Bilhete postal
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| "O Ilhavense", 1922-01-08 |
Havia no nosso meio um rapaz qque era a alegria dos companheiros. Jovial, expansivo e repentista como ele não havia. Bemquisto e admirado na roda que frequentava, era ainda o contentamento das meninas da sua terra. As bocas femininas gentis pronunciavam seu nome com prazer, amor e paixão.
Mais tarde casou com a escolhida do seu coração. Mas a sorte foi-lhe adversa e o nosso amigo, o jovem alegre e estimado das meninas, morreu, tendo por despedida duas coroas de pano e uma grande de papel. As duas primeiras eram da viuva e dos filhos, e a outra duma costureirinha, a quem o nosso amigo não conhecera, e que ela, apesar disso, admitava e amava.
Era uma paixão anónima, agradecida, quasi religiosa, de que o jovem amado não tivera conhecimento, e que o devia acompanhar depois na gloria e no tumulo.
Um belo dia, a viuva foi ao cemiterio em visita à sepultura, e, ao chegar, teve uma surpreza: sobre a campa do marido murchava um ramalhete de flores deixados ali talvez naquela manhã. Ela, desconfiada, colocou as flores do lado dos pés do defunto, e poz de parte da cabeça e coração, aquelas que trouxera de casa. Porem, maior novidade estava reservada ao seu ciume.
Dias depois voltou ao cemiterio e aí encontrou alem das flores mais alguma coisa: junto à cruz de ferro que se erguia da campa, ajoalhando-se, orando, uma creatura palida, vestida de preto, que ninguem conhecia na familia. Ao ver aquela mulher ali, sósinha junto à campa, a viuva, mas contendo a indignação, disse-lhe:
- Minha senhora, creio que se enganou na sepultura.
- De quem é esta? indagou a costureirinha, levantando os olhos vermelhos de chorar.
- É de Fulano, meu marido.
- Pois é por ele mesmo que estou rezando...
Ao ouvir estas palavras a viuva, irada, não se conteve:
- Infame! - exclamou, puxando os filhos pela mão, - até aqui tem amantes!...
E saiu do cemiterio, tremula de colera, sem nunca mais lá voltar.
ZÉ DO ADRO.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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