Questões de higiene

"O Ilhavense", 1922-01-01
"O Ilhavense" ouve os medicos. Obras de vulto em que é preciso pensar

Mais um assunto de monta vai ser abordado hoje no nosso jornal. Ouvimos quem tem autoridade para falar e limitamo-nos não só a registar as opiniões autorisadas dos medicos, mas a levantar bem alto tambem o nosso brado em prol de Ilhavo. As condições sanitárias da vila são péssimas, todos sabem e reconhecem. O que se deve fazer para melhora-las? Eis o que O Ilhavense quiz saber para apresentar aos seus leitores.

***

O sr. dr. José Rito recebeu-nos de fugida no seu consultorio da rua Arcebispo Bilhano. Em poucas palavras o doutor põe-nos à vontade e inquire dos fins que à sua presença nos levaram.
- Reconheco-o e afirmo-o eu, reconhece-o e aforma-o toda a gente. Ilhavo, pela sua situação, é uma terra pouco salubre. Outras circunstancias que podiam desaparecer, concorrem tambem deveras para esse facto.
- Quasi que adivinhavamos, doutor...
- Não é dificil; o estado imundo das ruas, principalmente. Para melhorarmos as condições higienicas da vila, o primeiro passo que temos de dar é tratarmos a serio e com desvelo, da limpeza da vila Canos de esgoto, canos de esgoto. Sem eles ou antes sem uma canalisação perfeita, Ilhavo ha de continuar a ser eternamente uma terra de lixo.
- E qual a melhor maneira que entende o doutor deve pôr-se em prática para se fazer uma limpeza cuidada às ruas da vila?
- A melhor maneira? Recrutar-se pessoal proprio com carroças, onde levarão toda essa imundice para valas situadas fóra da vila. Longe e bem longe. Ha hoje material aperfeiçoadissimo para esse fim... mas custa bom dinheiro. Vou mostrar-lhos qualquer coisa, para fazerem uma ideia.
O doutor mostra-nos então um volumoso livro - Higiene de Arnauld - com gravuras representativas de modelos de carroças de limpeza.
- São belos carros mas carissimos. Dispensam-se bem. O que se não dispensa, sem prejuizo da nossa saude, é que se proceda à limpeza das ruas, seja de que maneira fôr. Outra coisa: ha em varios sitios dentro da vila, medas com excrementps depositados durante semanas e semanas. Os homens de Vale de Ilhavo que sí vemos todos os dias, depositam o lixo aí por qualquer canto, para só o removeram ao fim dum longo praso. A Camara, que sei animada de boas intenções, devia acabar com isso e destinar a esses homens a quem tanto devemos, locais que mais afastados estivessem do centro populoso da vila. Agora de inverno, com as chuvas, as imundices não se depositam facilmente por essas valetas. Mas de verão?
- Sim, de verão, o mal é maior...
- Mas podia evitar-se regando as ruas e valetas. A agulheta dos bombeiros fazia um óptimo serviço. Depois temos a agua. Se houvesse dinheiro, muito dinheiro, devia fazer-se uma canalisação propria. Compreendem que a agua das fontes que aí temos, seguindo pessimas e improprias canalisações, pode de um momento para o outro, tornar.se-nos suspeita. Enfim, ha muito que fazer, mas de repente, não creio que o podem levar a cabo.
- Todavia lembra-se...
- A Camara, julgo que não terá grandes receitas. Ainda assim bastante tem feito. O que vale é o cuidado enorme que o povo de Ilhavo tem com os domicilios. Não duvidem. Se tal não sucedesse... não sei que males surgiriam.
O dr. Rito parava e nós julgamos ter ouvido o mais importante.
Despedimo-nos e retiramos, e bem tristes por sinal. Adivinhavamos tambez o decreto'dictatorial da suspenção do imposto ad valorem, que dias depois era publicado. Lá se ia a mais importante fonte de receita da nossa Camara e maiores se tornaram as dificuldades para se fazer o que tão necessário é.
Todavia, a opinião aí fica.

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo
 

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