Em prol dos marinheiros - Ouça-nos o Governo
| Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04 |
A que vamos reclamar dos poderes publicos, do governo não pertence à primeira categoria, porque de ha muito anda na mente de todos, nem podemos enquadra-la na segunda, porque oportunidade ha sempre e dinheiro... se não o há, deve arranjar-se.
Foram este ano aos Bancos da Terra Nova, perto de 50 navios bacalhoeiros que multiplicados por 40 pescadores e tripulantes que, em media, leva cada um, perfaz o bonito produto de 2:000 homens.
Este ano, como a pesca fosse regular quantidade e como a maior parte dos nossos navios mercantes para aí está amarrada por esses portos dentro, devido à falta de transporte e outras causas importantes, natural é que o numero dos navios bacalhoeiros se eleve quasi ao dobro.
A pesca do bacalhau tende mesmo a aumentar e progredir muito em navios de nacionalidade portuguesa, atendendo a que o bacalhau pescado por navios estrangeiros vai começar a encarecer pelas multiplas despezas que os mesmos teem que fazer e pela percentagem assustadora que lhes exige o nosso governo nas alfandegas.
A falta de trabalho nos rios e ainda a diminuição crescente da pesca nas nossas costas, tudo são causas que levarão à Terra Nova, num futuro muito próximo, se não for já este ano, uma maior quantidade de navios e por conseguinte de pescadores e tripulantes portugueses.
Ora é sabido que os nossos marinheiros da Terra Nova, se algumas vezes carecem de auxilio médico ou mesmo de auxilio espiritual, recorrem sempre ao navio hospital francês "Sainte Jeane d'Arc" que lhes prodigalisa com caridade todos esses socorros, é certo, mas a quem o governo português tem de começar a pensar em evitar tal trabalho e tais incomodos, visto que aquele navio tem muitos conterrâneos a quem socorrer e a quem proteger.
E assim deve o governo portugues pensar em armar um navio hospital nosso que para aquelas paragens americanas deverá seguir convenientemente equipado, apto a prestar aos nossos patricios todos os auxilios de que estes carecem, tanto sob o ponto de vista material como espiritual.
Não temos, infelizmente, neste país, empresas particulares que se proponham a uma tão urgente medida em prol dos nossos marinheiros. Deve, por isso, o governo toma-la a peito desde já, para que esse navio hospital possa acompanhar os nossos pescadores já na próxima safra.
Tem o governo à sua disposição dezenas de vapores dos transportes Marítimos que o Estado só teem trazido colossais prejuizos.
Recrute o governo um desses vapores, acondicione-o ao fim que visamos, fale a pessoal de enfermaria e a medicos que o tripulem, convide os ministros das religiões para que, querendo, vão a seu bordo, onde poderão prestar os socorros espirituais aos seus irmãos em crenças e mande assim seguir já este ano um navio hospital nosso, poupando aos generosos franceses o trabalho que todos os anos tem de nos prestar esse valioso auxilio de medicina e religião.
É um assunto, este, de magna importancia para os nossos marinheiros e não deve descurá-lo o governo portugues.
A lembrança aí fica.
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo
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