Falam as Mulheres
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| "O Ilhavense", 1921-12-11 |
O nosso jornal, pelo seu 10.º aniversário, aumentou de formato. Quizemos assim corresponder gratamente ao acolhimento carinhoso que nos dispensa o povo de Ilhavo. Entendemos porém que só assim, melhorando as condições materiais do periodico, não podia exprimir-se dum modo sensivel a retribuição dum modo sensivel a retribuição de todas as amabilidades penhorantes que nos teem sido dispensadas. O Ilhavense quer e ha-de ser um jornal para todos: leitores e leitoras. Trabalharemos para o tornarmos um jornal à altura do momento. Boa vontade abunda.
Além duma série de importantes entrevistas que vimos publicando e continuaremos a publicarr, quizemos mais ainda ouvir as nossas mulheres e dedicarmos-lhe, se tanto for preciso uma secção especial. O inquérito inicia-se hoje com uma abalisada e autorisada opinião. Outras se seguirão nos números subsrquentes até que nos convençamos de que tenhamos auscultado com precisão o que pensa sobre tão oportuno inquerito a maior parte das nossas mulheres.
Iniciemos o inquérito:
***
Dia horrivel, tempestuoso. Numa esteada inconstante e pouco fixa da chuva impertinente que um dia inteiro caíra, quási sem cessar, apetrechados devidamente com o indispensável para uma travessia arrisccada, lá nos fomos de arriba até ao Alto Bandeira.
Os casacos e guarda-chuvas fustigados de esguelha pelo vento fortíssimo, dificultavam-nos a viagem curta mas desagradável o faziam crar-nos quási - agoirento prenúncio! - que iamos ser mal sucedidos na nossa primeira démarche.
Nossa de dois. Os redactores destacados para esta missão eram dois. Um par desageitado e sem simetria... mas um par afinal. As portas da habitação da ex.ma senhora D. Maria da Nazaré Cruz, estavam cerradas e trancadas para amedrontar o temporal.
Batemos. Nada. Esperamos.
Batemos de novo num momento em que o vento amainou. Atenção.
Alguem aparece indistinguivel por entre as vidraças fuscas da humidade das chuvadas. Reconheciamos agora a figura altiva da D. Nazaré.
Em poucos momentos, eramos introduzidos numa arejada sala de jantar, onde nas mais insignificantes particularidades de adorno, se apercebe o gosto delicado e fino dumas mãos femininas.
Sentamo-nos. As nuvns negras e densas que forravam o ceu, tinham encurtado o dia. Dentro de casa pouco se via já. Lé fóra o vento furioso e indomável ululava, ruidosamente e soltava cromáticamente uma musica macabra. Parecia vir trazer-nos de longe uma enchurrada de pensamentos lúgrebes e desenhar-nos na mente as imagens tétricas da Desgraça e da Dôr...
A D. Nazaré colocára-se-nos defronte, correndo os olhos por um jornal do dia, enquanto nós nos preparavamos a tomar apontamentos.
A primeira pregunta saú-nos dos lábios sêcamente:
- Sabe ao que vimos. Saber a opinião de V. Ex.ª sobre o inquérito a abrir no próximo número de O Ilhavense. "O que deve fazer o nosso jornal para se tornar util, instrutivo e agradavel à nossa mulher?"
A nossa entrevistada, olha-nos num sorriso, os seus cabelos de oiro agotam-se... e afirma com modéstia:
- Os senhores sabem a minha incimpetencia nêsses assuntos e devo dizer-lhes que encontrarão decerto quem melhor que eu, lhes poderá ceder informações interessantíssimas. Demais...
Nós atalhámos logo:
- Perdão. V. Ex.ª presta um assinalado serviço a O Ilhavense imitindo uma opinião. Pessoal, entendidos. Mas permita-nos a insistencia: queremos uma opinião.
- Bem. Eu não tenho intenção alguma em contrariar os seus desejos. Far-me-hão, contudo, pelo encarecidamente, uma alta fineza: ocultam o meu nome.
- V. Ex.ª vai já concordar com a nossa recusa a êsse grande desejo: Ocultando o nome de V. Ex.ª não faltará quem afirme ter esta entrevista sido forjada na redacção. Esse facto prejudica deveras a intenção dos nossos fins e nós queremos colher frutos benéficos desta ideia.
- Perfeitamente de acôrdo. Se bem que por temperamento, eu seja contrária a exibições espalhafatosas, não quero insistir mais na minha recusa, mesmo porque a ideia do inquerito me é sobremaneira simática.
Dos seus bons resultados colherei tambem beneficios: terei de futuro em O Ilhavense uma secção que me interessa devéras.
- Imensamente obrigados.
- Nós, as mulheres de Ilhavo, precisamos muito de leituras instritivas.
Muito, muito! Há uma má impressão que é preciso varrer.
- Compreendemos. O fim promordial do nosso inquérito obedeceu a êsse propósito. A nossa mulher é bela, das mais belas dêste Portugal querido. Mas a belesa física não é suficiente, não acha?
- Sim. A beleza da alma que só uma educação esmerada pode motivar, é talvez o mais apreciavel dote duma mulher.
- E O Ilhavense pode concorrar com o seu esforço para a educação da nossa mulher, não é assim?
- Assim o julgo. Uma secção especial dedicada a nós, era o ideal. Ainda que quinzenalmente. Nessa secção incluir-se-iam um artigo educativo, duma senhora que pudesse e quizesse escrever, alguns pensamentos e quadras de autores bons e um romance histórico.
Conheço alguns mas gostava mais que publicassem um que eu ainda não tenha lido. De Campos Junior, bom era que publicassem «O Guerreiro e Monge», a «Filha do Polaco» e outros que são magnificos.
Do romance publicar-se-ia um pequeno trecho em cada numero. Ninguem se aborreceria.
- A ideia de V. ex.ª é belíssima.
- Se houvesse dinheiro e auxilios, os senhores deviam fundar, agregada à redacção do jornal, uma biblioteca. Todos os que quizessem instruir-se, requisitariam livros pelos quais tomariam a responsabilidade. Mas infelizmente...
- ... O dinhero escasseia e é essa a grande dificuldade. A idêa está lançada... outros mais tarde que a efectivem.
- A biblioteca a fundar-se, traria benefícios incalculáveis para todos nós, dadas as dificuldades que se encontram hoje para se adquirirem bons livros.
São caríssimos. Os senhores, porêm, verão a melhor oportunidade para efectivarem essa ideia.
A D. Nazaré parava agora e olhava distraidamente os apontamentos que alinhavavamos. A conversação tinha decorrido serenamente. A voz da D. Nazaré tem um timbre inalterável, firme. Exprime com facilidade o objecto de seus pensamentos sempre brandamente, fleugmaticamente.
Os nossos desejos estavam satisfeitos. A palestrea derivava para multiplos assuntos: saraus idos, festas, recordações gratas que a saudade aviventa.
Ela lembra ainda com precisão o número único "O Ilhavense", saído ha anos e onde colaborou...
Tem palavras de louvor para a abnegação e espirito de sacrificio do nosso director.
A noite caira a fundo... e o temporal não acalmara ainda. Vinham ainda de fóra os rumores surdos das ramarias das árvores açoitadas pelo vento... que pareciam portadores duma enchurrada de pensamentos lúgrebes...
Agradecemos à nossa entrevistada a sua opinião para o nosso inquérito e saímos.
Belamente impressionados num verdadeiro contraste com a noite tempestuosa... depressa chegamos ao ponto do nosso destivo. Estava dado o primeiro passo na tarefa que acabaramos de iniciar...
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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