Zig-Zags

"O Ilhavense", 1921-12-18
Porque será que, a trôco de qualquer coisa, é sempre chamada à baila a careca do sr. Diniz? Dezenas de vezes tenho feito a mim mesmo esta pergunta, não conseguindo, até hoje, dar-me uma resposta satisfatória. Sempre que este nosso amigo se descobre, eu trato imediatamente de a estudar, mirar e remirar e por mais que a estude, mire e remire, não sou capaz de lhe encontrar nada que justifique o reclame que lhe têem feito. Mas o que é verdade é que nenhuma outra é tão distinta como a dele.
Eu é que dou a mão à palmatoria, declarando não vêr motivos para que a careca do sr. Diniz ande para aí na boda de toda a gente e abra qualquer secção alegre que o jornal cá da rapaziada se lembre de publicar. Cá para mim, ha em Ilhavo carecas que, pela sua graça e beleza, deixam a perder de vista a do sr. Diniz.
Ora vejam: Não parece trabalhada à enxó pelo compadre Zé Luiz a do sr. Abel, não é parda e pesada como uma alharda a do sr. Domingos Ramalheira? Não é um verdadeiro prato de mandioca a do João Teles e infinitamente futurista a do Mendonça e toda do feitio da claraboia do Hospital a do sr. José Regala?
Ha alguma coisa a dizer da careca simpática e trigueirinha do sr. José Ançã, não nos dá ideia de um ôvo coberto de «pósas» a do sr. João Rigueira? Não parece um barrete sem maçaneta a do sr. João Reinaldo, um paivante a saír duma caixa de fosforos a do Comandante? Não é um perfeito tipo de beleza a do sr. Luiz Chambre, uma batata grelada a do Zé Corujo, um bolo de bacalhau a do Capitãosinho e uma corôa de marquês a do Amadeu Madail? Não é uma careca mística e cheia de mesuras a do sr. Bastos, puríssima como a vaselina alva e sem ingredientes de espécie alguma a do sr. Agostinho, guerreira e marcial, tipo brigadeiro João de Sousa, a do sr. Cunha? A do maestro Berardo não nos lembra um corêto de aldeia, não parece uma velha a rir-se a do sr. Calisto e a do professor Catarino não se assemelha a um bocado de adesivo... da ultima hora? Não são três carecas... e peras, glórias dos seus proprietarios, as enormes carecas dos tres irmãos Piscos? Não parece um pingo de cêra a do Luis Andorinha e a do sr. dr. Madail não é, de facto, uma careca toda torta para uma banda? A do professor Anchão não tem assim tipo de feijão reboludo, não parece toda de caco a do Duarte Nove, uma corôa de espinhos a do Balseiro e uma boca de «arraia» a do sr. Azevedo?
E mais interessante e engraçada do que todas estas, em tudo e por tudo, não será, por ventura, a da ti Maria Barbeira?
Enfim, era um nunca acabar e eu dou-me satisfeito com os exemplares de carecas que apresento aos leitores de «O Ilhavense?, julgando ter provado a evidencia que qualquer delas põe ao canto a do sr. Diniz.
Ora sendo assim e havendo tanta careca nesta terra, porque é então que só a do sr. Diniz vem à baila a propósito de tudo, pelo mais simples «dá cá aquela palha?»

SULAMITE

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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