Convento abandonado

"O Ilhavense", 1922-01-08
Já tudo ali morreu. Não se ouve agora
A harmonia dum órgão doloroso
Nem a sineta, à prima luz da aurora,
Clamando ao exercicio religioso.

Nos altares as flores de fanaram,
Caindo para o lado, ressequisas;
E até as pobres lâmpadas secaram,
- Essas guardas silentes esquecidas...

Imagens, só num canto da soidão
Ficou um velho Cristo a meditar,
De tristes olhos fitos para o chão,
Em mudez eloquente a agonizar...

Pelas altas abóbadas olhando,
Parece ouvir-se o côro compassado
Das monjas que, â noitinha ali rezando,
Se esqueciam, num júbilo sagrado...

***

Altivo monumento, em ti se escuta,
Nessa mudez - silencio e magestade,
Rudes pragas no fim da negra luta
Que trouxe esses clarões de Liberdade!

Passado morto, solitario e triste,
A quem o Tempo ainda não tombou:
- Simbolizas a Fé que ainda existe
E a grandeza da Idade que passou!...

DAVID ROCHA.

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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