Natal

"O Ilhavense", 1921-12-25
Dia de Natal! Como vai longe o tempo em que esta palavra de um sabor tão ingénuo, de um significado tão religiosamente poético, e tão poeticamente comunicativo, nos penetrava suavemente na alma inebriando-a dos aromas inefaveis de uma alegria santa, de um contentamento delicioso, anodinante e calmo.
Era o tempo relativamente feliz em que nesta terra bemdita do Portugal fidelissimo, do Portugal cristão, do Portugal das conquistas e das cantigas desgarradas que aprendemos a cantar na praia do Restelo, toda a gente, por mais humilde, tinha nestes dias, um pouco de contentamento no coração, de riso nos labios, de oração na voz.
Nas aldeias, nestas pacatas de Portugal e suavissimas aldeias de Portugal, como que um frémito de alegria tonificava todas as almas, irmanando-as na mesma crença, ância de tranquilidade e de serena paz, que lhes dava ensejos de concentrarem seus pensamentos no acontecimento extraordinario daquele Menino que, num estábulo nascido, revolucionára o mundo, igualando os homens, fazendo triunfar a verdade, estigmatisando a mentira e aplanando, com a sua voz e com o seu exemplo os ingremes e quasi inacessiveis caminhos da justiça.
Que beatitude e que felicidade nos lares, quando o luar algente destas noites frias palidamente ilimináva as povoações religiosas e folgazãs desta bela Patria - e neles se contavam lendas ou se resavam litanias, emquanto nas ruas se dançava despreocupadamente, cantando-se nas igrejas com um ingenuidade encantadora que vai fugindo espavorida deante desta pseudo-civilisação - deusa orgulhosa e malcriada que não tem beleza nem graça; sem méritos riais, sem poesia e sem arte, sem caridade, nem perfumes de alma que a tornem digna dos afectos intrinsecos de nossos corações.
E o vinho puro tremelusia espumando nas canecas bojudas de desenhos antigos e toscos; no brazido estalavam as castanhas e havia nas mesas qualquer coisa desinferençada.
E toda a gente era feliz porque os pobresinhos abandonados, as criancinhas orfãs, os proprios encarcerados, nessas horas de saudades emocionantes, sentiam mais proximo e mais carinhosamente adejarem junto aos seus labios as mãos bemfazejas daqueles que se consideravam seus irmãos e que em nome do Deus-menino lhes aliviavam as dores, socorrendo-lhe o corpo e consolando-lhe a alma...
Guitarras nas ruas, fogueiras nos largos, canções ardentes e apaixonadas que às estrelas subiam... Que ância, meu Deus, que necessidade irresistivel eu sentia então de fazer versos, de namorar, de cantar, de ser feliz, de ver toda a gente contente, satisfeita,e, como eu, alegre tambem!
Dia de Natal da minha terra! Dias de Natal da minha infancia! Com que saudade vos não evoco, hoje que um vento malsão percorre o mundo, e agreste torna este país de vinho rubro, de rosmaninho e de boninas, de olimpico sol e de luar saudoso e puro como alvinitentes veus de freiras!
Dias de Natal dos meus tempos... O passado dealbante como o arminho puro das consciencias puras, e o futuro... luminoso e risonho como as claridades do sul em manhãs de ordades do sul em manhãs de orvalhadas ou como o poente alaranjado em tardes calmas de novenas...

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Estou à minha meza de jantar escrevendo estas linhas emquanto meus filhos pequeninos, em torno de mim, numa santa e feliz inconsciencia dos dias tragicos que sobre a nossa Patria esvoaçam, canta, riem, saltam como passarinhos livres...
Que felizes os meus filhinhos! Tanto, quanto seu pai se julga desgraciado - quem pode ser feliz no momento que passa? - recordando o passado que não volta, apreensivo pelo futuro negro que se aproxima... Lembranças dos que sofrem ao desamparo, dos doentes, dos mendigos, dos rotos, dos famintos, ds crianças sem arrimo, sem norte e sem guia; dos pobres soberbos, dos ricos sem caridade, dos jovens sem ideal, dos velhinhos impenitentes...
Natal, Natal! Que a Caridade destile uma gôta de balsamo nos labios dos orfãos cuja infelicidade é sem limites e que Deus Olhe para a terra e se apiade do nosso Portugal!

Aveiro, Natal de 1921

Leónidas

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

 

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