A inauguração do nosso campo sportivo
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| "O Ilhavense", 1922-01-22 |
A Bairrada amiga, a fertil região da Beleza e do Trabalho, estreitou de perto num abraço efusivo de solidaiedade, o peito forte dos Ilhavos!
A alma ardente da nossa mocidade vibrou ao contacto dos corações amigos dos Anadienses!
O ILHAVENSE sauda com entusiasmo os rapazes de Anadia e de Ilhavo, que tão gentilmente confraternisaram no dia da inauguração do nosso campo sportivo
Um dia memoravel
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A inauguração do nosso campo sportivo
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A chegada do grupo de Anadia. - A recepção. - O desafio. - A ceia. - Brindes entusiastas. - Um baile como ha muito se não realiza em Ilhavo. - Ouvindo o sr, Carlos Sampaio. - A despedida.
Realizada uma das grandes aspirações da mocidade ilhavense, como era a acquisição dum campo sportivo onde todos os rapazes amantes do sport oudessem desenvolver os musculos, aperfeiçoando assim o seu fisico, para que nele possa residir com mais perfeição alguma sã, arrojada, audaz e sincera, tornava-se preciso inaugurar esse campo, mas dum modo que despertasse entre os rapazes um entusiasmo crescente, pois que, dessa inauguração, dependeria, talvez, o futuro do sport em Ilhavo.
O team de Anadia, o melhor e o mais bem organizado grupo de "foot-ball" do distrito, acedeu gentilmente ao pedido que lhe fôra feito para que viesse tomar parte no desafio amigavel que não devia realizar-se no dia da inauguração do campo.
Conhecida a resposta afirmativa, o entusiasmo entre os rapazes de Ilhavo aumentou sensivelmente, notando-se entre todos um grande interesse em Jogar com Anadia que de antemão se sabia ser um team correcto e leal.
O dia marcado para a inauguração foi o de domingo passado. Resolvido isso quasi à ultima hora, todos se apressam a prestar aos nossos hospedes uma recepção, se não brilhante, pelo menos digna de nós e digna de eles.
Os rapazes de Anadia bem o mereciam. As deferências que eles sempre teem dispensado aos Ilhavenses que de passeio teem ido à capital da Bairrada, a maneira supra-generosa como sempre nos teem tratado, dava-lhes o direito de receberem, da nossa parte, demonstrações de afecto e de gratidão de que nada, neste mundo, nos dispensaria.
A chegada - A recepção
Tinha-se anunciado a chegada do grupo às duas horas da tarde.
Com efeito, à hora marcada no programa, estavam no Alto-Baandeira todos os "sportmans" ilhavenses, representantes das Associações locais, imprensa, autoridades, presidente da Câmara, empregados publicos e muito povo, acompanhados pela brilhante banda da Vista-Alegre, devidamente uniformisada.
Ás duas horas e meia surge na curca da rua Vasco da Gama uma camionete onde vinham os nossos visitantes. Logo a seguir um automovel e um regular numero de ciclistas.
Agita-se a massa de povo que os esperava. Sobrem ao ar inumeros foguetes, e a banda rompe com um ordinario. Ao parar a camionette irrompe, de parte a parte, uma chuva de vivas e de hurras. Velhos amigos abraçam-se comovidos e agradecidos. E feitas as apresentações do estilo, o cortejo põe-se em marcha, indo à frente o team de Anadia com a sua bandeira.
Do Alto-Bandeira ao Club dos Novos o entusiasmo foi delirante. Os rapazes de Anadia, dessa fogosa e linda vila do vinho sumarento e dos passeios encantadores, electrizam com os seus vivas os nossos conterrâneos. E foi no meio desse entusiasmo louco que o cortejo entrou no Club dos Novos. Aí os jogadores mudam os seus fatos usuais para envergarem as roupas do sport. Preparados, segue o cortejo na mesma ordem em direcção ao campo, que fica situado na rua João Carlos Gomes (Rua Nova), onde se realizou.
O desafio
Ás quinze horas os grupos alinham, O de Ilhavo estava assim constituido: Parracho, Lau e Alegria; Admar, Mendes e Reinaldo; J. Ramalheira, Teodoro, Marques, Candido e Ruivo (capitão). Temos em nosso poder a lista de Anadia que não publicamos em virtude de à ultima hora serem substituidos alguns jogadores cujos nomes desconhecemos.
O pontapé de saida é dado pelo presidente da Câmara, sr. Diniz Gomes,
Ilhavo joga contra o sol. A principio o jogo mantêm-se indecido e as descidas sucedem-se nos dois campos. Ambos os grupos atacam mais pela esquerda mas sem resultado.
O dr. Carlos Sampaio abandona o campo por se ter magoado. Uma falsa posição da perna esquerda motivou essa saida. De Ilhavo saiu tambem o jogador correspondente.
O jogo anima-se de parte a parte. Um "canto" perigoso contra Ilhavo, é certeiramente defendido por uma cabeçada providencial de Candido. Ressente-se a falta de ambos os extremos dos «onzes» e a bola constantemente sai fora.
De Anadia a linha de ataque trabalha mal.
Ilhavi desce agora pela direita e Ruivo rematando uma boa passagem de Candido aponta e abre o activo para o seu Club.
Fausti cai e não sustem o esférico. A bola vai ao centro e Anadia desce, como sempre, pela esquerda. Os médios de Ilhavo, num trabalho diligente aliviam o seu campo.
Marques defronte do guarda-rede adverso, o campo livre, perde uma excelente ocasião de marcar.
A primeira parte termina sem incidentes de maior com um ponto a favor de Ilhavo.
Na segunda parte o jogo anima mais a assistencia. O grupo visitante desenvolve então um lindo jogo de combinação, scientifico. A sua linha de ataque assedia por momentos o campo de Ilhavo, obrigando Parracho a estar vigilante. Franklim, médio centro, duma calma extraordinaria, ajuda no ataque. Ilhavo, todavia, desce tambem por vezes e Teodoro perde duas ocasiões oportunas de aumentar a vitoria do seu grupo.
São marcadas duas grandes penalidades, uma a cada onze, sem resultado. De parte a parte o cansaço é manifesto. Anadia domina sensivelmente.
O desafio termina com o mesmo resultado da primeira parte
Ilhavo: 1 bola
Anadia: 0
De Ilhavo, destacamos o trabalho incansavel dos medios. Admar, muito bem, muito oportuno e rapido. Mendes não esteve nos seus dias felizes, mas trabalhou muito.
Reinaldo inutilisou muito jogo ao extremo esquerdo adverso, sem duvida um dos melhores e mais periogosos jogadores de Anadia. Teodoro trabalhou tambem muitissimo, principalmente muitissimo, principalmente na segunda parte, embora perdesse algumas bolas.
De Anadia gostamos bastante do guarda-rede, inexcedivem em sangue frio e calmo; do difeza direito que tem um certeiro pontapé; do médio centro, Franklim, um jogador de grandes qualidades; de Mario da Conceição e do extremo esquerdo, fois elementos perigosissimos.
A vitoria de Ilhavo deve atribuir-se ao facto do grupo estranho não estar completo. A superioridade de Anadia ainda assim manifestou-se: melhores jogadores, com mais conhecimento e pratica do futebol.
A ceia
Às seis horas teve lugar no Club a ceia oferecida aos rapazes de Anadia em que tomaram parte 34 comensais.
Presidiu o exm. sr. dr. Carlos Sampaio, a alma-mater do sport em Anadia. Os nossos visitantes eram servidos pelos rapazes do team de Ilhavo. A frugal refeição decorreu ssempre no meio de muito entusiasmo. No final o sr.
dr. Carlos Sampaio
brindou pelos rapazes de Ilhavo. Diz que a recepção qque fizeram aos seus conterrâneos excedeu toda a prespectiva. O povo de Ilhavo pôz assim à prova, mais uma vez, os seus cráditos de gente generosa. É com prazer que vê criar raizes por toda a parte o amor pelo sport de que ele é um apaixinado. Bom é isso porque temos de empregar todos os meios ao nosso alcance para guindarmos Portugal ao apogeu perfence à mocidade, aos novos, que teem na alma as qualidades ancestrais da raça portuguesa. Termina levantando alguns hurras que são calorosamente correspondidos,
Segue-se o sr.
Liberato Simões Pescada
Agradece a maneira como foram recebidos os rapazes de Anadia. Lamenta que o team de Anadia não pudesse vir completo pois que melhores fases se teriam visto no jogo. Brinda por todos os rapazes esperando ver os ilhavenses, muito em breve, em terras da Bairrada.
Falou depois o sr.
Mario da Conceição
que levanta o seu copo futuro do sport e pelo desenvolvimento fisico e moral da mocidade portuguesa. Brinda pelo povo de Ilhavo e por todos os amigos de Anadia no numero dos quais estão em primeiro plano os ilhavenses.
Por fim o sr.
Artur Sacramento
historía as démarches efectuadas para que viesse a Ilhavo o grupo de Anadia.
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Por ultimo levanta.se o
Director de "O Ilhavense"
que lè a seguinnte poesia, feita durante a ceia:
Saudando
Aos rapazes de Anadia na sua visita a Ilhavo
Ó amigos da Bairrada, ó gentes prestimosas,
A quem tanto devemos d'amor e galhardia,
Não podem nossas almas, tão loucas d'akegria,
Dizer tudo o que sente, felizes, anciosas!...
Felizes p'la aventura de vermos entre nós
A mocidade alegre, risonha, entusiasta
Da terra hospitaleira que nossa vida arrasta
P'ró Sonho e para a Luz de Venturosos Avós!
Meus versis vão saudar-vos com ênfase airados,
E prometer-vos já, já um coração amigo
Vivendo junto ao vosso, como em feliz abrigo
Vivem nautas lá no mar já quasi naufragados.
Oh! Povo da minha terra - Ilhavi adorado!
Vem comigo agora saudar toda a BAirrada.
Que cada coração leve dentro, bem gravada,
Vivaz recordação deste dia assinalado.
Terminou a ceia no meio de grande entusiasmo e de muitos vivas, começando pouco depois
O baile
que revistiu o aspecto de uma fraternal congregação aos rapazes de Anadia. Ha muito que em Ilhavo não se realiza um baile com tanto entusiasmo. As tricanas desta terra e da Vista-Alegre mais uma vez provavam que é com alegria que participam da satisfação dos seus conterraneos. Convidadas a animar co a sua presença tão gentil e tão animada, esta festa dedicada aos rapazes de Anadia, nem uma só se recusou a prestar o seu concurso ao baile onde a mulher é sempre a materia prima. Sem ela não é possivel animação nem vida. Ela sabe imprimir a estas festas intimas, o cunho de uma graça verdadeiramente singular.
O baile realizado em honra dos nossos visitantes tomou aspecto de uma grande festa em familia. O Club estava à cunha, e nos intervalos das valsas e «one steps» repetiam-se as manifetações aos nossos visitantes.
Às dez horas foi marcada pelo sr. Diniz Gomes uma «quadrilha de honra» em que tomaram parte os jogadores do «foot-ball» e outros convidados.
Num dos intervalos
O director de «O Ilhavense» entrevista o sr. dr. Carlos Sampaio
- Senhor doutor, as impressões de V. Exa. para o «Ilhavense»?
- Os meus amigos confundem-me. Creia que levo desta terra as melhores, as mais agradaveis impressões. Não esperava um acolhimento tão expontaneo e tão sincero.
- E dos rapazes, sr. doutor, dos que jogaram de tarde, leva o team de Anadia qualquer má impressão?
- Oh! não! Os rapazes da sua terra jogam com toda a correcção, com presteza e com arte.
- São favores, sr. doutor.
- Não são. É o que sinto e foi o que notei durante o jogo. Estou convencido de que os seus patricios, se continuarem a cultivar o «sport». hão de honrá-lo.
- O sr. doutor compreende. O que nós não queriamos por processo algum é que houvesse a mais pequena nota discordante que desgostasse os briosos rapazes de Anadia.
- E não houve, afirmo-o categoricamente. Só deferencias e amisade devemos a todos. Ao lado disso muita lealdade. Note bem: muita lealdade.
- Obrigado a V. Ex.a em nome de «O Ilhavense».
A despedida
Á meia noite formou-se uma marcha «aux flambeaux» em direcção ao Alto-Bandeira onde os nossos hospedes tomaram logar na camionette e no automovel que aqui os conduziu.
Há abraços e vivas. Abrem-se algumas garrafas de champagne e é oferecida aos rapazes de Anadia uma taça desse vinho.
Os carros partem, e ao desaparecerem na curva da rua Vasco da Gama, os nosos conterraneos retiram dando vivas a Anadia, ao dr. Carlos Sampaio, à Camara de Ilhavo, aos amigos do «sport, etc., indo depois continuar o baile que terminou às 2 horas da madrugada.
E assim findaram os humildes festejos que a Associação do Sport de Ilhavo organizara para a inauguração do seu campo sportivo.
- A Ilhavo teem chegado algumas cartas e bilhetes dos rapazes de Anadia, agradecendo a recepção que lhe fôra feita.
- O sr. presidente da Camara tambem recebeu um telegrama do Sporto de Anadia agradecendo a recepção.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo


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