Zig-Zags

"O ilhavense", 1921-12-11
Apenas me disseram que ela tinha visto o diado, corri a ouvi-la. Alta e magra, excessivamente morena, cabelos desgrenhados, boca largamente rasgada e labios grossos, um dente aqui, outro ali, nariz negro de cheirar, arrastando pesadamente os passos e falando com dificuldade, não se mostrou surpreendida com a minha visita e prontificou-se logo a contar-me como tinha visto o mafarrico. Mas antes, espevitou com o gancho do cabelo a luz vacilante da candeia, avivou o brazido que teimava em apagar-se e com o machão velho e denegrido deu mais uma voltinha à marmita ferrugenta, dependurada no gancho que caia da chaminé. Anciosamente eu esperava que aquela boca falasse. Uma pitada e a história começou: « Nessa altura, morava eu numa casinha, perto da defunta capela das Almas. A casinha tinha um postigo para o lado do bêco, que ficava aberto de dia e de noite. Ora, uma noite, aí por volta das nove, quando estava sentada no poial a lavar os pés num alguidar vermelho, que tinha mercado na feira dos 13, ouvi assim a modo uma coisa a fazer barulho no postigo e olhei p'ra lá. Benza-me Deus, que já estou toda a tremer! Vai-me aquela voz:
Ó Jo...a...ni...nha!
Ó Jo...a...ni...nha!
"Ai meu rico senhor! Fiquei estarrecida. E eu a querer tirar de lá os olhos e a não poder como se m'os tivessem lá colado com cola... A vigiar ao postiguinho, estava uma cara muito comprida, aqui - salvo seja - tinha duas brazas acesas, que eram os olhos, na testa dois cornos retorcidos e na cabeça um carapuço vermelho. A rir-se, a rir-se e com uma voz muito maneirinha a chamar por mim:
"O ilhavense", 1921-12-11
Ó Jo...a...ni...nha!
e depois com uma voz muito grossa:
Ó Jo...a...ni...nha!
Era o diabo em pessoa e acho que vinha p'ra me arrepanhar! Então puz-me a gritar com quantas forças tinha: «Minha mãesinha... quem m'acode? T'arrenego Barzabum!» E ele a rir-se:
Joaninha, cacho d'uva
Tira os pés do alguidar;
Vou dar um pulo danado
P'ra t'os ajudar a lavar!
E eu a gritar, gritar cada vez mais: Tarrenego Barzabum, Cruzes Canhoto! E ele a dizer-me: Velha danada, dá-me a tua alma ou arrebento-te. E começa a enfiar-se, a enfiar-se pelo postiguinho e eu a gritar: Quem m'acode? Meu Padre Santo Antoninho valei-me. Começei a espernear, a espernear e desmaiei. Ao vir a mim dei com a cosinha cheia de gente e o postiguinho fechado e todos a perguntarem-me: Mas que foi? Mas que foi? E eu: que tinha sido uma coisa má «Alhera» que já tinha passado. Apenas me deixaram só, fugi de tal casa e vim para esta, onde espero morrer. Nunca mais me apareceu o diabo. E aqui tem.»
Levantei-me. Os meus agradecimentos pela história. E já quando eu estava com o pé na soleira da porta: Olhe que com o medo desaprendi a ler. E agora nem desgraçadamente uma taboleta me atrevo a ler, meu rico senhor, nem uma taboleta.»
Posso afiançar-lhes que esta história é rigorosamente verdadeira e se passou numa casa, perto da defunda capela das Almas. Acreditem se quizerem.

SULAMITE

 Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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