Ultima hora - Naufrágio do Regulus

Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04
 Perto de Ovar naufragou na noite de quinta para sexta-feira, o lugre REGULOS que, carregado de bacalhau, vinha de Lisboa para a nossa barra.
Consta que morreram 4 homens.
No próximo numero daremos detalhadas informações sobre o desastre.
O capitão do navio era o nosso amigo e patricio sr. Antonio Pereira Ramalheira, que está a salvo.






"O Ilhavense", 1921-12-11
O naufragio do Regulus

Momentos de angustia - Actos de heroismo - Como se deu o desastre - Ouvindo o capitão Ramalheira - Scenas comoventes - 4 mortos - Os salvadores e os salvados.

Como no ultimo número do nosso jornal noticiámos, naufragou na praia do Furadouro, de Ovar, o lugre "Regulus" que, de Lisboa, vinha para Aveiro com um carregamento de bacalhau destinado à Companhia Aveirense de Navegação e Pesca.
Deste navio, saído do estaleiro em 1920 e cuja construção se verificou ser admiravel, era capitão o arrojado oficial e nosso conterrâneo sr. Antonio Pereira Ramalheira.
Logo que tivémos conhecimento da assombrosa catástrofe, procuramos colher fidedignas informações para que, como sempre, podéssemos levar aos nossos estimaveis leitores um conhecimento perfeito dos acontecimentos.
E assim dirigimo-nos áquela malfadada praia, onde o mar, num gargalhar cheio de sarcasmo, comtemplava a sua obra.
O navio, qual delicada concha arrojada para longe pelo braço potente do gigante, jaz alquebrado na areia, meio tombado, arquejante ainda, mas já vencido na luta insana, atroz contra os elementos.
Procuramos o capitão e num abraço repleto de alegria, quente de comoção, felicitámos todos esses intrépidos marinheiros que o acaso conseguiu roubar à morte horrivel que de perto lhes acenava já.
Mas uma lagrima de profunda tristeza, de indizivel saudade rola-nos pelas faces.
O capitão chora também.
É que nesse momento a alma grande do marinheiro, transmuda-se na dor, na grande mágua que um coração bondoso e nobre como o de Antonio Ramalheira sabe sentir ao recordar os bravos companheiros que o destino para sempre roubou.
Emudecemos... porque o nosso peito se elevava numa sentida prece por alma das desditosas vítimas.
Momentos depois o capitão principia a narrar-nos a desditosa viagem.
- "Saimos de Lisboa no dia 27 do mês próximo passado e trouxemos uma viagem admiravel, sempre com o mar bonançoso e ventos favoraveis.
No dia 30 avistamos o farol de Aveiro e como que presentindo já o que me estava reservado, corri para a barra num desejo ardente de entrar.
Como me não dessem entrada, afastei-me da costa quanto possivel.
O vento soprava do sul, mas na noite desse dia ronda para noroeste e começa a soprar cada vez com mais violencia.
O barómetro oscila doidamente, anunciando a tempestade que se aproximava.
Era impossível já afastar-me mais da costa.
O vento e o mar, pelo contrário, atirava-me para ela.
A tempestade vem, o mar agita-se furiosamente, as ondas varrem o convéz, os aguaceiros precipitam-se sobre nós com tal inclemencia que nos gela até aos ossos.
Tentei o ultimo esforço, mas tudo em vão.
Já dentro da pancada do mar uma onda, que só de pensar nela me enche de pavor, negra, alta como uma muralha, entra pela pôpa, arranca a gaiuta que esmaga de encontro à roda do leme o infeliz José Simões Vagos, nosso patrício, que, havia momentos, a todos incitava patenteando uma coragem capaz de todos os heroismos.
Corremos para as exarcias e nelas nos agarramos tão cheios de esperança, como se aquelas delgadas cordas tivessem guardadas as nossas vidas. Simões Vagos havia desaparecido.
"O Ilhavense", 1921-12-11
O navio, açoitado pelo vento e pelo mar, volta como por milagre a prôa para terra e numa carreira virtiginosa, sempre coberto pelas vagas, galga sobre a areia e vem encalhar aqui.
Na praia encontravam-se já pessoas.
Todas elas, num veemente anelo de nos salvar, atiram-nos de terra um cabo, tendo preso na extramidade alguma coisa pesada, afim de estabelecer o cabo de vai-vem.
Impossivel!... o cabo não chegava até nós.
O frio cortava e as mãos principiavam de entorpecer.
então um arrojado filho de Ovar, Vitorino Fernandes Pinto, espera que o mar desça e acompanhando-o na descida, consegue lançar dentro do navio o suspirado cabo, sem que, contudo, deixe de ser atingido pela vaga que, na subida, se precipita contra ele, envolvendo-o com tal furor, que dificilmente poude salvar-se.
O mar não respeitava ninguem!
Amarrado convenientemente o cabo de vai-vem que nos foi lançado de terra, procede-se à passagem para terra, procede-se à passagem para terra dos tripulantes, o que correu sem incidente até ao sétimo tripulante.
Este, precipitadamente, deu na corda que o prendeu ao cabo de vai-vem um nó que correu e o susteve a meio da descida, ocasionando-lhe a morte pelo estrangulamento.
Quando vi este desgraçado preso e morto e sem esperança, alguma de poder ser dali tirado, lanço-me a pulso, arrostando todos os perigos, no ultimo esforço de salvação e consigo, passando sobre o morto, vir descendo até junto da praia, nada podendo dizer do que se passou depois, porqque prestes ao chegar à areia tinha perdido os sentidos de exausto que estava, e aí teria morrido tambem se dois valentes pescadores, Joaquim Podes e Francisco Casqueiro, me não roubassem às ondas, com o sacrificio das próprias vidas.
Contaram-me depois que, tirado do cabo o morto, o penultimo tripulante, ao amarrar-se, havia procedido como o anterior, sendo tambem vitima da sua precipitação.
O ultimo dos 10 tripulantes de que se compunha a equipenão quiz descer como eu, pois que não podia faze-lo amarrado, visto que o outro ficou suspenso no cabo toda a noite.
No dia seguinte correu-se ao navio em busca dos que faltavam.
Foi encontrado, então, no rancho,morto horrivelmente, desfigurado, o malogrado Simões Vagos, sem que nos seja possivel explicar como teria ido para ali.
Eis, meu amigo, narrado tão claramente quanto o meu estado de perturbação o permite, o triste desenrolar desta desoladora tragédia.
Como vê, tudo se salva, à excepção do casco de navio e... da vida dos meus chorados companheiros.
O mar, o mar imenso, ainda espumante de raiva, lançou sobre as ultimas palavras do audacioso capitão que comovidamente acabava de nos marrar a sua plangente odissêa, o rouco, insaciavel troar das suas ondas.
Despedimo-nos, trazendo na alma a lancinante amargura com que nos fere um espetaculo desta natureza.
No cemitério de Ovar jazem sepultados os cadáveres dos infelizes naufragos, dos quais só Simões Vagos foi nosso patricio.
Que a eternidade lhes dê a paz e a ventura que o fugitivo momento desta vida lhes não quiz dar.
(Do nosso enviado especial.)


Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo


Comentários