Jornal da Mulher

"O Ilhavense", 1922-01-15
ABRINDO

Ouvida a opinião de distintas e muito consideradas senhoras da nossa terra sobre o que haveria «O Ilhavense» de fazer para se tornar util, instrutivo e agradavel à mulher de Ilhavo, e recaindo todas as opiniões já publicadas na necessidade de abrir uma secção feminina onde sejam versados diferentes assuntos que à mulher interessam, vamos hoje começar essa secção, para a qual pedimos a colaboração de todas as senhoras da sociedade elegante ilhavense.
Escusado será lembrar que o nosso jornal está ao dispôr de todas para nas suas colunas serem tratados todos os assuntos que uma mulher deve saber e sem o conhecimento dos quais nunca poderá ser uma boa dona de casa. No entanto rogamos a todas que nos seus escritos sejam o menos prolixas possivel para não roubarem muito espaço ao jornal.

MODAS
A ALTURA DAS SAIAS
Apesar de, no principio da estação, os jornais de modas anunciarem que as saias passavam a ser muito mais compridas, continuamos a vê-las tão curtas como no ano findo... Prova isto que semelhante moda caiu no agrado absoluto das nossas meninas, que não só adoptaram «a rigor», mas até com o mais condenável exagero, de que ainda não querem prescindir, nem mesmo perante as modernas afirmações do que acaba de ser decretado pelas modistas parisienses.
Pois podemos «garantir» às nossas leitoras, por o haverem afirmado pessoas chegadas ha poucos dias de Bruxelas, que nesses salões de onde irradia a moda para todo o mundo, não se vê hoje «uma unica senhora» com a saia para alem do tornozêlo. Nem uma!
Ora se nós estamos sempre desejosas de aparecer depressa com as ultimas modas de Paris - porque não nos havemos de apressar a pôr em execução este simpatico modernismo, tanto mais compativel com os bons costumes do que a indecentissima saia pelo meio da perna?!
Desçam a orla das suas saias, meninas, que obedecam ao mesmo tempo ao ultimos decretos parisienses e aos mais rudimentares preceitos de decôro que tão afastado tem andado recentemente das modas femininas - onde ele sempre devia legislar como soberano absoluto..
C.

CULINARIA
Por as termos experimentado, podemos garantir como optimas as duas receitas seguintes, sendo a segunda muito boa para aproveitar as claras que ficam dos  doces que só levam gemas.

OVOS RECHEADOS
Cosem-se os ovos; partem-se ao meio e tiram-se-lhe as gemas. Misturam-se estas com uma quantidade equivalente de miolo de pão esfarelado, embebido em leite e manteiga boa, fresca ou bem dessalada, um bocadinho de cebola picada, o sal preciso e pimenta. Depois de tudo bem desfeito e misturado, abranda-se esta massa com gemas de ovo crú e enchem-se com ela as cavidades dos ovos cosidos, de onde sairam as gemas.
Com a massa que sobra, cobre-se o fundo de um prato ou travessa proprios para ir ao fogo, e por cima, dispõem-se emborcadas as cclaras com o recheio.
Vai ao forno, com lume brando e serve-se, é claro, na mesma vasilha.

BOLO DE PRATA
250 gramas de açucar e 75 gramas de manteiga. Mistura-se muito bem até ficar em massa. Deitam-se-lhe depois 7 claras encasteladas, (só claras). Mexe-se muito bem, e junta-se 250 gramas de farinha fina; depois de tudo perfeitamente ligado, deita-se num taboleiro fundo, untado de manteiga, polvilha-se de açucar e canela, e enfeita-se com amendoas de casca, sem pele, cortadas ao meio.
Mete-se no forno até ficar cosido, e as amendoas torradas.
Tanto o açucar como a farinha devem ser de primeira qualidade, para que o bolo fique por dentro como deve ser: branco de neve.

RECEITAS UTEIS

MODO DE DESCOBRIR O ALGIDÃO NUMA FAZENDA DE LINHO

Molhe-se a fazenda sena em azeite doce e esprema-se depois para lhe tirar o excesso de oleo. Os fios de linho aparecerão translúcidos e os de algodão, se os houver, conservam-se brancos.

MODO DE TIRAR AS NODOAS DE FERRUGEM NO PANO DE LINHO OU ALGODÃO
Tiram-se estas nódoas das fazendas brancas, molhando-as primeiro e esfregando-as depois com ácido oxalico; e das fazendas de côr, com ácido clorídrico diluido em agua.

MODO DE TIRAR AS NODOAS PRODUZIDAS PELO CONTACTO DO CABELO NA GOLA DOS CASACOS
Deita-se numa tigela um copo de agua e uma colher de sopa de amoniaco liquido. Esfrega-se a gola com um pano ou toalha molhada nesta preparação e vai-se tirando a escuma formada com uma faca de pau ou taboa que passa pela gola com força. Repete-se a operação três ou quatro vezes, tendo o cuidado de mudar cada vez o pano ou molhar outra parte. Depois da limpeza passa-se por sobre a gola com um pano limpo levemente molhado em agua pura.

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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