Nós, os do Mar

"O Ilhavense", 1922-01-01
Escrevo estas rudes frases embalado por acasteladas vagas e ao som de violenta ventania.
Não é bem tempestade o que nesta hora me envolve; se tal dissesse vós poderieis rir-vos da minha inocencia, porque, valentes marinheiros que sois, não considerais tempestade o que eu vou experimentando.
Escolho esta hora um pouco dificil para vos lembrar o dia do aniversario da nossa Associação, porque, como todo o bom filho da terra que lhe foi berço, me lembra esse cantinho onde dei os primeiros passos nas asperezas da vida.
Queridos camaradas: ninguem como o marinheiro pode saber amar. Todo o emigrante sente nostalgias, mas abafa-as com os prazeres que a terra lhe proporciona. O nauta é o unico que entre o vasto oceano e a abóbada celeste tem ocasião de sentir o que são a saudade, o amor, as verdadeiras nostalgias.
O soldado pede madrinha de guerra quando na guerra; pois nós estamos em guerra, permanente com os caprichos da natureza, necessitamos duma madrinha protectora que acalente nossas dores e nos auxilie quando saimos vencidos nalgumas das lutas que vamos travando dia a dia. Essa madrinha que tão poderosa pode ser, só njós a podemos conceber e tanto mais importante quanto melhores afilhados formos. Se todos concorrermos para o engradecimento da nossa Associação, ela tem por dever chegar a condiões de garantir o nosso tão incerto futuro.
Quando ha um ano me lembrei dessa obra, não tive o fim que muitos de vós interpretastes e continuais a intrepetrar. Eu não quero que o principal fim dessa agreminação seja a facilidade em nos prepararmos repentinamente para a luta contra o capital. Eu não desejo que o fim da nossa união seja a luta contra A. B. ou C. nela filiados, mas delinquentes das leis da mais comesinha solidariedade. Esses casos devem ser sempre secundarios embora só na Associação se devem tratar.
O meu principal objectivo foi unir os meus camaradas ilhavenses e formarmos uma especie de sociedade protectora dos desprotegidos da sorte, e como Ilhavo é dos marinheiros, torna.se ha apontado se tal conseguirmos.
Saibamos, pois, mostrar aos homens de terra que a rudez acompanhada do sentimento, vale mais que a ilustração viciada.
Em terra ha grandes talentos, mas, infelizmente, estão influenciados pela podridão da atmosfera que os envolve.
Nós pertencemos ao mar e nesse ambiente não ha impurezas que sufoquem os nossos peitos livres.
Porque havemos então de vacilar ante um empreendimentos cujo exito está bem ao alcance dos cerebros mais incultos?
Confio na coragem que tendes aprendido nas lutas com a tempestade e na dedicação que caracteriza os filhos das vagas.
Na nossa associação ha-de formar-se o montepio de que ha tempo vos falei.
Se não tivermos competencia para a sua organização, arranjaremos competentes; e uma vez a maquina a funcionar, meus amigos, podeis ter a certeza que, de contentamento, as lagrimas vos correrão como correm ao lavrador no dia em que vê, na formatura de seu filho, o produto da dura enxada.
Avante, pois, pelos grandes empreendimentos. Sejamos crentes. É depois que a crença se afastou da sociedade portuguesa, que esta pobre patria vai resvalando vertiginosamente para o abismo.
Sigamos então a seguinte norma: primeiro, bons ilhavenses e bons camaradas. A Patria é já uma coisa muito complicada, razão porque a ponho em segundo lugar. A patria é mais para os meus filhos do que para nós, que somos hospedes.
A Patria do marinheiro é enormissima. Pertence-lhe um bocado de cada nação. Aquela que mais lhe lembra nos momentos de perigo; aquela que decerto chora o seu desaparecimento; aquela que, em suma, se enluta quando nos absorve, o vasto oceano da morte - essa é pequenissima. É a pequena aldeia onde, em crianças, aprendemos as preces religiosas, sentados à lareira e onde mais tarde as ensinaremos, se o destino permitir que o mar se limite apenas a cansar-nos.
Trabalhemos, pois, em prol de Ilhavo, que é a nossa pequena mas querida Patriz. Se conseguirmos engrandecê-lo, engrandeceremos nossa familia e a nós proprios.
Não se descure o futuro da nossa Associação. Comemorai o seu aniversário com fé e entusiasmo. Discuti as vantagens que de futuro ela nos deve proporcionar e contai sempre som o esforço do humilde colega que vos deseja felizes.
Francisco de Abreu






Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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