Agora é que é

"O Ilhavense", 1922-01-08

A casa do teatro onde está instalado o "Club dos Novos" foi vendida a outra firma
Uma entrevista às 3 horas da madrugada
Naquele salão de tantas tradições queridas e inolvidaveis, valsavam animadamente os pares no baile que ali se realisou na vespera do ano novo.
O entusiasmo era esfusiante, maior que nunca. Dir-se-hia que alguma coisa estavam prevendo aqueles moços cheios de vida e aquelas meninas gentis...
Estranhámos este entusiasmo invulgar. E a pessoa a quem nos dirigimos só nos soube responder:
- Deixe dançar!... É a ultima vez que o fazem nesta casa!...
Este agouro caíu-nos cá dentro como pedra de arroba na superficie dum lado em quietação. Pois quê?! Podia lá ser uma coisa dessas?
Interrogamos o nosso amigo sobre mil coisas. Quizemos saber a veracidade da sua afirmação. E ele, nada. Mostrava-se insensivel às nossas perguntas.
O baile acabou às 3 horas da manhã. De proposito ficamos até ao fim, sem jamais largar de vista o amigo que tão má noticia nos tinha dado.
Já dispersas todas as pessoas que tinham assistido ao "ultimo baile" no Club dos Novos, na frase crua, seca e agoirenta do nosso entrevistado, ficámos os dois sentados defronte um do outro. Fomos nós que rompemos o silencio:
- Tenha paciencia! tem que nos dizer o que sabe sobre esta casa, porque o exige O Ilhavense que o meu amigo tem dito estimar muito.
- Então tome lá nota. O Banco Regional de Aveiro que ha um ano comprou esta casa, acaba de a vender à firma Visinho, Irmãos & Filhos, que aqui vai montar um grande estabelecimento com muitas secções.
- Será isto possivel?
- Bem vê, o Club dos Novos estava condenado a ficar sem casa. Esta velha agremiação de tão honrosas tradições e que eu ajudei a fundar, sabe Deus com que enormes sacrificios, tinha os seus dias contados.
- Mas isso não póde ser!
- A Direcção devia adivinhar que não podia estar aqui muito tempo. Desde que esta casa foi vendida ao Banco Regional de Aveiro, o seu caminho era procurar outra para agora não se ver na contingencia de receber ordem de despejo e não ter para onde ir.
- Mas talvez isso tudo seja um boato...
- Garanto-lhe que ainda esta semana vai ser paga a "ciza" do contracto feito. Logo que a escritura esteja pronta a firma Visinho, Irmão & F.º dá ordem de despejo ao "Club dos Novos".
É este um facto cruciante que me invade a alma por ver que o ponto onde se reunia a mocidade ilhavense, vai em pouco tempo desaparecer. Mas...
- Não o queremos acreditar...
- Creia, que não é "blague". É uma pura realidade que vai ver confirmada em poucas horas.
E o nosso entrevistado levantou-se rapidamente e tomando-nos o braço convidou-nos a olhar - talvez pela ultima vez - aquelas paredes cheias de quadros tão lindos, aquelas cadeiras, aquelas mesas, todo o mobiliário, enfim, da simpática agremiação que tem sido o centro principal dos divertimentos da gente de Ilhavo.
A firmeza com que o nosso entrevistado proferiu as suas palavras deixou-nos a certeza de que é um facto o que afirmou

***

Foi já lavrada por um notário de Aveiro, a escritura de venda da casa do teatro. Agora é que foi!...

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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