Coisas de lá - História do ti Bigões
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| "O Ilhavense" 1921-12-18 |
ao João d'Ilhavo
Aquele trecho ribeirinho da Ponta do Cajú no Rio de Janeiro, tinha para mim um especial encanto.
A par dos muitos ilhavenses que lá moravam e que se empregavam na ardua tarefa da pesca, havia tambem o ti Francisco Bigões e a sua consorte, a bôa e palradeira ti Maria Joana, em cuja morada se costumava reunir uma boa parte da colonia ilhavense, domiciliada no Rio.
Aquilo era mais alguma coisa do que um bocado da nossa Patria. Era bem um pedacinho deste Ilhavo lindo, para onde aquelas criaturas haviam transportado, conservando intactos, os caracteristicos costumes da nossa terra.
Como era consolador ver a ti Maria Joana a fazer rede e a tagarelar continuamente sobre coisas de Ilhavo, enquanto o ti Francisco olhava cuidadosamente as malhas da chincha e das [tarrafas?]
Eu, nesse tempo, tinha em mim o pecado original da Saudade da minha terra, por isso sempre que podia fugir áquela vida agotada do Rio, lá ia contente a refugiar-me na Ponta do Cajú ou na Praia do Retiro Saudoso, a mergulhar a alma naquelas telas de luz viva e sonora, onde os poentes alaranjadosm refllectindo nas aguas tranquilas e azuis, semelhavam, às vezes, os doirados momentos da nossa terra.
E que belas criaturas não eram aquelas, recebendo sempre de braços abertos os filhos de Ilhavo ainda mesmo aqueles que a sorte não protegia e que por lá apareciam exaustos de fome e de fadiga?!
- Até a muitos que lá em Ilhavo tem de seu, temos matado a fome, coitadinhos! - disse-me um dia a ti Maria Joana. E o ti Francisco, que não gostava que a mulher alardeasse da infelicidade dos seus conterrâneos, protestou logo:
- Cala-te mulher! Ninguem sabe ao que tem de chegar... E demais a mais - graças a Deus! - ainda não nos faltou o pãosinho.
- Lá isso é verdade. Graças a Deus!... - concordava a ti Maria Joana...
Só uma vez foram enganados na sua boa fé o ti Francisco Bigões e a ti Maria Joana, por um individuo qualquer que se dizia de Ilhavo e que afinal se apurou mais tarde ser de Setubal.
Não foi coisa de grande monta, pois o tal suposto ilhavense apenas comeu à tripa fôrra durante uns 15 dias. A ti Maria Joana não podia levar ávante semelhante desaforo, e sempre que se lembrava de tal, dizia:
- Disparate, já viram? Aquele estipor a dizer que era da nossa terra!... - comentava ela indignada. E continuou:
- Podia ser franco, porque nem que ele fôsse da Palhaça a gente não lhe negava nada. Mas enganar-nos assim?! Que grande raio malino aquele!...
- Deixa lá mulher... - dizia-lhe o marido. - Olha que o S. Pedro, e mais é o S. Pedro, também foi enganado...
- É ti Francisco, conte lá essa, homem - pedi-lhe eu, que tinha chegado naquele momento.
- Pois então não conheces a historia? Olha que ela é bem conhecida lá em Ilhavo.
- Pois olhe que para mim é novidade. Conte-a lá, - pedi eu novamente.
O ti Francisco tirou do bolso a bocêta do tabaco, e, enquanto enrolava o cigarro, começou:
- "Ha um rôr de anos houve uma peste muito grande lá pelas nossas bandas, e por tal sinal morria gente como pardais! Aquilo começou então a ir gente para o Ceu, que Deus te livre, e o S. Pedro que já se via à rasca com tanta alma, resolveu que só tivessem lá entrada aqueles que fossem de Ilhavo...
- Ou ele não fosse pescador, - disse do lado a ti Maria Joana.
- Ora um certo dia bateram à porta do Ceu e como o S. Pedro estava a espontar as barbas, veiu mesmo com a toalha cheia de pêlos abrir a porta.
- Tu quem és?, perguntou o Santo.
- Sou o Luiz Canin, de Ilhavo.
- Hum!... resmungou S. Pedro. A tua fala não me parece de Ilhavo. Qual é a tua profissão?
- Alfaiate de gabões e jaquetas que eu ia vender à feira dos treze.
- E como provas ser de Ilhavo?
- Pergunte-me vossa santidade o que quizer de Ilhavo, que de tudo lhe darei relações...
O santo olhando desconfiado para o Canin, foi-lhe dizendo:
- Tenho cá as minhas duvidas... Mas entra e senta-te aqui, enquanto eu vou lá dentro que está o barbeiro à minha espera.
Quando S. Pedro voltou para interrogar o mestre Canin, qual não foi o seu espanto! o gajo tinha-se raspado!...
- Para fóra não foi ele, que a chave está aqui... O malandro está cá dentro, mas como encontra-lo no meio desta multidão?
Assim foi. Mestre Canin não era de Ilhavo, embora por cá estivesse ha muitos anos, mas graças à sua astucia lá entrou naquele recinto celeste e o S. Pedro procurando-o um dia inteiro, nunca o encontrou, pois as barbas que o alfaiate levava, eram postiças".
A par dos muitos ilhavenses que lá moravam e que se empregavam na ardua tarefa da pesca, havia tambem o ti Francisco Bigões e a sua consorte, a bôa e palradeira ti Maria Joana, em cuja morada se costumava reunir uma boa parte da colonia ilhavense, domiciliada no Rio.
Aquilo era mais alguma coisa do que um bocado da nossa Patria. Era bem um pedacinho deste Ilhavo lindo, para onde aquelas criaturas haviam transportado, conservando intactos, os caracteristicos costumes da nossa terra.
Como era consolador ver a ti Maria Joana a fazer rede e a tagarelar continuamente sobre coisas de Ilhavo, enquanto o ti Francisco olhava cuidadosamente as malhas da chincha e das [tarrafas?]
Eu, nesse tempo, tinha em mim o pecado original da Saudade da minha terra, por isso sempre que podia fugir áquela vida agotada do Rio, lá ia contente a refugiar-me na Ponta do Cajú ou na Praia do Retiro Saudoso, a mergulhar a alma naquelas telas de luz viva e sonora, onde os poentes alaranjadosm refllectindo nas aguas tranquilas e azuis, semelhavam, às vezes, os doirados momentos da nossa terra.
E que belas criaturas não eram aquelas, recebendo sempre de braços abertos os filhos de Ilhavo ainda mesmo aqueles que a sorte não protegia e que por lá apareciam exaustos de fome e de fadiga?!
- Até a muitos que lá em Ilhavo tem de seu, temos matado a fome, coitadinhos! - disse-me um dia a ti Maria Joana. E o ti Francisco, que não gostava que a mulher alardeasse da infelicidade dos seus conterrâneos, protestou logo:
- Cala-te mulher! Ninguem sabe ao que tem de chegar... E demais a mais - graças a Deus! - ainda não nos faltou o pãosinho.
- Lá isso é verdade. Graças a Deus!... - concordava a ti Maria Joana...
Só uma vez foram enganados na sua boa fé o ti Francisco Bigões e a ti Maria Joana, por um individuo qualquer que se dizia de Ilhavo e que afinal se apurou mais tarde ser de Setubal.
Não foi coisa de grande monta, pois o tal suposto ilhavense apenas comeu à tripa fôrra durante uns 15 dias. A ti Maria Joana não podia levar ávante semelhante desaforo, e sempre que se lembrava de tal, dizia:
- Disparate, já viram? Aquele estipor a dizer que era da nossa terra!... - comentava ela indignada. E continuou:
- Podia ser franco, porque nem que ele fôsse da Palhaça a gente não lhe negava nada. Mas enganar-nos assim?! Que grande raio malino aquele!...
- Deixa lá mulher... - dizia-lhe o marido. - Olha que o S. Pedro, e mais é o S. Pedro, também foi enganado...
- É ti Francisco, conte lá essa, homem - pedi-lhe eu, que tinha chegado naquele momento.
- Pois então não conheces a historia? Olha que ela é bem conhecida lá em Ilhavo.
- Pois olhe que para mim é novidade. Conte-a lá, - pedi eu novamente.
O ti Francisco tirou do bolso a bocêta do tabaco, e, enquanto enrolava o cigarro, começou:
- "Ha um rôr de anos houve uma peste muito grande lá pelas nossas bandas, e por tal sinal morria gente como pardais! Aquilo começou então a ir gente para o Ceu, que Deus te livre, e o S. Pedro que já se via à rasca com tanta alma, resolveu que só tivessem lá entrada aqueles que fossem de Ilhavo...
- Ou ele não fosse pescador, - disse do lado a ti Maria Joana.
- Ora um certo dia bateram à porta do Ceu e como o S. Pedro estava a espontar as barbas, veiu mesmo com a toalha cheia de pêlos abrir a porta.
- Tu quem és?, perguntou o Santo.
- Sou o Luiz Canin, de Ilhavo.
- Hum!... resmungou S. Pedro. A tua fala não me parece de Ilhavo. Qual é a tua profissão?
- Alfaiate de gabões e jaquetas que eu ia vender à feira dos treze.
- E como provas ser de Ilhavo?
- Pergunte-me vossa santidade o que quizer de Ilhavo, que de tudo lhe darei relações...
O santo olhando desconfiado para o Canin, foi-lhe dizendo:
- Tenho cá as minhas duvidas... Mas entra e senta-te aqui, enquanto eu vou lá dentro que está o barbeiro à minha espera.
Quando S. Pedro voltou para interrogar o mestre Canin, qual não foi o seu espanto! o gajo tinha-se raspado!...
- Para fóra não foi ele, que a chave está aqui... O malandro está cá dentro, mas como encontra-lo no meio desta multidão?
Assim foi. Mestre Canin não era de Ilhavo, embora por cá estivesse ha muitos anos, mas graças à sua astucia lá entrou naquele recinto celeste e o S. Pedro procurando-o um dia inteiro, nunca o encontrou, pois as barbas que o alfaiate levava, eram postiças".
Quando o ti Bigões concluiu a historia, já havia à sua volta mais alguns curiosos que tinham entrado afim de ouvir a historieta e que lhe pediram logo que contasse a outra do ti Gambôa.
- Oh! essa é muito conhecida, disse o ti Bigões, ferindo lume no petanisco para acender a ponta do cigarro.
- Mas conte-a, ti Francisco.
- Então vá lá. No dia seguinte, à mesma hora, bateral outra vez à porta do Ceu.
- Quem está aí, perguntou o Santo.
- Sou eu, responderam de fóra.
- Mas quem és tu?
- Sou o ti Gamboa.
- Mas donde és tu e qual a tua profissão?
- Sou d'Ibalho e sou pescador.
- Olá! disse o S. Pedro desconfiado. Temos cá outro maráu. Isto agora, pia mais fino...
Quando o S. Pedro abriu a porta, o ti Gambôa, que ainda ia de manaias e com o gabão às costas, tirou respeitosamente o barrête e cumprimentou o Santo:
- Bom dia ti Arrais!
- Bom dia... disse o S. Pedro de má catadura. Então tu és de Ilhavo?
- É home! pois vocemecê não vê logo?
- Eu o que vejo é que já fui iludido uma vez, e não o quero ser outra.
- Que raio! Vocemecê parece que nem andou lá por Íbalho. Olha p'ras estas mãos calejadas da cana do remo.
- Diz-me uma coisa: Tu trazes algum documento com que proves ser de Ilhavo?
- Eu cá não senhor.
- Pois então vai-te embora, aqui não entras.
- É ti Arrais, com'ámigo não me faça isso. Olhe que ainda este ano fui mordomo duma festa que lá em Ibalho os pescadores costumam fazer a vocemecé...
- Sabes que mais, Gamboa: De cantigas estou eu cheio! Vai p'ro inferno!...
- É home! Pois até em Cezimbra e Setubal me conhecem pelo Gambôa d'Ibalho, e vocemecé está a mode a desconfiar de mim? Que raio, deixe entrar, ti arrais!
- Vai-te p'ro inferno, já te disse! Tenho cá na minha que tu não és de Ilhavo...
- Inda um raio me coma se eu não fôr d'Ibalho!
- O teu palavriado é de Ilhavo, mas tu nunca de lá foste...
- Ora vocemecê, ti arrais!... Olhe que nasci mesmo na Malhada ao pé do Ti Zé da Nau... Atão eu tinha alguma necessidade de o estar a enganar?
- Já te disse o que tinha a dizer. Não trazes documento algum, não entras! Deixa-me fechar a porta.
O ti Gambôa, quando viu o santo decidido mesmo a fechar-lhe a porta e já sem esperança nenhuma de dar entrada no ceu, disse-lhe já com a lagrima no olho:
- É ti arrais, deixe-me entrar que eu dou-lhe «um estipôr dum cabaz de sardinha!...»
Aquelas caracteristicas frazes do ti Gambôa, aquele «estipôr dum cabaz de sardinha», foram o passaporte seguro a garantir-lhe a entrada no ceu, e a provar que ele ilho, mas ilho chapado. S. Pedro olhou-o sorrindo, e abrindo bem a porta do ceu, disse-lhe:
- Entra, Gambôa, que és mesmo de Ilhavo...
Tais eram as historias que contava o velho Bigões naquelas tardes de poentes alaranjados, reflectindo nas aguas azuis e tranquilas, semelhando os doirados poentes da nossa terra.
JOÃO Teles
Fonte: Biblioteca do Museu Marítimo de Ílhavo

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