Interesses de Ilhavo - O nosso Hospital

 O que disse a O ILHAVENSE, Viriato Teles: «Tenho sofrido amargos dissabores mas a  inha fé e a minha coragem, como por milagre, recrudescem sempre».


Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04
Um, dois, três..., ... doze degraus subidos e eis-nos num momento no espaçoso terraço do Hospital da Misericórdia de Ilhavo.

Viriato Telrs, que nos aguarda solicito e sorridente, está agorra ladeado por dois redactores de O Ilhavense que o não deixam sem que lhes diga o que pensa sobre o Hospital.

O jardim impressiona-nos de uma posição alacre com o colorido berrante de suas flores variadas. Uma linda dália escura prende-nos a atenção... Dália triste, pendente, que quere segredar-nos... sei lá!... alguma musica linda de ave que ali cantou.

Se ela falasse... se ela falasse... que coisas belas diria a florsinha de sonho...

Distante, a meio da pradaria enorme, a capelita humilde de Vale de Ilhavo deixa ver a brancura alvíssima do seu campanário.

Teem uma tão doce significação de beleza os campanários das capelitas distantes...

Agitamos num safanão o nosso espirito embevecido e recordamos que a nossa missão era ouvir o homem cujos afazeres não permitiam longas, embora egradáveis, divagações.

Viriato Teles encaminha-nos travez a fachada central do edificio para uma pequena sala. Sentámo-nos, os três, de volta de uma mesa e entrámos sem delongas no assunto.

- Que querem de mim, afinal - perguntou afavelmente o nosso entrevistado.

- Que queremos? Apenas que nos diga resumidamente alguma coisa sobre os seus projectos, as suas ideias e sobre a situação economica desta instiyuição.

- Compreendem que o assunto é demasiado longo para poder ser tratado num jornal pequeno - ripostou num gesto delicado de escusa.

- De acordo. Porem nos dissemos ja que desejavamos ouvir as suas informações resumidamente.

- Bem. Devo dizer-lhes que julgo necessário falar, de fugida embora, do passado. Este Hospital, não sei se sabem, teve a sua origem numa reunião importantissima realizada no Club dos Novos, por ocasião da epidemia da pneumónica. Assistiram a ela pessoas de toda a respeitabilidade da nossa terra e dentre elas as recrutou uma direcção que devia estudar tão magro assunto. Os membros dessa direcção não eram concordes no caminho a seguir: queriam uns que o edificio se construisse quando houvesse dinheiro para cobrir todas as despezas; outros - apenas eu e Antonio José dos Santos - alegavam que para o Hospital em Ilhavo ser um facto, era necessário iniciá-lo tratando-se simultaneamente da angariação de donativos. A nossa ideia prevaleceu. A nós agregaram-se António Pereira Ramalheira, Manuel Silva Vergas, Victor da Graça, João Magano, Manuel Pereira Ramalheira e putros que sem perda de tempo iniciavam os trabalhos necessários. A um de maio de 1919 assenta-se a primeira pedra no meio dum entusiásmo bebricitante.

- Não sem muitos trabalhos, interrompemos.

- Sim, com muitos sacrificios, mas as dedicações compensavam-nos bem.

Viriato Teles, a grande alma daquela instituição de tão nobres fins, fala agora com calor, arrebatadamente.

De quando em quando a voz prende-se arrastadamente, para voltar de novo, mais vibrante, incisiva.

- Os senhores não imaginam como foi belamente recebida a nossa ideia.

No continente e no estrangeiro.

Cartas de incitamento sem conta, ofertas valiosissimas, enchiam-nos de alegria.

O sr. Gustavo Ferreira Pinto Basto prometia todas as loiças para o funcionamento do Hospital, o dr. Frederico Morais Cerveira dava esperanças de valioso legado após a sua morte e a da esposa, as listas de subscrição preenchiam-se de quantias avultadas, enfim, a nossa ideia encontrava eco em toda a parte. Fé não nos faltava e o edificio erguia-se como por encanto.

- Uma pequena observação: a quanto montam aproximadamente as despezas feitas até hoje com e edificio?

Viriato Teles como que desnorteado pela nossa pergunta inesperada, queda-se por um pouquinho e num silencio concentrado e adianta: - Dispenderam-se até hoje 34:000$00, aproximadamente, do seguinte modo distribuidos: 16:000$00 no primeiro ano, 8:000$00 no segundo e 10:000$00 no terceiro.

- Avultada qantia.

- Sim. Se os materiais necessários à construção e tudo mais, afinal, não teem subido assustadoramente, o Hospital em Ilhavo já estaria a funcionar.

- Como? inquirimos admirados.

- Como? Se não funcionassem todas as enfermarias funcionariam uma ou duas. Aqui teem uma ideia nossa que tencionavamos por em pratica.

- Pode então dar-nos detalhadas explicações sobre ela?

- Não estou aqui para outra coisa. Oiçam para o terceiro aniversário, isti é, do dia primeiro de maio próximo em diante, o Hospital dará gratuitamente médico e remédios aos pobres.

- E como fazer face a esses encargos?

- Trabalhamos com metodo. A Câmara da presidencia do sr. Diniz Gomes prometeu aumentar para esse fim o subsidio aos médicos do partido.

O Hospital deve muitissimo mesmo a esssa Câmara - afirma numa acentuação de profundo agradecimento.

Imenso, imenso! Adiante explicarei.

Agora deixem-me expor-lhes os nossos projectos. Como vêem os pobres beneficiarão deveras. E a casa dará nesse mesmo dia - 1 de maio de 1922 - um bolo a todos - todos! - os pobres de Ilhavo. Havemos de trabalhar para que o saldo proveniente das festas que para esse dia projectamos, cubra todas essas despesas.

- Ideia simpática à qual todos darão a parcela máxima dos seus esforços.

- Assim o esperamos. Para o quarto aniversário - continuou Viriato Teles - ha-de esta casa já receber doentes.

Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04

- Não todas as enfermarias...

- Evidentemente. Apenas duas. Começa-se devagar.

- E verba para esses encargos que hão-de ser grandes?

- Nós ainda não tocamos nem tocamos nas anuidades dos socios. Essas quantias estão intactas e juntas ao subsidio do Governo hão de prefazer uma soma capaz de fazer face a essas despezas.

- Apesar dos maus agoiros que tanta gente faz a essa obra... o Hospital caminha, progride, não é verdade?

- Caminhará sempre, sempre. Tenho sofrido amargos dissabores, mas a minha fé e a minha coragem, como por milagre, recrudescem sempre.

Nunca sofri tanto na minha vida desde que trabalho nesta instituição. Caluniam-me, injuriam-me mas a minha consciencia diz-me que tenho cumprido sempre o meu dever.

- Até quando?
- Até que no fim de quatro anos, como rezam os estatutos, nova eleição seja eleita.
Um silêncio de minutos, segiu-se a esta resposta. Olhámos à volta do improvisado gabinete. Fotografias grandes arrumadas a um canto inspiraram-nos nova pergunta.
- Falou da Câmara com elogio. E mais, mais? Otras entidades que mereçam referência especial.
- A Câmara Diniz Gomes em primeiro lugar, confirmo. Notem que só no ano económico de 1920-1921 dispendeu ela cerca de 10:000$00 no pavimento externo de cimento armado, no jardim e lago respectivo, no reservatório de água, encanamentos ebomba e ainda em toda a madeira para solhar dois quartos e uma grande enfermaria. No orçamento de 1921-1922 tem já verba destinada a pagar o moinho que importará aproximadamente em 2:000$00.
- Um grande auxilio, não resta dúvida.
- Mas ainda há mais do imposto do piso, o Hospital já cobra metade, assim como terá parte no novo imposto das cédulas pessoais. Esta casa deve muitissimo a essa Câmara.
- E a mais alguem - adiantámos num sorriso...
- A mais alguem, a muitos. A Antonio Faustino de Andrade, ao dr. Costa Ferreira e à classe marítima. Esta classe tem auxiliado muito esta instituição, muito. E aqueles senhores, toda a gente sabe do que esta Casa lhes é devedora. É-me agradável constatar que embora as más vontades sejam muitas, as dedicações são em maior numero.
Pela minha parte, repito, o barco não meterá água. A obra grandiosa para a qual tantos teem teem trabalhado com denodo e sacrificio não deve, não pode resultar um fracasso.
Embaraços? Contrariedades? Desgostos? Ralanços? Sim ; tudo temos experimentado, eu e os meus colegas.
ah!... mas consola-nos, embriaga-nos de entusiasmo a ideia bemdita de que temos cumprido com honra o nosso dever. Dever de bons Ilhavenses, dever de patriotas.
Os senhores na Imprensa tem um grande e importante papel a desempenhar. Campanha acessa, inflamada, devem manter sempre em prol da nobre instituição.
- Mantivemos e manteremos sempre.
- Não o contesto. Assim é preciso. Cada um no seu posto deve cumprir o seu dever. E pronto. Que mais mandam?
- Mais nada. O Ilhavense agradece a sua solicitude e prontidão em prestar tão importantes informações. Um adeus alegre separavam-nos.
Um, dois, três... doze degraus descidos e eis-nos no jardim.

Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04


A caminho da redacção, recordavamos ainda a dália pendente e triste que parecia querer falar tambem...
A tenacidade admirável e a vontade de ferro de Viriato Teles causavam-nos admiração. Ele tinha-nos falado da dedicação da sua companheira, que todo o tempo lhe deixava livre para trabalhar na grandiosa tarefa. Todo! Sem um gesto de enfado ela substitue-o sempre que a necessidade impõe. Uma mulher a sacrificar-se pelo bem da colectividade...
Mulheres de Ilhavo, mulheres da minha Terra!... Que as vossas mãos se não cançem nunca na nobre tarefa do bemfazer... e Alguem abençoará o vosso trabalho, metamerfoseando em rosas... os espinhos que encontrardes na senda augusta do vosso Trabalho sacrosanto...


Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

Comentários