Em beneficio do nosso Hospital
![]() |
| Jornal "O Ilhavense", 1921-12-04 |
UMA TARDE E UMA NOITE DE ARTE
Com um explendido dia de sol que apareceu deslumbrante o acariciador, realizaram-se, no domingo passado as festas promovidas pela Comissão composta dos srs. Viriato Teles, João Teles, Teodoro Craveiro, Duarte de Pinho, José Catarino e o nosso director, cujo produto reverteu em beneficio do nosso Hospital e na qual tomou parte um rancho de tricanas dos arrabaldes de Coimbra (ançã) que galhardamente acederam ao convite que previamente lhes fora feito pelo nosso querido colaborador sr. Manuel Mano, sujeitando-se a trabalhos e a canceiras sem fim, sem mira em qualquer remuneração e simplesmente pelo prazer de visitarem a nossa terra e auxiliarem o povo de Ilhavo na gigantesca obra de caridade em que ha dois anos anda generosamente empenhado.
A chegada do rancho
Conquanto a semana inteira estivesse chuvosa, especialmente o dia e a noite de sabado, o facto é que o domingo amanheceu formosissimo, rompendo o sol por detrás das serras, num fulgor brilhantissimo, que emprestava às coisas da natureza uma bela cor. Era uma manhã formosissima que depressa fez prever um dia cheio de luz e de vida.
A tempestade que de noite caira não arrefeceu o entusiasmo das tricanas de Ançã, que apesar do tempo, se meteram ao caminho, indo tomar o comboio à estação velha de Coimbra.
Às 8 horas da manhã chegava o rancho à cidade de Aveiro, onde era esperado por u,a deputação da Comissão, que o acompanhou uma visita à cidade, partindo dali ao meio dia e chegando à 1 hora ao cimo da vila, onde era esperado pelo resto da Comissão, por muito povo e pela musica nova, desta vila.
Organizou-se depois o cortejo indo a tuna do rancho à frante, seguida das tricanas que vinham vistosamente trajadas à minhota, a musica e o povo.
Posto o cortejo em marcha ao som da musica, foram erguidos algumas vivas. Ao passar por debaixo de algumas janelas foram arremessadas sobre o rancho bastantes pétalas de flores. Da Praça Alexandre da Conceição até ao Hospital marchou o cortejo ao som duma linda marcha cantada pelo rancho.
Às 3 horas e meia subiram as tricanas para o pavilhão onde cantaram e dançaram algumas das suas mais lindas canções.
Às 4 horas e meia apareceu no parque a banda da Vista Alegre, devidamente uniformisada, que tocou algumas peças do seu excelente reportorio, sendo erguidos, nessa ocasião, bastantes vivas.
Às cinco horas e meia terminou o festival onde estiveram perto de 600 pessoas.
Foi em seguida oferecido ao rancho um modesto jantsr.
A récita
Às 9 horas da noite subiu o pano do teatro da Caridade.
A casa estava inteiramente à cunha, tendo-se vendido mais de 100 bilhetes suplementares.
Ao erguer do pano estava o rancho formado em semi-circulo no palco. O nosso director tomou então a palavra para dirigir às tricanas dos lindos arrabaldes de Coimbra, as suas quentes e efusivas saudações, ao mesmo tempo que lhes agradecia o sacrificio grande que vieram fazer em beneficio do nosso Hospital. Recorda os trabalhos enormes que se teem feito para levar a cabo esta obra de caridade, terminando por desejar que o rancho leve para a sua terra as melhores impressões do nosso povo.
O pequenino discurso do nosso director foi coroaddo com uma prolongada salva de palmas.
-.Começou depois a récita cantando e dançando o rancho nos intervalos das comedias - «Os dois medrosos», desempenhada por João e José Teles e «O noivo de Alcanhões» por João Teles, Duarte de Pinho, Teodoro Craveiro, José Catarino e José Teles. Antes do intervalo houve um pequeno acto de variedades que constou de uma poesia recitada pelo sr. João Sagradas, de Ançã, outra intitulada "Portugal" pelo sr. Tolentino de Magalhães, e alguns fados belamente cantados pelo sr. José Baldaia Guerra, de Agueda, e acompanhados à guitarra pelo sr. Manuel Pitato. A recita terminou com o Fado de Ilhavo cantado pelo rancho cuja letra era a seguinte:
Rapariga
Ilhavo terra de encantos
Das mais belas raparigas
Onde se passam instantes
Que se vão sem ter fadigas.
Rapaz
Não há terra mais formosa
Em terras de Portugal.
Terra de encantos, ditosa
Outra assim não ha igual.
Coro
Terra d'encantos, ditosa,
Outra assim não há igual.
A casa, como dizemos acima esteve «au grand complet» como nunca esteve. O rancho foi muito ovacionado, retirando para Ançã na madrugada de segunda feira.

Comentários
Enviar um comentário