro passo a dar agora mesmo, era ressuscitar Hércules, encarrega-lo de destruir toda essa casaria… para reconstruir de novo. Obra limpa, admirável, podem crêr. Mas como isso é completamente impossível…
- Tratemos do possível!
- Ora bem; encaremos o problema de frente. A limpeza das ruas tem de fazer-se. Carros de limpeza munidos dum alarme farão um serviço guapo. As ruas estão sujas, é evidente. Os domicílios para elas dão grande quantidade de lixo. Não pode ser, acabemos com esse péssimo habito. Como? Fazendo cumprir à risca o código das posturas, depois de adquiridas as carroças.
É UM VERDADEIRO CONTRASTE A FALTA DE ASSEIO DAS RUAS E VIELAS E A LIMPEZA CUIDADA DOS DOMICILIOS.
- E o povo de Ilhavo é limpo por índole, não acha?
- Gostosamente o constato.
- E a que atribue v. ex.ª o manifesto asseio que impera, na generalidade, a dentro das habitações da vila?
- A uma lógica e forte razão. É ao homem, ao nauta aventureiro, que a bordo assiste quitidianamente às baldeações. Não tenham duvida. O homem cria no mar, o espirito notável de asseio e essa influencia exerce-se poderosamente na terra. Observem que ele próprio toma muitas vezes a seu cargo a limpeza interna dos domicílios. Devo acresentar-lhes, de passagem embora, que desperta em mim uma soma enorme de admiração, o carinho, a dedicação, com que a mulher trata o marido enfermo. O home é forte de ânimo, uma grande força de contade o energiza. Oh!... Mas na hora amarga da Dor e do Infortunio, como é belo ver a mulher dulcificar-lhe as agruras do Destino como balsamo confortador duma palavra amiga, amenizar-lhe o sofrimento na ternura doce duma caricia branda… Depois na convalescencia, é ela ainda que acompanha o esposo extremoso, até ao consultório. Muitas vezes, quasi sempre. O lar ilhavense é lindo, simples, asseado. É um verdadeiro contraste a falta de asseio nas ruas e vielas e a limpeza cuidada dos domicílios.
A AGUA DEVE FERVER-SE SEMPRE, SEMPRE, ANTES DE SER BEBIDA.
- O doutor entende, pois, que para que as condições higiénicas da vila melhorem sensivelmente, se deve tratar, como ponto de partida, da limpeza das ruas, não é assim?
- Perfeitamente. Bons canos de esgoto e limpeza das ruas.
- E que mais?
- Não é preciso pensar muito para lhes dizer que outro problema inadiável a resolver, é o da canalização da agua. A agua das nascentes que fornecem as fontes, não pode dizer-se soberba, verdadeiramente boa. Mas… sofre-se. Notem todavia, que dum momento para o outro, pode tornar-se perniciosa. Seguindo uma canalização detestável e impropria há-se necessariamente, muitas vezes, receber o influxo perigossimo de todos os dejectos inerentes aos terrenos onde circula. Um remedio, um optimo remedio para evitar esse mal: ferve-se sempre antes de ser bebida. Todos os médicos se esforçam para que o publico reconheça esta grande necessidade.
- E os resultados?
- Pelo menos os que eu tenho colhido, são devéras consoladores. Não tenho nenhum caso de febre tifoide, quando em outras povoações onde exerço clinica, trato bastantes.
SE A VILA DE ILHAVO NÃO É ASSOLADA FREQUENTEMENTE POR EPIDEMIAS, DEVE-SE ESSE FACTO A VARIAS CAUSAS NATURAIS.
- E como explica v. ex.ª, que sendo Ilhavo uma vila mal situada e com péssimas condições higiénicas, se não desenvolvam facilmente epidemias várias e frequentes?
- Sim, esta terra – e não só ela – tem uma situação condenável, ninguém o contestará. Há porem, um agente natural que atenua esse grande inconveniente: que é o vento. Toda esta região é açoitada quasi todo o ano por fortes ventanias, que tudo revolvem arrastando para longe – que belo serviço! – milhões e milhões de micróbios nocivos, propagadores de múltiplas doenças que vitimam a população ilhavense – todos as conhecem – não foram aqui germinadas. Faz-se e faz-se ainda hoje em larga escala, uma importantíssima. Das Americas, dos Brazis e de mais longínquas terras ainda, para aqui as trouxeram e trazem. Os Ilhavos eram e são fortes. Herdaram dos antigos fenicios – di-lo o dr. Teofilo Braga – a rijesa de caracter, o espirito aventureiro, a abnegação estoica, a guapice indómita que são apanágio honroso do seu temperamento forte.
- O doutor confunde-nos com…
- Não, não. Creiam que eu, nutro uma simpatia viva e inextinguível pela gente do mar. São a alma de Ilhavo, o sangue latejante que a energiza, o musculo rijo que a impulsiona, as energias viris que a convulsionam.
O doutor Gamelas fala agora entusiasticamente, rapidamente e nós mal podemos registar umas notas breves das suas palavras.
- Terra grande e bela, tem todos os requisitos necessários para progredir muitíssimo. A Camara merece as minhas simpatias, reconheço-lhe boa vontade. Tem feito bastante… mas pode fazer ainda muito mais. Os meus incitamentos para que uma obra de vulto se empreenda, uma era de progresso se inicie! Há tanto que fazer, tanto, tanto!... Ah! Mas por tudo trate-se em primeiro lugar da limpeza. Mostre-se aos visitantes uma terra limpa e civilizada. E para isso, não será preciso dispender sacrifícios grande.
E a um gesto de grande interesse pela nossa idêa, o doutor Gamelas, afirma por fim solicitamente:
- Deixem estar, descancem. Eu falo ao Diniz e não o deixo.
E findára. Findára uma longa e agradibilissima conversação de que apenas damos uns pálidos reflexos.
O fumo dum carro “waunille” do doutor esvaia-se brandamente no ambiente… e o nosso pensamento esforçava-se por fixar os pontos primordiais do interessantíssimo coloquio…
… Reconhecemos agora… que o não conseguimos.
Á saída, o doutor reconsiderava e dizia ainda a rir, num gesto alegre de despedida:
- Olhem, meus amigos, frisem bem esta verdade. O Diniz tem boa vontade, é o homem da ocasião, é incansável, e não será capaz de descurar os megocios camarários. Acho-o muito capaz de delinear uma obra grandiosa, apenas com um «croquis», feito à sobremesa do jantar… Não será justo o nosso Diniz julgar que o que digo tem por fim obriga-lo a conseguir o impossível. Nesta ocasião em que a mão de obra é caríssima e as dificuldades são inúmeras, não pode exigir-se demasiado. Mas devagar, com paciencia e geitinho, Diniz, Diniz…talvez alguma coisa se consiga… Mas que querem?
… Parece que também sou bairrista…
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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