Conto de Natal

"O Ilhavense", 1921-12-25
MENINO JESUS DA CARVALHEIRA

Havia uns vinte anos que o sr. padre Pedro paroquiava a freguezia da Carvalheira. Para ali viera após a saida do Seminario de Coimbra onde se ordenara. Bemquisto e estimado dos seus paroquianos, o bom do padre Pedro era modelo dos presbiteros, entregando-se d'alma e coração ao desempenho das suas santas funções.
Passava as horas vagas tratando das suas flores, ou vendo a passarada que tinha num viveiro sob a varanda da residencia. Nunca se metera em politica. Bem o desafiava a manifestar-se, o sr. Mateus, que f^pra sargento revolucionario no 31 de Janeiro. Bem lhe pregava integralismo, o sr. Albertino. Mas o bom do Reitor tinha sempre a mesma resposta: - Era paroco e nada mais.
Vivia com ele uma velhora, a "Tia Maria Pequena" como o povo lhe chamava, por ser de estatura baixa e atarracada, e que de terras da Beira viera com o sr. Reitor - "que ela vira nascer e medrar" - e com Joaninha, rapariga de seus vinte anos, corpo franzino e afidalgado, um palminho de cara capaz de tentar o proprio Santo Hilário.
Caira nas boas graças da gente da aldeia, a Joaninha. E com razão, na verdade. É que a "Joaninha do sr. Reitor", muito prendada e ageitada, acudia sempre pronta e toda prognostica quando solicitada para um favor, uma atenção. Nunguem como ela "notava" uma carta, preparava os anginhos pela Senhora do Rosario, e vestia as noivas em dia de casamento.
A beleza da Joaninha não escapára à vista de Joãosinho Rigueira, que andára em Aveiro nos estudos, e que por nada ter feito, arranjou o logar de amanuense da administração do concelho, na vila proxima.
Ora o Joãozinho que era bem falante e se destinguia dos "parôlos" seus conterrâneos, caira no gôto da linda Joaninha. Namoraram-se. E alta noite, quando a aldeia dormia na paz bemdita do Senhor, ele saltava o muro do Passal, para ir até junto da janela da Joaninha. E ali permaneciam, horas seguidas, nas noites quentes de Junho, ouvindo o trinado dos rouxinois nas balsas da levada proxima, e a cega-rega dos ralos nos campos visinhos. Houve mesmo uma noite que orvalhava bastante, e então ele, saltando a janela, recolheu-se, a pedido de Joaninha, - pois a morrinha era muita, e "podia apanhar algum tolhimento de ossos».
... Se nas noites seguintes continuou a orvalhar, é coisa que não averiguei...

***

O bom do sr. Reitor não corria os montes a pé, tinha a graça de Deus e de Noé, e não lhe faltava o reumatismo. Nesse ano então, os malditos achaques não o largavam. E por uma noite de Agosto, de tal sorte o acometeu uma dôr reumatica, um maldito ataque, que teve de pedir socorro. Acudiu Joaninha aos gritos, e depois de lhe embrulhar as pernas numa flanela bem quente, de tal modo se houve no tratamento, que o bom do sr. Reitor, passadas poucas horas, mergulhava no mais reparador e profundo dos sonos.
E por aí em diante. pelo menos uma vez por semana, era ele de noite atacado dos achaques. Mas logo acudia a Joaninha solícita e carinhosa, com compressas de aguas quentes, fricções de opodeldoch e caricias de tal ordem que, para as dores, não havia mais pronto alivio...
... E o bom do Reitor, lá ficava a dormir o sono dos justos, na paz do Senhor.

***

Desde o advento da Republica que na Carvalheira se não realisava a Festa do Natal, outrora pomposa e deslumbrante, com seu presepio, Missa do Galo à meia noite, e que trazia à aldeia os povos de mais de uma legua em redor. Porem nesse ano, o sr. Faustino, administrador do concelho, e abrindo um parentse no "seu livre pensamento", permiria as festas, com presepio, missa e tudo, - a pedido de varias familias. Foi um delirio quando tal se soube. Não se falava noutra coisa em toda a aldeia. Organizou-se logo uma comissão formada pelas pessoas mais respeitaveis da terra. Todos tinham em vista uma ideia, reservavam uma surpresa. E o sr. Julio, o velho mestre escola, jurava que havia de ensaiar os seus pequenos e apresenta-los na igreja, "a cantar uns cantos melodiosos" com letra e musica da sua lavra - "que para isso ele era um «barra», e que haviam de ouvir. Já era a primeira vez que o fazia.
Viria tambem uma orquestra para a missa e o ormador traria o que houvesse de melhor. A Joaninha encarregou-se do enfeite dos altares e presepio. E as senhoras Agostinhas, manas do farmaceutico alvitraram que seria melhor mandar retocar a pintura do Menino Jesus. «Elas  mesmo se encarregariam de o mandar à vila, ao sr. Lavrar, que tinha muito geito. Já lhes pintára uma sr.ª d'Agonia, que estava uma delicia...
E com um geitinho tal de pintura nos olhos e na boquinha, que de qualquer laddo que nos colocassemos sempre a boa santa para nós olhava e sorria...»

***

Chegara a vespera do Natal, o dia por todos anciado.
Ainda a neve cobria os telhados e já as raparigas acarretavam flores; vasos com plantas e braçados de folhas d'hera. Toda a manhã fôra uma azafama. Joaninha dirigia os trabalhos a seu cargo, de chale de malha cruzado sobre os seios, amarrando atraz na cinta, e caindo sobre o ventre, para se agasalhar do maldito «taró», como ela dizia.
O sr. Reitor tinha mandado o sacristão à vila, buscar o Menino Jesus, - que fosse a cavalo na «Russa» para vir mais depressa, e que na volta não se esquecesse de trazer do mestre Guilherme os seus sapatos de fivelas que lá estavam a pôr meias solas...
Era meio dia quando o José Rexina voltou com os sapatos dentro duma saca, - mas sem o Menino Jesus.
É que o sr. [Lavrar?] piorára do estomago, e não tivera tempo de acabar a obra.
Foi uma decepção. Alguem alvitrou que se fosse à vila pedir o Menino Jesus do dr. Paula. Mas logo acudiu a Josefa Padeira, - que não fossem, pois era tempo perdido, que a filha, a Justininha, havia vendido o "Prisepe pra uns homes do Porto".
A trinte noticia correu a aldeia. E daí a pouco, uma nova não menos triste, vinha alarmar aquela boa gente. Fôra a Joaninha que adoecera subitamente Andava na igreja, começara a sentir umas dores nas entranhas, começara a sentir umas dores nas entranhas, à acção das quais daí a pouco se estorcia na cama. Chamaram o sr. dr. Mendonça; este, depois de ver a doente, e falando com o Reitor, que ouvia aturdido, despediu-se aconselhando a que chamasse a Tua Rosa do Gil - que sempre era mulher entendida.
A parteira veio. E ao cair da tarde, a Joaninha dava ao mundo mais um reconchudo e anafado menino. Não gostou do caso, o sr. Reitor. Mas a aldeia em peso rejubilava de alegria. É que a festa realizava-se, - porque já havia Menino Jesus...

***

Custava a convencer, o bom sr. Reitor. E á meia noite, celebrada a missa, depois do galo cantar, entre o perfume do incenso e da mirra, o deslumbramento das luzes e os acordes da orquestra, e sr. P.e Pedro dava a beijar o Menino Jesus, o pimpolho que a Joaninha dera à luz, nessa tarde, por um «suave milagre».
E o bom do Reitor, enquanto a assistencia, embebecida, beijava o menino, meditava com os botões da sua batina:
- Mas como pode isto ser, se só ha cinco meses ela me tratava o reumatismo?...
... É que o bom do P.e Pedro ignorava as visitas do Joãosinho Rigueira, em noites quentes de Junho, ouvindo os rouxinois nas balsas da levada próxima, e a cega-rega dos ralos nos campos visinhos---
Dezembro de 1921.
Jorge Emilio.

Desenhos de C. Craveiro

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Menino Jesus da Carvalheira
"O Ilhavense", 1922-01-01

A proposito do "Conto do Natal" publicado no ultimo numero d'O Ilhavense, recebemos a seguinte carta:

Sr. Director do «Ilhavense»:
Como de costume precorri as colunas de "O Ilhavense", jornal que V. Ex.a dirige com tanta proficiencia, e que veiu à luz do dia com o n.º 6.
No «Conto do Natal» ha referencias a uma pessoa a quem me ligam laços de parentesco e que deixando de existir nos saudosos tempos de respeito pelo proximo, aparece agora em contos mais ou menos grotescos.
Entendo que o respeito pelos mortos deve ser intangivel, motivo que me levou à presente carta. Eu, que conheço V. faço a justiça de crer que o conto foi publicado e não lido; de certo, não deixaria V. vir à luz da publicidade assuntos que, como este, podiam melindrar alguem.
Usando a prata da casa, como é uso dizer-se, encontrará. O Ilhavense entre o corpo redactorial - a que pertence o autor do conto - assuntos mais actualisados que divirtam os leitores.
Desculperá V. este meu protesto, mas desejava ver respeitado o nome de pessoas que, como o dr. Francisco da Paula pertencem ha muito ao numero dos que viveram em tempos mais felizes.
De V., Att.º Obrig.º
José C. Regala.

Não moveram o autor do "Conto do Natal" quaisquer intuitos reservados de ofender a memoria de quem quer que seja, nem neste jornal a tais escritos se daria publicidade, respeitadores, como somos, de toda a gente e muito especialmente dos que já não pertencem ao numero dos vivos. O nosso colaborador que se esconde sob a peseudonimo de Jorge Emilio, - rapaz extremamente delicado e incapaz de uma incorrecção - idialisou um conto sobre o Natal que publicou ha anos no Povo de Anadia. E como as personagens que nele figuravam eram da nossa terra, lembramo-nos de dar à estampa, nestas colunas, esse conto. Julgamos que nada de desprimoroso existe nele para a memoria do nosso saudoso patricio, dr. Francisco da Paula.
Não julgou assim o sr. Tenente-Coronel Celestino Regala, e daí a sua carta a quem damos publicidade e todas as satisfações precisas para que de seu esclarecido espirito desapareça qualquer duvida sobre as nossas intenções e as do nosso colaborador Jorge Emilio. 


Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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