Ecos de uma campanha

"O Ilhavense", 1922-01-08
Ainda os artigos de Alberto Mendonça

Ao meu ilustre amigo e conterrâneo A. Mendonça, a propósito dos seus artigos sob o título ILHAVO, neste jornal publicados.

Os bacalhoeiros! Ei-los ai todos passeando nessas ruas, dando-lhes um movimento desusado, sorridentes, numa alegria extraordinária por terem tido um bom ano de pesca. Ei-los nesse Ilhavo que eles tanto extremecem e que com a sua presença se torna mais gracioso, mais poetico...
Oh! noites de guitarradas, como eu vos recordo com saudade!
Ilhavo! Terra de nautas, mas terra onde o nauta jámais se impoz!
Ilhavo, minha terra querida que nós quizemos vêr sempre modificada, caminhando avante na senda do progresso, mas que, viagem após viagem, ano após ano, vamos encontrar sempre na mesma.
É que a nossa terra tem sido governada e administrada por meia duzia de homens, - se tanto - que em vez de olharem com interessa e com carinho pelas coisas públicas desse concelho, antes se teem deixado dominar por um comodismo vergonhoso e revoltante.
E o nauta, ao repressar da sua viagem, continua a ver a sua terra no caminho do progresso... de caranguejo.
O que teem feito os politicos dessa terra? Salvas raras, honrosas e recentes excepções, os políticos de Ilhavo nada teem feito em bem do nosso berço natal. Poderão ter sido inteligentes, competentes e tudo o mais preciso para estar à frente dum município; mas as suas obras teem dado uma tristissima idêa da sua inteligencia e da sua competencia em negócios camarários.
E o nosso marítimo assiste sereno e impávido a todo o descalábro municipal que é a ruina da nossa terra. Ele, que tinha obrigação de lugar até morrer, como luta no mar com os elementos, para que Ilhavo emparelhasse com as terras que caminham francamente para o Futuro, para o Progresso!...
É preciso que o nosso marinheiro acorde! É preciso que ele saia da apatia em que tem jazido e faça ver aos políticos dessa terra que se Ilhavo alguma coisa vale, alguma coisa é, deve-o ao seu esforço, ao seu trabalho.
É preciso que o marinheiro de Ilhavo vá até aos politicos que mandam nessa terra e lhes grite na sua voz rude mas sincera:

- «Eh! senhores mandões! Basta de incompetências e de desmazelos. Ou juizo e trabalho ou rua!»
É preciso que nos entendamos. Nesta minha crónica escrita à pressa na mesa do emu beliche não quero frisar nem ferir esta ou aquela Câmara. Falo na generalidade. Refiro-me a todos os que, tendo governado em Ilhavo, nada fizeram para o seu progresso. Ataco a Câmara presente e ataco as passadas. Saio dessa impassibilidade em que em dormido o marítimo meu camarada que assiste de ânimo socegado a toda a montureira que se ostenta nessa terra. Sendo um homem energico a bordo, perde toda a energia ao chegar a Ilhavo, onde a sua voz, se ele quizesse, poderia ser ouvida com respeito e consideração.
Saiamos dêsse comodismo. Mostremos aos nossos conterrâneos que sabemos querer. Basta de tolerar boras, e grandissimas botas, por sinal.
Na nossa linguagem rude mas sincera, digamos a todos os que, de futuro não cumprirem com as suas obrigações:
- Eh! senhores mandões! Ou juizo e competência ou então, rua!
É tempo de começarmos a mostrar em Ilhavo que somos uma grande maioria e uma grande força, com que é preciso contar.
Las Palmas, Dezembro de 1921.
NAUTICO

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POR ILHAVO

O Ameriteles abordou-me e perguntou-me sobre os artigos de Alberto Mendonça o que eu entendia. Respondi-lhe que não podiam focar com mais precisão o nosso Ilhavo por dentro, embora as tintas do quadro apareçam por vezes um pouco carregadas de mais, filha tal circunstância do pessimismo com que o autor empunhou o pincel que as distribuia na tela da imprensa e ao mesmo tempo filha tambem da sua dedicação pela sua e nossa terra que deve ser grande.
Ilhavo, mesmo tomado em absoluto, não será bem o que aquelas palavras, cheias de justiça, desejam exprimir. Relativamente então ao que se passa noutras terras do país com as mesmas condições topográficas, Ilhavo não é, bem claramente, uma jaia, mas tambem não merece o ultimo termo das coisas condenáveis.
"O Ilhavense", 1922-01-08
Precisos, rigorosamente justos foram, sob certos aspectos, os artigos do sr. mendonça, tocados por outro lado, ele próprio concordará, duma certa dóse de pessimismo que lhes não tira todavia o fundo de justiça e oportunidade que uma grande franqueza realça e faz brilhar.

Mas não se julgue que eu faço estas observações pelo simples facto de me querer pôr em parcial discordância com o articulista. Coerente com as minhas palavras escritas em prol da minha terra, não podeia ser outra a minha atitude. E é caprichoso notar-se que o que acho de exagero nêstes artigos de ataque, o puzera na mesma quantidade nos meus artigos e elogio ou homenagem, mundanos os termos e as intenções. Mas eu elogiava mais, concordo. O amor, porém, muito mandava.
Alberto Mendonça nos seus artigos diz o que todos sabem, porque o veem; tendo, todavia, a superior virtude do seu desassombro, que é enorme dadas as circunstâncias que bem se conhecem.
Ameriteles o registou e eu o repito. Além dêsse desassombro, sente-se-lhe uma grande ânsia de libertar a sua terra de tam negras peias que a algemam. Sente-se-lhe um enorme desejo de melhorar as condições de estética e salubridade física e moral do berço em que nascemos.
E dito tudo o que aí fica, o que disse Ameriteles e sobretudo o que mais incisivamente disse o sr. Mendonça o que cumpre fazer para de algum modo praticar o desejo legitimo e moral das suas considerações?
Ficar-se em simples artigos de imprensa é alguma coisa, mas é pouco. É então necessário dar agora um rumo prático à questão. Chamar aqueles que os artigos impressionaram em bom sentido, pois poderá haver quem dêles não gostasse, (que tudo se consome por gosto), para dizerem do grau do seu esforço e concordância nessa tarefa que é realmente grande.
Pensou decerto o sr. Mendonça já sobre o mesmo assunto. Porque não põe em prática o que tem pensado, se é que pensou, como-supomos? Á Pleiade Ilhavense faltou-lhe dinheiro, mas não o apoio e o bom acolhimento por parte das pessoas mais gradas da vila, mesmo. Embora algumas criaturas supuzessem aquela associação obra de crianças... Porque não se promove uma larga reunião, donde sairia uma comissão de defesa e propulsora dos progressos da nossa terra? Essa Comissão empregaria todos os esforços junto das auctoridades administrativas e camarárias no bom sentido do saneamento moral e material da vila. Essa Comissão iria mais longe, promoveria a eleição para a Camara Muninicpal dum grupo de homens activos apostados e lançados ao progresso de Ilhavo com entusiasmo e dedicação. Se lhe fosse possivel faria isso e tudo o que mais estivesse ao seu alcance.
Ameriteles insurge--se contra a falta de coragem e dedicação que se tem posto na administração camarária do concelho. E não admite o argumento da falta de dinheiro. Tem razão, embora não seja uma razão absoluta. Quem nunca esteve a braços com a responsabilidade da vereação ou da administração não pode medir com a latitude precisa os escolhos e dificuldades que o seu exercicio demanda.
Vai longo este artigo. Voltamos a ferir a mesma nota, desde já convidando a gente nossa patricia a um rasgo de altiva e activa modificação dos nossos habitos imorais e costumes antihigiénicos.
CELIO DO VOUGA

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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