Falam as mulheres

"O ilhavense", 1921-12-18

O nosso inquérito. Mais duas opiniões

Palavras de incitamento

Sempre previramos que um retumbante sucesso coroaria a ideia do nosso inquérito. Tudo o levava a crer.
Ideia nova cujos resultados profícuos ninguem ousará contestar, a nossa mulher não podia deixar de dispensar-lhe o acolhimento carinhoso que nós sensatamente lhe tinhamos prognosticado.
Inserimos no nosso número de hoje mais duas opiniões que devéras se harmonisam com a publicada no ultimo numero.

***

Os redactores tinham-se feito anunciar e explicado o fim que os animava. Procuraram a ex.ma sr.ª D. Maria Sacramento Simões em sua casa.
A pergunta repetiu-se: «O que deve fazer O Ilhavense para se tornar util, instrutivo e agradável à nossa mulher?». A D. Maria Sacramento, após duas palavras de objecção por seu nome ser lembrado para o nosso inquérito, respondeu amavelmente:
- Não será melhor dividirmos em tres partes a pregunta?
- Como queira. Nós principiamos então: o que entende deve fazer o nosso jornal para se tornar util à mulher de Ilhavo?
- Entendo que a ela deve dedicar uma secção especial. Publicarão uma secção especial. Publicarão nela conselhos práticos sobre higiene, civilidade, sobre os seus deveres como dona de casa, como esposa, como mãe. Devo dizer-lhes que fazem um mau juizo todos os que julgam a mulher de Ilhavo refractária a leituras. Não senhor. A mulher de Ilhavo lê, bastante mesmo.
Concordo que certas leituras acarretam mais prejuizos do que beneficios. Mas as boas leituras não abundam e daí muitas vezes o ela recorrer a livros que em vez de instruirem, desmoralisam. Afirmo-lhes convictamente esta verdade: a nossa mulher na generalidade lê.
- Acha pois que se a ela dedicarmos uma secção especial, esta será lida pela maior parte das nossas conterrâneas?
- Sem dúvida. A minha opinião pessoal não pode deixar de ser esta: será lida.
- Bem. Passemos à segunda pergunta: "que deve  fazer O Ilhavense para se tornar agradavel?"
A D. Maria Sacramento pensa um pouco e diz tranquilamente:
- Um jornal tem inúmeros expedientes a que recorrer para se tornar agradavel ao sexo fragil. Inúmeros. Contudo citarei um alvitre. Promovam excursões. Temos lindos passeios sem que tenhamos necessidade de ir muito longe. E o valor das excursões é enorme. Algumas mães sentem relutancia em deixar entrar as filhas num certo número de divertimentos. Acompanhando-as pessoas de confiança, essa dificuldade seria vencida. Eu própria iria porque sei o quanto se aproveira desses passeios.
Escursões que deviam realizar-se conscientemente. Com programa préviamente delineado.
Como a D. Maria Sacramento ficasse em silencio por momentos, nós achamos oportunidade para formularmos a ultima pregunta.
- E instrutivo, o que deve fazer O Ilhavense para se tornar instrutivo?
- A ideia da D. Nazaré é belissima e os senhores devem trabalhar para a tornar um facto. Uma biblioteca, fundem uma biblioteca. Abram uma inscrição e verão como serão bem sucedidos. Eu estou pronta a pagar a minha cota. Os meus livros, a princípio, cedo-os com gosto. A ideia deve ir por diante.
- Sim. As palavras de incitamento são tantas que podemos quasi asseverar que a biblioteca, embora com tempo, ha-de fundar-se.
- Não devem desistir. Creiam que dundando-a prestarão a nós, mulheres, um beneficio enorme.
E pronto. Ouviramos bastante e haviamos registado uma opinião interessante.

***

Os redactores seguem agora rua João de Deus abaixo até ao Oitão e tomam pela rua Serpa Pinto. A sr.ª D. Silvina Ramalheira recebe-os tambem em sua casa. Uma ampla sala com muita luz, onde um vivo temperamento de artista ressalta dos multiplos quadros que a ornamentam, eis o aposento onde somos introduzidos.
O sol sádio e triunfante do meio dia põe em tudo uma nota de alegria, de côr, de graça...
A pregunta repete-se invariavelmente: "O que deve fazer O Ilhavense para se tornar util, instrutivo e agradável mulher de Ilhavo?"
- A minha opinião não merece ser registada, não tem merecimento preciso para ser tomada em consideração, mas exponho-a impelida por um dever: o dever de auxiliar os que trabalham com a alma, com o desinteresse. Artigos educativos, muitos, continuamente, nunca se cancem de os publicar. Ha escritos interessantíssimos sobre economia doméstica e mais assuntos que nos interessam que eu gostava de ver publicados.
- Os seus desejos serão talvez satisfeitos, creia...
- Tudo o que encerre conhecimentos úteis, descrições históricas, trechos, enfim, que possam despertar-nos primeiro a curiosidade e mais tarde o amor pelo saber, os senhores devem inserir no jornal.
- E tornaremos assim simultaneamente util, instrutivo e agradavel O Ilhavense à mulher de Ilhavo? - interrompemos.
- Tudo o que instrue é util... e o util agrada sempre. Notem, porem, que apesar disso... não conseguirão agradar, de modo algum, a todas as mulheres, as mulheres em absoluto. Isso reputo-o impossivel. Tentem ao menos agradar à maior parte. Já farão muito.
E nada mais perguntámos. Achámos suficiente o registado e demasiada a maçada.
As vísceras digestivas... e o relógio da igreja anunciavam-nos o imperioso dever de satisfazermos uma mecessidade: tomarmos a segunda refeição do dia.

Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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